Pequeno manual da decomposição política – por Jacques Sapir I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Pequeno manual da decomposição política

Jacques Sapir, Le Causeur, 1 de Março de 2016

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O desencanto no que diz respeito “ao sonho” europeu perceptível sobre o conjunto do continente acompanha-se agora, em França, de um espectáculo de decomposição politica acelerada oferecido pelo PS epeloos Republicanos.

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(Photo : SIPA.AP21831429_000027)

Uma das características da situação actual é o desencanto no que diz respeito ao “sonho” europeu. A Europa, e em especial sob a sua forma da União europeia, já não põe ninguém a sonhar. A Europa levanta-nos preocupações e até mete mesmo medo. O “sonho” transformou-se em pesadelo, de Atenas a Paris, passando por Roma, por Lisboa e por Madrid. As causas são múltiplas: desemprego de massa, políticas de austeridade sucessivamente repetidas e cujo peso sempre é suportado, e dificilmente, pelos mesmos, mas também o crescendo das regulações liberticidas e os desvios de soberania e, por fim, os comportamentos escandalosos à escala internacional como se pode ver na gestão desastrosa da questão dos refugiados ou no alinhamento com a política externa dos Estados Unidos ou no apoio fornecido, de facto, aos neonazis que reinam em Kiev. Este desencanto traduz-se pelo aumento das contestações que põem em causa a União Europeia, de que o debate sobre uma saída possível da Grã-Bretanha (o que se chama “o Brexit”) é um dos exemplos. Provoca, em contrapartida, a crise aberta das elites políticas, em especial em França onde “a construção europeia” desde há muito tempo que tinha deixado o domínio da razão para entrar no do dogma religioso. É tudo isto que explica o espectáculo de decomposição politica acelerada que dão os dois partidos antigamente dominantes na vida política francesa, o Partido “socialista” e o ex-UMP rebaptizado os “ Republicanos”.

 

Um PS incapaz de fazer a triagem entre o essencial e o acessório

Esta decomposição é hoje uma evidência no PS. O texto co-assinado por Martine Aubry e alguns outros socialistas, texto de que já falámos, é um dos sintomas (1). Nesta “ruptura”, que parece bem hoje activada (2), entre duas linhas que no entanto tudo aproxima e em especial o seu europeísmo, estão aí as querelas de ego que primeiramente se expressaram. E isto é sintomático de uma decomposição política quando não se é mais capaz de fazer a triagem entre o essencial e o que é acessório, ou em que se acaba por considerar as questões pessoais como sendo essenciais. De facto, a coerência do governo, e dos partidos que o apoiam, é determinada pelo voto do Tratado sobre a estabilidade, a cooperação e a governança (o TSCG) (3), voto que foi obtido em Setembro de 2012 (4). Este Tratado sobre a estabilidade, a coordenação e a governança, contem realmente três mentiras pelo o preço de uma. Que estabilidade, quando se lê no relatório recente do FMI (5) que os mesmos mecanismos que foram postos em prática desde 2010 nada mais fizeram senão agravar a crise? Que estabilidade quando ainda se vê a depressão que conhecem os países em crise? Falar de estabilidade é aqui uma mentira flagrante. Que coordenação, ainda, quando se sabe que só há coordenação entre agentes livres e Estados soberanos, enquanto é a uma autoridade hierárquica que cada país se tem de sujeitar e que há neste tratado apenas dependência face às agências ditas independentes? Pessoalmente, escrevia em Outubro de 2012: “Este Tratado organiza com efeito a deterioração da democracia na Europa com o fim da autoridade suprema dos Parlamentos nacionais em matéria orçamental. Ora, é necessário recordar-se, é pelo consentimento ao imposto que começa a democracia. ” (6)

Que governança, por último, num Tratado que se provou inaplicável e que não teve outras funções que não fosse a de ser violado mal tinha sido assinado? Mas este tratado, efectivamente desastroso, foi a inspiração das diversas medidas tomadas por François Hollande e pelos seus diversos governos. Era este tratado que era necessário combater e não chorar sobre as suas consequências. Isto faz-nos lembrar, e muito, esta famosa frase de Bossuet que se aplica, infelizmente, de modo perfeito a esta situação: “Mas Deus ri-se das orações que lhe fazem para nos desviar das desgraças públicas, quando não se opõem ao que se faz para atrair estas mesmas desgraças.” Que digo eu? Quando se aprova e que tudo se subscreve mesmo que seja com repugnância. 7

Entre Fillon, Juppé, Le Maire e Sarkozy, onde estão as diferenças ?

Mas a decomposição verifica-se também na oposição. As primárias que os Republicanos querem organizar não é senão uma ofensa às instituições, de que este partido deveria, pelas suas origens, ser o seu melhor defensor. Esta decomposição traduz-se por uma escalada de pequenas frases, as posturas de que se envaidecem certos líderes políticos, o tom de voz elevado e os golpes baixos. Porque, entre Fillon, Juppé Le Maire e Sarkozy, onde é que estão as diferenças? Ligeiramente, mais ou ligeiramente menos austeridade? Um pouco mais, um pouco menos de austeridade? Alguns presentes a mais ou a menos para o Medef? O infantilismo desordenado contra a calvície coberta por muitos erros? Será, será sempre o mesmo alinhamento com Bruxelas, com a União Europeia e com a Alemanha. É necessário esperar que uma voz se levante para se fazer ouvir um outro discurso. Mas, em antecipação, temos direito ao mesmo espectáculo oferecido pelas gentes da rua Solférino ”.

Por último, há palhaços que nos propõem candidaturas de fantasias, como a de Nicolas Hulot, sem se estarem a incomodar com o programa em que estas candidaturas se podem sustentar. Esta focalização sobre personalidades é efectivamente a prova que estamos num espaço político completamente degradado.

(continua)

  1. Voir Sapir J., « L’indécence et l’impudence de la tribune de Martine Aubry » note publiée le 26 février in RussEurope, http://russeurope.hypotheses.org/4746 
  2. http://www.lefigaro.fr/politique/le-scan/2016/02/28/25001-20160228ARTFIG00072-martine-aubry-et-ses-proches-annoncent-leur-retrait-de-la-direction-du-ps.php 
  3. Voir le Traité sur la stabilité, la coordination et la gouvernance, dit TSCG, URL :http://www.consilium.europa.eu/media/1478399/07_-_tscg.en12.pdf 
  4. Voir Sapir J., « Honneur au Soixante-dix », note publiée le 9 octobre 2012 surRussEuropehttp://russeurope.hypotheses.org/266 
  5. http://russeurope.hypotheses.org/253 
  6. http://russeurope.hypotheses.org/266 
  7. Bossuet J.B., Œuvres complètes de Bossuet, vol XIV, éd. L. Vivès (Paris), 1862-1875, p. 145. Cette citation est connue dans sa forme courte « Dieu se rit des hommes qui se plaignent des conséquences alors qu’ils en chérissent les causes ». 

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