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A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – IX

Falareconomia1

A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva

Uma nova série sobre questões de Economia

 4. Contribuições para uma outra perspetiva da crise

(CONTINUAÇÃO)

9º Dia de diálogo

Volto à questão, o maior problema, é quando o rácio dos créditos relativamente aos depósitos é superior a 1. Aqui é que o Diabo, ou os diabos à solta, do capitalismo, nos pode lançar para o inferno bem real de uma grande depressão. Para te dar um exemplo, segundo o Morgan Stanley Research em 2007, na Inglaterra, o rácio créditos fornecidos/depósitos era de 137%. Quer isto dizer que bancos estavam a conceder empréstimos de 137 unidades monetárias por cada 100 unidades monetárias que aceitavam em depósitos. E isto para não falarmos do rácio de 174% nos maiores bancos ingleses ou de 322% para o Northern Rock. Aqui sim, estamos perante a criação pura de crédito.

Professor, agora sim, agora é que percebo a questão destes rácios, nomeadamente destes que recentemente vi:

Quadro I) Relação depósitos/créditos

HSBC 111%
RBS 89%
Barclays 81%
Lloyds TSB 71%
Alliance & Leicester 58%
Bradford & Bingley 58%
HBOS 57%
Northern Rock 31%

Se pegarmos, por exemplo, no Northern Rock temos uma relação de depósitos/créditos de 31%. O inverso desta dá-nos uma relação de 1/0,31=322%, ou seja, temos uma relação créditos/depósitos de que temos estado a falar é aqui de 322%! Não é isso? Meu Deus.

Tens razão. É isso mesmo, 322%! Isto faz-me lembrar o grande escritor católico francês, Paul Claudel, que quando era embaixador de França em Washington no período da Grande Depressão de 1929 escrevia sobre os “perigos mundiais” que representam os “métodos de Wall Street” que escrevia dizíamos sobre “este dinheiro que durante um ano sustentava a especulação em Wall Street e os valores quiméricos” sobre “este dinheiro que vinha de alguma parte”.

Mas agora é que os senhores me estão a confundir. Há aqui uma outra coisa que não entendo. Com esse crédito ex-nihilo a Inglaterra estaria numa enorme fase de crescimento. Ora a Inglaterra está falida, falida como a Irlanda. Mesmo assim, ela vai lançar no mercado agora e nos próximos meses 125 a 175 milhares de milhões de libras. E o Governador do Banco de Inglaterra votou contra porque queria um acréscimo de 200 mil milhões de libras. Está a ver bem?

Sabemos que está a perceber muito bem do que se está a falar, mas tenha calma. Repare-se, o nosso raciocínio tem a ver com a criação de moeda ex-nihilo para alimentar a economia real. Não é o caso, você está a questionar-me sobre um outro problema, o da financeirização da economia, em que a massa adicional criada, é criada para se apropriar, capturar, roubar diria mesmo, o excedente da economia real. O nosso problema, por agora, é o da economia real, e aqui é não só o da criação desse excedente, é de olhar, por exemplo, para o crescimento económico dos “trinta gloriosos anos”, assente num pacto implícito de repartição de ganhos, mas também para as “leis” que regulam a sua atual redistribuição, encontrando por esta via velhos amigos, David Ricardo e Marx.

Com o exemplo que acabamos de dar, procurámos explicar a questão da diferença entre o crédito tradicional, que permite a transposição no espaço de um poder de compra já existente na economia real, o crédito de Ricardo e de Marx, e o crédito ex-nihilo, a transposição no tempo, e não no espaço, de um poder de compra ainda não constituído, quando aplicado na economia real. Este último poder de compra é pois um poder de compra não nascido na produção corrente, o que o distingue claramente do anterior, do crédito clássico. Nada mais do que isso. Podemos ir um pouco mais longe introduzindo os rácios de risco, os acordos de Basileia, embora se vá apenas um pouco mais longe, do ponto de vista da forma e não em termos de substância. Peguemos no exemplo retirado de um bloco onde estes temas são tratados exaustivamente.

Como?

Vamos rever o nosso esquema à luz dos rácios de risco.

Para aqueles que não estão habituados a perceber como é que o rácio créditos/depósitos acima de 100% pode levar a absorver as reservas bancárias e criar uma pirâmide financeira veja-se o seguinte exemplo simplificado com base num sistema financeiro composto por dois bancos:

1. Sejam então os Bancos A e B. Ambos estão a zero em termos de depósitos e de créditos. Como reservas de caixa, o Banco A dispõe de USD 104,91 e o Banco B de USD 166,38. Estes não têm outros ativos como reservas. Ambos decidem conceder empréstimos, mas mantendo sempre o rácio crédito/depósito (C/D) em 130%.

Banco A:

– Reservas de Capital: USD 104,91 em dinheiro

– Depósitos: USD 0

– Empréstimos Concedidos: USD 0

– Empréstimos Obtidos: USD 0

Banco B:

– Reservas de Capital: USD 166,38 em dinheiro

– Depósitos: USD 0

– Empréstimos Concedidos: USD 0

– Empréstimos Obtidos: USD 0

2. O Banco A recebe um depósito de USD 100 e decide emprestar USD 130 a um cliente particular, mantendo assim, o rácio C/D de 130%. Este empréstimo (como todos os outros empréstimos nesta exposição) é garantido por uma hipoteca de um imóvel para habitação. O Banco A decide não esgotar as suas reservas em dinheiro, mas contrair um empréstimo de USD 30 junto do Banco B. Introduza-se agora a lógica de Basileia. O Banco B considera que este empréstimo feito a partir das suas reservas tem um risco de incumprimento de 50% e o Banco A considera igualmente que o empréstimo de $ 130 feito ao seu cliente tem um risco de 50%. (Na verdade, ambos os empréstimos podem estar a ser considerados como garantidos por imóveis e, neste caso, os 50% estão em conformidade com os rácios de Basileia.)

Portanto nestes dois bancos temos os seguintes registos:

Banco A:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: USD 104,91 em moeda e USD 65 noutros ativos (ou seja, USD 130 x 50%)

– Depósitos: USD 100

– Empréstimos Concedidos: USD 130

– Empréstimos Obtidos: USD 30

Banco B:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 136,38 em moeda (ou seja, $ 166,38 de reservas em dinheiro iniciais a que se subtraem os $ 30 concedidos por empréstimo ao Banco A) e $ 15 noutros ativos (ou seja, $ 30 x 50%)

– Depósitos: USD 0

– Empréstimos Concedidos: USD 30

– Empréstimos Obtidos: $ 0

3. O cliente que recebe o empréstimo de $ 130 do Banco A utiliza este crédito na economia real, comprando bens e serviços a um outro agente. Este, e este passo é importante, não anula a moeda escrituralmente criada fazendo-a desaparecer da economia. Significa que tem um crédito sobre a economia nesse montante e que deposita no Banco B. O Banco B, de acordo com a nossa hipótese quanto ao rácio créditos concedidos/depósitos recebidos, decidiu emprestar $ 169, mantendo, portanto, o rácio C / D de 130% e não tocando nas suas reservas de capital próprias. Sendo assim, vai contrair um empréstimo de $ 39 ao Banco A para perfazer os $ 169 que vai emprestar a um outro cliente. O Banco A considera que este empréstimo sobre as suas reservas tem um risco de 50% e o Banco B também considera igualmente que o empréstimo concedido de $ 169 é assumido com o risco de 50%.

Portanto, os livros de ambos os bancos registam agora o seguinte:

Banco A:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 65,91 em dinheiro (ou seja, os $ 104,91 anteriores, a que se subtraem os $ 39 emprestados ao Banco B) e $ 84,5 noutros ativos (ou seja, os $ 65 anteriores a que se juntam os $ 39 * 50% do empréstimo de agora).

– Depósitos: $ 100

– Empréstimos Concedidos: $ 169 (ou seja, $ 130 anteriores mais os $ 39 concedidos agora ao Banco B)

– Empréstimos Obtidos: $ 30

Banco B:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 136,38 em dinheiro e $ 99,50 noutros ativos ($ 15 anteriores + $ 169 * 50% do crédito de agora).

– Depósitos: $ 130

– Empréstimos Concedidos agora: $ 169 (ou seja, o volume anterior ($ 130) acrescido de $ 39 ( 130.0,30) obtidos por empréstimo em A )

– Empréstimos Obtidos junto de A em moeda Banco central: $ 39

4. O cliente que recebe o empréstimo de $ 169 do Banco B utiliza também este crédito na economia real, comprando bens e serviços. De novo, retenhamos a hipótese central, que este dinheiro não é anulado no outro banco. O agente económico que vendeu bens e serviços não deve nada a ninguém, hipótese esta constante de período a período, depositando o dinheiro no Banco A. O Banco A recebe assim um depósito de $ 169 de um particular com fundos provenientes de um empréstimo concedido pelo Banco B. Como queremos manter a relação créditos/depósitos em 1,3 então significa que o Banco A vai conceder um empréstimo a um outro cliente de $ 219,70. O Banco A decide não utilizar as suas reservas, mas contrai um empréstimo adicional junto do Banco B, no montante de $ 50,70. O Banco A considera que este crédito tem um risco de 50% e o Banco B considera que o empréstimo sobre as suas reservas feito ao Banco A também tem um risco de 50%.

Portanto os livros de ambos os bancos registam agora o seguinte:

Banco A:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 65,91 em dinheiro e $ 194,35 noutros ativos (ou seja, $ 84,5 anteriores + $ 219,70 * 50% do crédito de agora)

– Depósitos: $ 269 (ou seja, $ 100 + $ 169 recebidos nesta fase)

– Empréstimos Concedidos: $ 379,70 (ou seja, $ 160 anteriores + $ 219,70 de agora)

– Empréstimos Obtidos: $ 30 + $ 50,70, empréstimos contraídos em moeda banco central junto do banco B.

Banco B:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 85,68 em dinheiro (ou seja, $ 136,38 anteriores menos os $ 50,70 concedidos agora de empréstimo ao Banco A) e $ 124,85 noutros ativos ($ 99,50 anteriores+ $ 50,70 * 50% do empréstimo sobre as suas reservas concedido ao Banco A).

– Depósitos: $ 130

– Empréstimos Concedidos agora: $ 249,70 (ou seja, $ 199 anteriores mais os $ 50,70 de agora concedidos ao banco A)

– Empréstimos Obtidos: $ 39

5. O cliente que recebeu o empréstimo do Banco A vai utilizá-lo para comprar bens e serviços. Quem os vende, recebe o dinheiro e mais uma vez também não deve nada a ninguém, depositando o valor da venda no Banco B.

O Banco B recebe assim um depósito de $ 219,70, o que lhe permite agora emprestar $ 285,61 (mantendo, portanto, o rácio C / D constante em 130%) não mexendo nas suas próprias reservas de caixa. Como apenas dispõe do depósito de $ 219,70, precisa então de contrair ele um empréstimo sobre o Banco A de $ 65,91, para compensar a diferença entre os $ 285,61 e os $ 219,7. O Banco A considera que este empréstimo ao Banco B tem um risco de 50% e o Banco B também considera o empréstimo de $ 285,61 feito ao cliente particular tem ele também o risco de 50%.

Portanto os livros de ambos os bancos representam os seguintes valores:

Banco A:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 0,00 em dinheiro (ou seja, $ 65,91 anteriores – $ 65,91 do empréstimo feito agora a B) e $ 227,30 noutros activos (ou seja, $ 194,35 anteriores + $ 65,91 * 50% do empréstimo concedido agora a B).

– Depósitos recebidos: $ 269

– Empréstimos concedidos: $ 349,70

– Empréstimos Obtidos: $ 80,70

Banco B:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 85,68 em dinheiro e $ 267,65 noutros ativos (ou seja, os $ 124,85 anteriores + $ 285,61 * 50% de agora)

– Depósitos recebidos: $ 349,70 (ou seja, $ 130 + $ 219,70)

– Empréstimos concedidos: $ 535,61 (ou seja, $ 249,70 anteriores + $ 285,61 de agora)

– Empréstimos Obtidos: $ 104,91 de moeda banco central obtida junto do banco A (ou seja, $ 39 anteriores mais os $ 65,91 concedidos agora)

6. Vimos que anteriormente o Banco B tinha concedido um crédito de $ 285,61. O cliente utiliza o crédito, comprando bens e serviços neste montante. Quem lhos vende fica assim com um crédito sobre o Banco B. Utiliza-o ou não. Por hipótese não deve nada a ninguém. Deposita-o neste caso sobre o Banco A. Fica com um poder de compra em bens e serviços sobre a sociedade deste montante. O Banco A recebe um depósito de $ 285,61, que é um crédito sobre o Banco B. Como recebe um depósito decide fazer um crédito, mantendo sempre constante o rácio C/D em 130%, ou seja, abre uma linha de crédito de $ 371,29. Mas, o Banco A já não tem reservas em caixa e para esse crédito contrai um empréstimo junto do Banco B na respetiva diferença, entre o crédito concedido e o depósito recebido ($ 317,29 – $ 285,61), ou seja, contrai um empréstimo de $ 85,68. O Banco B considera que este empréstimo das suas reservas tem um risco de 50% e Banco A também considera que o empréstimo concedido de $ 371,29 tem igualmente um risco de 50%.

Portanto os livros de ambos os bancos representam os seguintes valores

Banco A:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 0,00 em dinheiro e $ 412,94 noutros ativos (ou seja, $ 227,30 anteriores + $ 371,29 * 50% do crédito concedido agora).

– Depósitos: $ 554,61 (ou seja, $ 269 de depósitos anteriores + $ 285,61 do depósito de agora)

– Empréstimos concedidos: $ 720,99 ($ 349,70 anteriores + $ 371,29 do empréstimo de agora)

– Empréstimos Obtidos em moeda banco central junto do banco B: $ 166,38 (ou seja, $ 80,70 anteriores mais $85.68, o empréstimo de agora)

Banco B:

– Reservas de Capital ponderadas pelo risco: $ 0,00 em dinheiro (ou seja, os $ 85,68 menos os $ 85,68 concedidos a título de empréstimo ao Banco A) e $ 310,49 de noutros ativos (ou seja, os $ 267,65 anteriores mais os $ 85,68 * 50% de agora)

– Depósitos recebidos: $ 349,70

– Empréstimos Concedidos: $ 621,29 (ou seja, 535,61 anteriores mais os $ 85,68 de agora)

– Empréstimos Obtidos: $ 104,91

7. Após estas operações o sistema apresenta a seguinte configuração:

– Último empréstimo concedido: $ 371,29

– Reservas em dinheiro detidas inicialmente pelos bancos: $ 271,29 (ou seja, $ 104,91 do Banco A mais $ 166,38 do Banco B).

– Reservas em dinheiro detidas no final pelos bancos: $ 0 (as reservas iniciais foram gastas pelos bancos).

– Reservas noutros ativos detidas inicialmente pelos bancos: $ 0

– Reservas noutros ativos detidas no final pelos bancos: $ 723,43 (ou seja, $ 412,94 do Banco A mais $ 310,49 do Banco B)

– Total das reservas detidas pelos bancos no final, as reservas combinadas: $ 723,43.

– Depósitos criados e recebidos: $ 904,31 (ou seja, $ 554,61 do Banco A mais $ 349,70 do Banco B)

– Empréstimos concedidos que se utilizaram na economia para comprar bens e serviços: $ 1.175,60 (ou seja, $ 720,99 do Banco A e mais $ 454,61 do Banco B e que foram registados nos livros de cada banco como Reservas de Capital com 50% de risco).

Desculpem-me, por favor, mais devagar. Têm aqui uma diferença entre os depósitos e os créditos, de $ 271,29, logo haverá aqui uma tensão inflacionista. É isso?

Não senhor. Não é assim. Neste período temos, de facto, despesa feita pelos particulares no valor de $ 1.175,60. No entanto, também neste período, temos depósitos no valor de $ 904,31, dos agentes que não consumiram, que transferiram no tempo a sua despesa e temos uma redução das reservas dos bancos no valor de $ 271,29. Ou seja, o valor da despesa feita pelos particulares corresponde ao somatório dos depósitos feitos pelos mesmos particulares com as reservas de capital inicialmente detidas pelos bancos, que ficaram a zero em ambos os bancos no fim do período. E não te esqueças, e sublinhámo-lo passo a passo, cada depósito consistia em dinheiro que se dispunha e que não se devia a ninguém. Aqui está eliminada a moeda negativa de que falámos antes.

Mas, não quer isto dizer que não haja problemas. Imaginemos que o detentor do último crédito o gasta em bens e serviços e quem lhos vende quer transformar o crédito em dinheiro. Isto é, rompeu-se o equilíbrio em quem antecipa e quem difere consumo. Neste nosso exemplo, o cliente que utilizou o crédito está a antecipar um rendimento, futuro, está a fazer overtrading, mas quem recebe o crédito quer transformá-lo em líquido. Mais nada. Então a questão que se coloca é uma questão pura e simples de liquidez, mas de mais nada. Ou o Banco Central intervém de facto, injetando a liquidez necessária e o problema anula-se temporariamente ou não caso não intervenha. Aqui, se não se intervém o banco em questão precisa de liquidez, vende ativos, créditos, inclusive, e é o descalabro, os títulos começam a descer em flecha, os depositantes começam a correr a levantarem os seus depósitos antes que fiquem sem eles e acelera-se o desastre. Mas, sublinhe-se, que isto acontece por uma questão de liquidez. Mais, como sabes os rumores espalham-se rapidamente é por isso que todos os depositantes, com medo de verem os bancos falirem e de não reaverem o dinheiro, correm a levantá-lo. Mas, repara que todos os depósitos foram transformados em créditos e portanto a liquidez a que se reportam não está nos bancos. Nos bancos praticamente só há papel, não notas do banco central! E este problema é independente do rácio Créditos/Depósitos ser maior ou igual a 1. Esta é a questão importante. Ao descoberto junta-se o desequilíbrio entre a tradicional antecipação de poder de compra, os créditos tradicionais, feita a partir de depósitos existentes, e as despesas deferidas, os tradicionais depósitos constituídos junto dos bancos. Neste caso, aqui há ainda a salientar uma questão curiosa. Os depósitos constituídos foram de $ 904,31 e os créditos para além destes foram $ 904,31 (1.3) – $ 904,31, ou seja 0,30 vezes $ 904,31, ou ainda $ 271,29 que são exatamente as reservas em caixa dos bancos ($ 104,91 do Banco A mais os $ 166,38 do Banco B) e era, portanto, um poder de compra pré-existente. A liquidez dos bancos evaporou-se, de tudo isto ficou uma montanha de direitos, os dos depositantes sobre os bancos respetivos e uma montanha ainda maior de direitos dos bancos sobre os agentes económicos a quem foram concedidos os créditos. Ora se entramos em crise, ou melhor se aprofundamos a crise com as políticas de austeridade a nível global como está a ser exigido, o mais provável é então que os créditos à partida créditos normais se transformem em créditos degradados, irrecuperáveis muitos dele, é todo o sistema financeiro que se afunda. Adiciona a isto os rumores que se instalam, as dúvidas que se criam, os temores que se ampliam. Fácil, portanto, considera-se que se vive em equilíbrio instável, numa espécie de fio de lâmina de barbear. O mais improvável é percorrer o trajeto da lâmina de barbear sem nos cortarmos e sem cairmos.

Desculpem-me. Pelo que agora me explicam, estamos na ótica do multiplicador, não introduzimos a pressão da finança na criação de moeda ex-nihilo, não incluímos a sua pressão sobre a economia real. É a visão mais simples do mundo, onde se respeita Basileia e mesmo assim temos como almofada da vida económica, uma montanha de dívidas, dos bancos para com os depositantes, dos mutuários para com os bancos. Um acidente, por pequeno que seja, e pode ser o desastre. Basta não termos reguladores à altura. Tenho razão?

Pensamos que não tens. Repara. Estamos na ótica do multiplicador de crédito e aqui não se pode falar em overtrading. O que se gastou foram as reservas dos bancos, as notas de banco central. Ora estas, se entendermos, como o entendemos, que a moeda banco central é uma dívida da sociedade que circula livremente, a esta corresponde um poder de compra existente e portanto houve apenas deslocação no tempo de quem consome esse valor. De resto, o autor que citas com tanto orgulho é bem claro:

Dissemos que o overtrading assenta sobre a criação de um poder de compra extrínseco, mas que é, sejamos claros, extrínseco à produção corrente. A longo prazo não é, logicamente, extrínseco, uma vez que se trata de um rendimento futuro que se antecipa que se antecipa para o presente.

“O overtrading assenta pois sobre o crédito – e isto é o que devemos não esquecer – mas sobre um crédito qualitativamente diferente do crédito clássico. Este último, em todas as suas formas, nada mais faz do que deslocar o poder de compra no espaço, transferindo-o de um sujeito a outro, do aforrador ao investidor ou ao consumidor, quer seja diretamente, credor ao devedor, ou indiretamente, pela intermediação de organismos especializados. Inversamente com o outro tipo de crédito, com o crédito que torna possível o overtrading. Este último crédito é um crédito que desloca o poder de compra no tempo e não no espaço, desloca-o do futuro para o presente.”

No caso que agora levantas, a diferença entre os créditos abertos e os depósitos de moeda escritural realizados, é a liquidez em moeda banco central que se esfumou, se gastou na economia real. Mas a riqueza, o valor correspondente, estava já na economia real. Se quiseres falar de overtrading dirás, como diz Emmanuel, que se trata de um overtrading individual compensado por um outro undertrading individual, transposição no espaço do mesmo poder de compra.

 A conclusão a tirarmos é a de que para a análise da crise o exemplo numérico acima não nos trás adicionalmente muita coisa o caminho pelos critérios de Basileia. A análise conjunta multiplicador de crédito, divisor de crédito e a criação ex-nihilo parece-me mais eficientes e menos maçadoras, diremos.

Mas esperem. Deixemos então o exemplo numérico uma vez que esta se situa na ótica do multiplicador de crédito mas em contrapartida olhemos para a tabela que nos dá a situação de diversos bancos na Inglaterra. Aí é visível a presença da criação monetária ex-nihilo tal é a enorme diferença entre créditos abertos e depósitos constituídos. Adicione-se então à montanha de créditos e de depósitos, em que é tudo papel, acima descrita a verdadeira moeda ex-nihilo, a moeda escritural que é criada e que não tem nenhuma contrapartida nos depósitos feitos nem corresponde a nenhuma poupança pré-existente. Esta não existe na ótica do multiplicador enquanto que na ótica do divisor de crédito é dada pela diferença entre o total de créditos firmados e os depósitos criados. Essa diferença, a da moeda ex-nihilo, pode ser vista como a contrapartida monetária do over-trading? Será que tem algum sentido o que estou a dizer?

Aqui tens toda a razão, pelo menos parcialmente, foi a resposta que o aluno ouviu, radiante. Como se disse, a ótica do divisor de crédito é central na explicação de uma economia sustentada pelo endividamento mas quando assim é este endividamento pressupõe que por detrás dele está o aprofundar da desigualdade da repartição do rendimento, coisa que que o até muito neoliberal Alain Greenspan reconheceu.

Como assinala o autor que tanto gostas de referir:

“abstração feita de toda a desproporção sectorial (desajustamento na estrutura de procura e oferta) o que permite resolver uma situação em que o poder de compra global é, em termos de valor, inferior à oferta global de mercadorias não é a utilização de uma parte do poder de compra existente para comprar bens de capital em vez de bens de consumo mas sim a criação ex-nihilo de um poder de compra adicional para comprar indiferentemente uns ou outros. É a antecipação do rendimento e não a forma de o utilizar, de o gastar, que é determinante mesmo se, na realidade, esta antecipação é, no essencial, feita pelos capitalistas e acompanhada principalmente de investimentos. Não é porque se investe que se estimula a atividade económica”

Têm razão, mas há aqui um detalhe que me parece que os senhores estão a passar rapidamente por cima.

Foi o que ouvimos. E qual é o detalhe, perguntámos de seguida?

O exemplo de Emmanuel tem a ver com a dinâmica do capitalismo, com a dinâmica que pode evitar os bloqueios do sistema, do sistema que funciona sempre em fio de navalha, com a dinâmica da desigualdade P>R que vimos antes. Mas esta é também uma dinâmica que mal conduzida pode levar ao endividamento em cascata, pode levar à crise, Tanto é assim que overtrading também é consumir hoje o que se vai ter amanhã, é criar dívida hoje para pagar amanhã Ora, na crise actual e como se viu e se sabe o overtrading realizado assentou basicamente na expansão do consumo nos bens de base e nos bens de luxo e não tanto nos bens de investimento. Sabemos até pela lógica do multiplicador que do ponto de vista da despesa criada é indiferente que a expansão venha de um lado ou de outro. Porém manter-se de forma sustentada em antecipação de rendimentos a dinamizar sobretudo a produção de bens de consumo e não de investimento levou a que rebentada a crise não havia capacidade de resposta das economias porque a dinâmica da economia da dívida levou à distorção quer na produção de bens de investimento quer de bens de consumo a favor dos bens de luxo. Procurar eliminar a crise significava procurar eliminar também estas distorções entre a oferta e a procura, o que o autor elimina logo à partida, porque não é este o seu campo de análise. Ora, tudo isto exige tempo e sacrifício. E exige ainda muitos meios dados os desperdícios sociais e de desvalorização do capital que a saída da crise impõe, pelo necessário readequar da estrutura produtiva às novas necessidades económicas e sociais que irão emergir então com as novas políticas. Ou será que a estrutura de consumo se mantèm? Será que tenho razão?

Meu caro, estás a aumentar a intensidade das suas perguntas, dissemos. Tudo o que disseste é verdade, mas essa distorção também ela assenta na captação voraz do excedente económico pela parte do sector financeiro que terá assim levado à redução do investimentos na economia real. É pois claro que as economias ficaram fragilizadas, descapitalizadas até, como o caso português bem ilustra, mesmo que seja só para dinamizar o crescimento e o crescimento é coisa que está fora do quadro da citação por ti introduzida nestes diálogos. Tanto mais que, quanto à eliminação feita por Emmanuel no princípio da citação, não a podes criticar, pela simples razão de que ele está a explicar o que é o overtrading mesmo nas melhores condições possíveis de equilíbrio. E portanto temos aqui três problemas: o do domínio do sector financeiro sobre a economia, sobre a apropriação do excedente, o efeito disto mesmo sobre a estrutura de produção e consumo, enviesada a favor dos bens e serviços de luxo e um terceiro problema, a necessidade de alterar a estrutura de produção e do mercado de trabalho assim como a repartição, São necessárias condições políticas para atacar este tipo de problemas e o problema maior é que estes têm que ser atacados em conjunto. Uma tarefa equivalente talvez aos trabalhos de Hércules. Não é só uma questão de tempo, como dizias. É preciso também muita vontade política para o querer fazer e depois também muita vontade política para o conseguir fazer.

Mas por agora não nos baralhemos e fiquemos ainda pela análise do sector financeiro. Como se viu, a questão dos rácios de Basileia não acrescenta nada de novo ao que foi dito anteriormente e confirma a posição de Lord Adair Turner de que pelo menos é necessário uma reforma global do sistema financeiro mas isto, por seu lado, só será verdadeiramente eficaz se, em paralelo, for acompanha de uma profunda democratização das sociedades e da criação de mecanismos à escala planetária de regulação do comércio internacional. A razão é simples, uma vez que durante 30 anos temos vivido sob o império da alta finança, da finança estruturada, durante três décadas, a sociedade como um todo e as suas instituições estiveram a ser moldadas de acordo com os objetivos dessa mesma alta finança. Se a reformarmos de alto a baixo, se a sociedade é capaz de o fazer, será ela própria capaz de se reestruturar também, ou melhor, a exigência de uma modificação profunda numa das duas, sociedade e finança, pressupõe uma modificação da outra, porque são realidades gémeas.

Penso pois que podemos retomar as tuas questões. Ou não?

Percebi, mas desculpem, ainda não me explicaram em nada o parágrafo com que acabámos há dias os nossos diálogos sobre a questão do crescimento económico, a questão do papel do Estado, etc. É possível falarmos disso? E será possível depois falarmos do endividamento das famílias? E poderemos retomar depois o problema da financeirização? Proponho-lhes, a todos, esta sequência, pois se entendi bem, esta é a sequência lógica do vosso modelo explicativo, ou não será? Mais ainda, nesta sequência gostaria de vos colocar uma pergunta e cuja resposta poderia constituir o pano de fundo para o continuar da nossa conversa sobre a crise. Ei-la:

Pela lógica do divisor de crédito, não poderia haver um massivo crédito a descoberto para relançar o crescimento económica e atacar de frente essa brutal chaga que são os milhões de desempregados na Europa? Temos homens, temos fábricas, temos competências, temos matérias-primas, temos as necessidades por satisfazer. Porque não.

Impossível, meu caro.

Mas então, digam-me, estaremos nós condenados a morrer em crise, é isso?

Não, nada disso. Estamos a falar de outra coisa

Não te esqueças que no divisor de crédito como no multiplicador de crédito também, os bancos reagem com a criação de moeda escritural quando e só quando solicitados pela economia. Ora nesta situação de crise quem são os investidores reais dispostos a endividarem-se massivamente para investir e produzir quando não há nenhuma procura nem privada nem pública que o justifique? Não os há, é pura e simplesmente assim. Regressemos ainda ao nosso autor, teu e nosso, Arghiri Emmanuel. Diz-nos ele e sobre isto também já falámos antes:

“O crédito tal como o acabámos de explicitar fosse ele gerador de moeda e não apenas distribuidor de moeda é uma condição necessária mas não suficiente. A possibilidade de financiamento não chega para que um empresário se lance neste ou naquele projeto: é ainda necessário que ele encontre ai motivação, o mesmo é dizer, interesse como empresário, como capitalista. Para fazer overtrading é necessário dois agentes: um banqueiro disposto a financiar, um empresário disposto a investir.

Geralmente, o financeiro e o industrial são sensíveis, um e outro, às mesmas motivações, aos mesmos condicionamentos, às mesmas euforias e disforias, de toda a gente dos negócios, aos altos e baixos da atividade económica. Com tudo o resto igual, um projeto válido em si é um projeto aceitável pela banca, bancável. O que queremos dizer com isto, é que a existência somente do mecanismo de criação monetária escritural ex-nihilo não chega: é necessário também que hajam possibilidades de negócios.” Por outras palavras. Exige-se ambiente económico favorável aos investimentos para que estes se realizem.

(continua)

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Para ler a parte VIII deste texto, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, cliquem no link:

A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – VIII

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