A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva
Uma nova série sobre questões de Economia
4. Contribuições para uma outra perspetiva da crise
(CONTINUAÇÃO)
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8º Dia de diálogo
II.3.3 Uma visão de síntese
Como qualquer sociedade financeira (intermediário não bancário) os bancos comerciais dispõem do direito de emprestar a poupança prévia que lhe é confiada (o banco concede empréstimos sobre o dinheiro dos seus depositantes) ou aquela com que se pode abastecer no mercado secundário, o mercado REPO, o mercado financeiro. Para esta atividade, os depósitos permitem os créditos e os bancos comerciais podem recolher depósitos e atribuir créditos sem limitação de duração.
Gozam além disso de uma vantagem considerável: podem emprestar dinheiro sem ter previamente esses recursos, simplesmente “monetarizando ativos não monetários” para esta atividade, os créditos fazem os depósitos que é um passivo socialmente reconhecido como meio de pagamento.
A moeda é finalmente nada mais que uma dívida de banco que circula, um elemento do passivo bancário aceite como meio de pagamento. O essencial está que este crédito possa seguidamente ser utilizado livremente sobre os mercados, em suma, o essencial é que seja reconhecida como uma verdadeira moeda.
No entanto, são por conseguinte os créditos que fazem os depósitos e não ao caso inverso, porque se não houvesse créditos iniciais não houver moeda bancária (moeda-dívida) em circulação e por conseguinte não haveria poupança disponível que pudesse ser emprestada de novo. É a concessão do crédito, o facto “de dizer sim”, que dá nascimento a um suplemento de moeda.
Professor, ou percebi mal ou então ainda não me respondeu quanto à expansão do crédito e sua importância na crise. Estou errado?
Não, não estás não, mas avisei-te: pedes-me para escalar as escarpas da nossa própria ignorância, da minha e também, ou sobretudo, da tua, mesmo que nisto não haja grande diferença quanto à dimensão da nossa própria ignorância. Não queiras respostas imediatas ou mesmo respostas, oferecer-te a hipótese de dúvidas como eu tenho, significa que já valeu a pena.
Repara que a questão do crédito em princípio não se levanta quanto ao multiplicador de crédito, porque há apenas deslocação da poupança de quem a tem para quem antecipa os seus rendimentos consumindo-a em bens de investimento ou de consumo. Repare-se que o crédito concedido é sujeito a uma situação de recursos disponíveis pelo lado da banca. A menos que a crise estale e quem tem as poupanças as procure levantar rapidamente com o medo de que o banco vá à falência, não será por esta via que haverá problemas. No fundo, numa situação de crise, os bancos como qualquer empresa, ou talvez mais que as outras empresas, correm o risco de entrar em falta de liquidez e por essa via podem entrar em situação de falência. É a terrível situação de bank running. Repara-se que no multiplicador de crédito há sempre uma poupança a corresponder depois a um crédito assente nessa mesma poupança. Se o banco calculou bem os riscos, não haverá incumprimentos, não haverá créditos de má qualidade e o problemas por este lado poderão vir apenas da economia real, quando em crise transforma gente de crédito de qualidade em créditos de muito má qualidade. Isto é um problema sério a exigir uma solução que ultrapasse o puro quadro bancário, sendo certo, porém, que de imediato é um problema de liquidez.
Porém, em paralelo a esta situação, podemos adicionar o problema que levantaste e que é a criação de criação ex-nihilo, a partir do nada, quando esta criação não é injetada na economia real mas sim no sector financeiro. Se injetada na economia real esta criação estaria limitada aos parâmetros da economia real e, se bem calculados os riscos, ao crédito criado a partir do nada, haveria sempre que corresponder o contravalor produzido na economia real e estar-se-ia antes numa trajetória de crescimento sustentado, o contrário de uma situação de crise. Aliás, como se viu, por cada criação ex-nihilo há depois uma serie de depósitos créditos semelhantes à verificação do multiplicador de crédito, com a diferença da criação de moeda central que exige, daí que de ponto de vista apenas dos depósitos e dos créditos, os dois modelos podem confundir-se. Inversamente, se a liquidez criada a partir do nada é dirigida para o sector financeiro. Aí sim, a multiplicação pode dar-se ao infinito, porque infinita pode ser a ganância dos lucros fáceis, expropriados à economia real. Ora, vai-se assim autonomizar a finança que vai ser ela própria a seguir uma fonte de tensão sobre a economia real, sobre a apropriação do excedente anualmente criado, diminuindo inclusive as capacidades de investimento e de crescimento da economia, para além de sujeitar esta mesma economia a fortes tensões, a deformar brutalmente. Ora tudo parece indicar que a explicação passa também por esta situação, mas não a podemos desligar nunca da situação que atravessa a economia real, pela interdependências criadas com o sistema bancário tradicional, via multiplicador de crédito e da banca tradicional com a economia real, a que se junta a distorção que a própria finança exerce também ela sobre a economia real. Bancos tradicionais fragilizados, empresas fragilizadas pelo lado do crédito e da procura agregada, finança altamente agressiva, este é pois o quadro da crise.
Que sabemos nós hoje da Banca como um todo? Bem. Podemos controlar Core Tier 1, o Total Capital Rácio, podemos ter meios de controlar melhor a qualidade dos créditos concedidos aos agentes financeiros e não financeiros, podemos criar bad banques. Ficou tudo em ordem? Não, ainda não ficou. Pelo contrário, deveria dizer-se que isto é o menos importante. Porque para muitos bancos os créditos são pouca coisa, sobretudo para os grandes bancos. A imensa maioria das atividades consiste na compra e venda dos títulos, na especulação sobre divisas, sobre jogadas altamente especulativas e arriscadas feitas sobre produtos derivados e o que mais possa ainda haver de mais arriscado. Muitas das suas atividades traduzem-se em operações que estão fora do perímetro de análise e do cálculo dos coeficientes, e portanto, dos reguladores. Para além da própria especulação é mesmo possível revender os créditos dispersos sobre os mercados de todo o mundo através de operações chamadas titularização e escapando assim aos reguladores, para não falarmos de mercados como os Auction Rates Securities, entre muitos outros ou ainda da titularização das bolsas de estudo num país onde o ensino universitário sai caro e em que os empregos são difíceis.
Além disso, há muitos bancos que estão ligados por vias duplas à sociedades que desenvolvem que por sua conta tratam as mesmas operações mas não são bancos, e frequentemente estão registados nalguns dos paraísos fiscais. É o sistema bancário sombra ou shadow banking system, que permite colocar fora do balanço uma boa parte das atividades realizadas. Não estamos a falar de amendoins, antes pelo contrário, estamos a falar de milhares de milhões. No caso dos Estados Unidos corre-se o risco de este sistema sombra vir a ultrapassar o sector bancário “oficial”. Na Europa pelos vistos pretende ir-se no mesmo sentido, não se estará muito longe disso. Se uma grande parte dos itens do balanço são no sistema sombra colocados fora do balanço, verificar a solidez dos bancos é uma tarefa pois quase que impossível. Assim se percebe, possivelmente que tenha havido muitos bancos que depois de passarem nos testes de resistência do BCE entraram semanas depois em situação de falência.
Com a titularização pode-se contornar facilmente os critérios de Basileia e alargar o volume dos créditos conseguindo realizar cada vez mais empréstimos. Com o sistema bancário sombra pode-se facilmente jogar com os balanços. Além disso, se não se separarem os bancos comerciais dos bancos de investimento, uma grande parte da atividade arrisca-se a ser especulação que não entra nos coeficientes patrimoniais. Por exemplo no momento da falência, Lehman Brothers respeitava não só os critérios de Basileia II como também os critérios bem mais apertados de Basileia III, critérios pensados já depois da crise para tornar os bancos mais sólidos. Por outras palavras continuaremos a ter a crise a bater-nos às portas. Estamos pois a dar-te razão, como vês, mas melhor que nós, será dar-mos a palavra a um dos homens mais importantes num dos centros financeiros mais importantes do mundo, Londres, Lorde Adair Turner, presidente da Autoridade de Serviços Financeiros, que escreveu o seguinte:
“Esta foi a pior crise nestes últimos 70 anos – e, sem dúvida, que potencialmente poderia ter sido a pior da história do sistema capitalista. Um autêntico desastre – uma nova grande depressão – só se evitou devido às medidas de políticas absolutamente excecionais que foram tomadas. Apesar destas medidas importantes, verificou-se um enorme prejuízo económico. Centenas de milhares de cidadãos britânicos estão recém-desempregados; dezenas de milhares de pessoas perderam as suas casas que não voltaram a adquirir; e os cidadãos britânicos vão ficar sobrecarregados durante muitos anos com impostos mais elevados ou com cortes nos serviços públicos – devido à crise económica cujas origens estão situadas no sistema financeiro, uma crise cozinhada nas salas de mercados dos bancos e em que não foram poucas mas muitas as pessoas que ganharam bónus anuais iguais aos ganhos de toda uma vida de alguns dos aqueles que agora sofrem as consequências. Não podemos voltar a retomar a atividade económica habitual e aceitar o risco de que uma crise semelhante pode ocorrer novamente daqui a dez ou 20 anos.
Precisamos de mudanças radicais. Os reguladores devem conceber alterar profundamente as regras de regulação e de supervisão, mas nós também precisamos de questionar toda a nossa anterior filosofia quanto à regulação.
E algumas instituições do sector de serviços financeiros precisam refletir profundamente sobre o seu papel no economia e passarem a centrar-se essencialmente nas suas funções económicas e sociais essenciais, se querem voltar a recuperar a confiança pública.
O sistema financeiro desempenha funções vitais no mercado de uma economia e é particularmente assim numa economia complexa e global, de comércio global e de fluxos de capitais globais. Este sistema financeiro engloba muitas atividades específicas: de seguros de vida e de seguros gerais, de corretagem e de tomada firme de títulos; de investigação e de emissões primárias de títulos, de comércio sobre mercadorias e sobre divisas; de sistema bancário comercial clássico; de financiamento de comércio internacional e de projetos de investimento privados, de bancos de investimento que atuam no mercado de títulos e de divisas por conta própria, price makers, e de fornecedores de liquidez em muitos dos instrumentos financeiros comercializados no mercado.
E muitos desses serviços foram feitos com eficiência e sem criar riscos desnecessários ao longo da crise; muitos não contribuíram para a crise e não necessitaram de apoios financeiros. (…)
Mas é possível dizer tudo isso e também reconhecer que nem todos as inovações financeiras têm valor, que nem que todos os operadores desempenham um papel útil e que um grande sistema financeiro não é necessariamente melhor que um mais pequeno. E, na verdade, existem boas razões para crer que o sector financeiro, mais do que qualquer outro sector da economia, tem capacidade para gerar uma procura desnecessária dos seus próprios serviços – que mais negócio e mais inovação financeira podem nalgumas circunstâncias criar uma volatilidade prejudicial contra a qual os clientes têm que se proteger, criando-se assim mais procura de serviços do sector financeiro, criando-se mais procura de produtos financeiros inovadores e de maior liquidez; que partes do sector de serviços financeiros têm uma capacidade excecional para atraírem para eles próprios rendimentos desnecessariamente elevados e criam pois instabilidade que prejudica assim o resto da sociedade. (…)
(…) (En)quanto o setor dos serviços financeiros desempenham muitas funções economicamente vitais e continuará a desempenhar um papel de grande importância na Economia de Londres, algumas atividades financeiras que proliferaram nos últimos dez anos foram ‘socialmente inúteis’ e algumas partes do sistema foram alargadas para além da sua dimensão ótima. E, se alguém não estiver de acordo com isso, então discorda não apenas de mim mas também com o Presidente do ‘Britihs Bankers’, Stephen Green, que afirmou a mesma coisa e até com palavras muito semelhantes, quando argumentou que “nos últimos anos, os bancos têm açambarcado os lucros a curto prazo com a introdução de produtos complexos sem qualquer utilidade para a humanidade” e quando reconheceu que “algumas partes do nosso sector tornaram-se sanguessugas ‘.
Portanto, devemos procurar questionar a sociedade para saber se esta está a considerar os serviços desta estrutura como eficientes, a baixo custo e com o menor risco, tanto quanto seria possível.
Sim, os serviços financeiros formam um sector vital e são uma fonte de emprego altamente qualificado. Sim, a “City” continuará a desempenhar um papel chave e dinâmico na economia do Reino Unido. Mas nem tudo o que faz um sistema financeiro é socialmente útil; e por vezes algumas das suas instituições podem ser demasiado grandes, e seria melhor para a sociedade se eles fossem mais pequenas. Quem pense que essas posições são contraditórias está a recusar enfrentar a complexa realidade dos mercados financeiros.
Assim, a FSA, em nome da sociedade, deve considerar então questionar se o sector dos serviços financeiros está a fornecer os seus serviços fundamentais, de uma forma eficiente e com controlo de risco. Isso não significa que possamos definir de forma precisa qual a dimensão correta que o sistema financeiro deve assumir.
No passado, nos anos que antecederam a crise, havia uma ideia muito forte na FSA – compartilhada pelos reguladores do mercado mobiliário e pelos reguladores prudenciais e pelos bancos centrais em todo o mundo também, fazia quase parte do nosso NDA – em que nós presumíamos que a inovação financeira era sempre benéfica, que quanto mais fosse a atividade de negócios houvesse e quanto maior fosse a liquidez criada tanto melhor, que os produtos cada vez mais complexos eram por definição benéficos porque eles abrangeriam mais mercados, permitindo uma correspondência cada vez mais precisa entre a procura dos instrumentos face à procura combinada de liquidez, de risco e de rentabilidade dos investidores. E esta ideia afetou a nossa abordagem – e a abordagem de toda a comunidade reguladora – quanto à definição dos requisitos de capital relativamente aos níveis de atividade; afetou também a nossa vontade de procurar a redução de riscos no mercado dos CDS, os credits default swaps; e influenciou também o grau a que poderíamos mesmo considerar proibidas as operações especulativas das vendas de títulos a descoberto em condições de excecional volatilidade dos mercados.
Tivemos que modificar esta nossa conceção e fizemo-lo agora. E isto tem profundas implicações quer quanto às abordagens sobre a regulamentação quer quanto à supervisão, abordagens estas que vão ser instituídas na Inglaterra e a nível global.
Os reguladores financeiros a nível mundial, assentes numa nova International Financial Stability exigirão que o sistema bancário mundial para ser mais prudente, passe a trabalhar com maiores mecanismos de proteção aos choques de capital e de liquidez, e se daqui surge como resultado que os capitais próprios do banco passem a ser um capital menos rentável – menor taxa de rentabilidade mas também menor risco – não o devemos lamentar. Desde o ano passado, há muita coisa a dizer sobre isto.
E nós iremos impor muito mais elevadas exigências de capital contra muitas das atividades comerciais mais arriscadas, onde o tratamento anterior foi manifestamente insuficiente, embora reconhecendo-se que as decisões de mercado em muitos dos principais mercados – tais como o mercado de divisas, o mercado FX, ou os mercados de obrigações do Governo ou ainda dos seus investimentos – são de risco relativamente baixo e são um lubrificante essencial de uma economia de mercado complexa. (…) E se isso significa que o volume de atividade e a liquidez nestes mercados específicos se reduz, isto também não teremos que o lamentar.
E estamos a impor ao nível da empresa um estilo muito mais assertivo de supervisão, já não dispostos a assumir que a disciplina desse mercado e os incentivos poderão sempre levar a que a gestão do banco tenha tomado as decisões ótimas; estamos mais disponíveis para fazer juízos sobre se os modelos utilizados nas atividades em questão e sobre se as estratégias de negócios criam riscos indevidos para o sistema como um todo.
Este programa de reforma estabelece uma mudança radical de direção. Mas este representa também para os reguladores o desafio da complexidade, pois trata-se rejeitar uma intelectualmente elegante mas também profundamente errada fé nos mercados perfeitos e autorregulados, em comportamentos humanos sempre racionais; mas isto não nos deixa com uma filosofia alternativa sobre a regulação que seja simples. É muito mais fácil proceder na vida partindo do princípio de que quer todos os mercados são axiomaticamente bons, ou que toda a especulação é como o demónio. A realidade é mais complexa e requer que façamos compromissos e juízos de valor. Mas não há alternativa para esta complexidade.
Mas se os reguladores precisam de mudar e de enfrentar os desafios complexos, o mesmo deve acontecer com os banqueiros. E um dos seus maiores desafios é recuperar a confiança do público, para reconstruir a ideia de que os bancos e os mercados financeiros executam não só de forma socialmente útil mas exercem funções fundamentais, ligando os aforradores aos investimentos produtivos, afetando o capital a uma utilização eficiente, lubrificando os fluxos de capital e do comércio numa economia global que, com todos os seus defeitos, é um sistema melhor que qualquer outra alternativa disponível para nos dar bem-estar numa sociedade livre.
Para recuperar a confiança perdida, os bancos precisam de centralizar as suas energias não naqueles produtos supercomplexos que não têm nenhuma utilidade para a humanidade de que falou Stephen Green mas nas suas principais funções de ligação entre a poupança e condições de créditos e de pagamento aos clientes, enquanto indivíduos, empresas ou instituições.
Mas isto significa também que as direções dos grandes bancos e, especialmente, daqueles que estão necessariamente envolvidos quer em complexas atividades de cariz especulativo quer em atividades de retalho, as atividades comerciais, devem trabalhar dentro de limites. Mas, é claro que as preocupações das pessoas concentram-se efetivamente no nível e, em especial, está agora centrada na discussão sobre os bónus muito elevados nos grandes bancos comerciais, e isto apenas um ano depois de uma crise financeira e depois de uma subscrição pública de grandes perdas por meio de garantias, da garantia do suporte de liquidez pelos bancos centrais e das injeções de capital. Duas grandes considerações fazem destes enormes lucros uma questão legítima de interesse social, em vez de ser um tema totalmente privado.
Em primeiro lugar, esses elevados lucros estão, de forma significativa, a ser obtidos através de um conjunto de circunstâncias específicas de pós forte queda dos mercados: aumento da quota de mercado dos bancos sobreviventes; garantias governamentais e o apoio da liquidez do banco central; muito baixas taxas de juro; volatilidade; e grandes questões à volta da enorme dívida do Governo
E, em segundo lugar, que, com a finalidade de evitar uma repetição da crise, temos de assegurar que os nossos principais bancos construam mecanismos de proteção com mais capitais próprios, através do aumento dos requisitos mínimos de capital no futuro e guardando as reservas nos anos bons para garantir a estabilidade nos anos maus.
Um sector que reconhece a necessidade de moderar os seus excessos, que reconstrói a confiança e adota as reformas para evitar outra crise irá necessariamente prosperar. Os verdadeiros inimigos do sucesso da “City” e da economia de mercado, com todo o seu grande potencial para difundir a prosperidade e as oportunidades de sucesso, não são os que levantam estas questões, mas sim aqueles que as querem ignorar, como se esta situação de termos estado em face de uma situação quase de morte do nosso sistema financeiro há somente há 12 meses atrás pura e simplesmente nunca tivesse ocorrido”.
Professor, mas isto, do ponto de vista crítico, concorda plenamente com o que me falou da leitura do crédito pela ótica do divisor de crédito, e do ponto de vista de saída da crise exige-se, como na sua crítica também, que esta criação funcione para dinamizar a economia real e não para que a finança entre em roda livre ao mesmo tempo que funciona como um garrote para a economia real.
Tens razão, penso eu. Lord Adair Turner, está bem do teu lado, do nosso lado, será melhor dizer, como bem se pode ver pelo longo excerto reproduzido. Há portanto uma modificação global a realizar se queremos a encontrar as portas de saída da crise. Caso contrário estaremos pouco a pouco a pouco a desativar os extintores de poderem funcionar e poderem apaga-la.
Repara, quando se fala em controlos sobre a finança num quadro desregulado que temos nós? O que se tem visto, as normas são contornadas. Não nos podemos esquecer que os parâmetros para medir a solidez de um banco são definidos pelo acordo de Basileia. Simplificando, estes parâmetros medem a relação entre o património do banco e os créditos efetuados . A ideia é que entre os empréstimos concedidos haverá alguns que não serão liquidados e, para responder a estes casos, o banco deve ter um capital próprio capaz de poder cobrir as perdas potenciais. Mais a relação entre o património e os empréstimos concedidos é elevada, mais o banco é sólido. Existem diversos indicadores designados Core Tier 1, Total Capital Rácio e alguns outros mais. Mas o Lemon Brothers e tantos outros mostram que sem uma perspetiva global e claramente estrutural não iremos a lado nenhum, por muitos acordos de Basileia que se respeitem, e tanto mais quanto ou não são eficazes, por falta de outras medidas bem mais restritivas ou até podem incentivar a titularização na economia. Simples portanto.
Repara, por exemplo nos multiplicadores determinados ou pela via dos multiplicadores de crédito ou pela via dos divisores de crédito, uma vez que se os créditos estão centrados na economia real, se os riscos estão bem calculados, se temos uma banca sã, diremos, então o que teremos é uma relação entre créditos e depósitos próximo de 1.
Ora o problema maior não é esse, não é esse rácio. O problema maior é quando o rácio dos créditos sobre os depósitos é maior que 1, como se pode ilustrar com o caso inglês no período mais forte da crise! Exemplo: enquanto o National Westminster Bank afirmava que as reservas prudenciais constituídas eram de 0,135 de cada depósito, é inegável que noutros bancos as reservas prudenciais seriam ainda menores, os montantes de crédito seriam ainda muito maiores, mas o rácio, o rácio, meu caro seria sempre vizinho de 1. A grande questão não é esta, não. Esta é apenas a liquidez. Tu fazes a corrida ao banco não para comprar, não para gastar o montante dos teus depósitos, tu corres ao banco para evitar ficar sem o teu dinheiro. Sendo assim, basta o Banco Central injetar liquidez, ou o Estado garantir todos os depósitos. Não foi isso que fez a Irlanda e muitos outros governos?
O que pode haver aqui é um endividamento das famílias, mas em economia fechada, para evitar aqui complicações, o endividamento das famílias tem como contrapartida um crédito existente – é o outro lado dos débitos. Por aqui não vamos longe, podemos ir sim a um outro caminho, o do endividamento, mas não o que nos interessa aqui. E não nos interessa aqui pela simples razão de que a questão do endividamento das famílias reenvia a um crédito mal parado por mau cálculo de risco ou pior ainda, porque se mesmo bem calculado, a crise económica e social subjacente a muitas das medidas que levaram à financeirização da economia levou a alterações violentas na repartição com muita gente, de repente, a ficar em situação de precariedade. Nestas condições e de um dia para a noite, houve muitos créditos sem risco tornava-se em créditos de má qualidade. É uma das linhas de análise quanto às interações entre a finança e economia real.
(continua)
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