A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – VI

Falareconomia1

A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva

Uma nova série sobre questões de Economia

 4. Contribuições para uma outra perspetiva da crise

(CONTINUAÇÃO)

6º Dia de diálogo

II.2.3. Uma síntese sobre multiplicador e divisor de crédito

Em conclusão, o banco ao abrir um crédito de 100 unidades precisa de ser refinanciado em 16.7 unidades. E a vaga de créditos continuava, por hipótese até ás 598,80 unidades de crédito criadas. O total de financiamento é então dado pela última coluna e temos então como refinanciamento do banco central 100 unidades. Como se vê, a necessidade de moeda central urge como uma necessidade gerada pelo desenvolvimento do crédito bancário, ou seja, surge como necessidade da criação de moeda escritural. O importante a considerar aqui é que se parte para uma dinâmica a partir de moeda criada ex-nihilo, uma vez que o banco não dispõe, por hipótese, de nenhum recurso financeiro. Esta criação ex-nihilo, esta criação de moeda negativa porque de imediato apenas inscrita no passivo dos bancos, não é, em princípio geradora de inflação porque lançado o crédito na economia, ou vai dinamizar o consumo ou a produção. Vai gerar os rendimentos que permitem o seu retorno, ou seja, vai gerar a moeda positiva que retornará ao banco destruindo a moeda negativa aí presente, liquidando-se a dívida para com o banco. E tudo isto, sem nenhuma poupança pré-existente.

Mas, professores, os resultados são exatamente os mesmos. Como é, então?

Tens razão, são iguais, responde um dos professores. E daí? Quando falámos das duas relações entre base monetária e massa monetária dissemos que há uma relação macroeconómica entre as duas variáveis mas que o sentido da causalidade tanto ser visto ser um como outro. Ora é exatamente o que acontece com este exemplo. Os valores numéricos são os mesmos mas isso não quer que tenham a mesma explicação.

Senão, vejamos. No caso de haver reservas disponíveis de 100 unidades, há uma poupança pré-existente e a criação de crédito não faz nada mais que mobilizar a poupança. No final é essa mesma poupança pré-existente que muda de lugar: cativa como reserva obrigatória ou presente na economia real. Nos períodos seguintes mobiliza também a poupança pré-existente e nada mais que isso. No caso do divisor de crédito não há nenhuma poupança a mobilizar, o crédito vai suscitar uma procura, vai gerar rendimentos, por exemplo, vai dinamizar a economia. Diremos, há aqui overtrading puro, na primeira abertura de crédito, como se explicou anteriormente. A partir daí, do primeiro período, tudo se passa como no caso anterior. O crédito suscitado pela economia corresponde à poupança constituída e que tem como contrapartida a moeda escritural no banco depositada. Não há pois overtrading nos períodos seguintes. Ora, nós fizemos coincidir os valores para se mostrar a diferença, porque no caso presente não há, à priori nenhum limite de crédito e portanto, se a economia o pedisse em simultaneamente no período 2 para além dos valores da tabela, poderia haver uma procura adicional de crédito e de novo teríamos overtrading em adição à mobilização da poupança já existente. Na nossa opinião isto esclarece bem a posição de André Chaineau quando diz: “A prova deste poder de criação monetária é que a massa monetária não é fixa como ela o seria se o banqueiro nada mais fizesse senão emprestar os ativos monetários dos depositantes”.

Repare-se que no nosso exemplo, no final, temos um “descoberto” em moeda central, em que uma parte deste “descoberto” está situada na economia real e a outra parte nas reservas obrigatórias e este “descoberto” corresponde ao único descoberto que, de facto, foi criado, o crédito inicial, em que se acresceu o poder de compra sem que ninguém diminuísse o seu. Mas repare-se, uma vez liquidado, uma vez transformado em moeda positiva, em bens e serviços criados e vendidos, esta moeda entra no sistema financeiro como um todo e anula a moeda negativa que entretanto tinha sido criada, operação esta concluída junto do Banco Central. Destruição de moeda, é disso que estamos a falar. Moeda central criada pelo banco central, diríamos moeda negativa, que fica à espera, à espera que a economia real produza a outra moeda, a moeda materializada em poder de compra criado, que vem depois destruir amoeda negativa que lhe deu origem . De forma mais simples, a análise agora feita com o divisor mostra que podemos ter em simultâneo overtrading e também ter mobilização da poupança existente como se fez com o multiplicador de crédito, embora as necessidades de mobilização dessa poupança exigem a participação ex-post do banco central.

Mas, reparem bem no que me estão a dizer. Tudo isto me faz lembrar o livro que me levaram a comprar, Le profit et les crises, para estudar a disciplina de Economia Marxista. Deste livro e com pequenas adaptações todos nós podemos, pelo que agora ouvi, concordar com o seguinte:

“O que é notável é que, para cada banco comercial tomado isoladamente, todos os depósitos são “primários”. Por outro lado, (nenhum) dos bancos tem, em nenhum momento, concedido a ninguém a mais pequena soma sem ter antes recebido de um outro cliente um depósito que lhe é superior , a diferença tendo sido prudentemente posta de lado, junto do banco central como reserva obrigatória.

Nenhum banqueiro tem pois o sentimento de ter criado moeda e caca um deles, baseando-se sobre a sua própria experiência, pode proclamar alto e bom som e mesmo muito legitimamente que não faz mais nada do que transmitir as poupanças dos clientes aos investidores. “ São pois os depósitos que geram os créditos”

Isto é naturalmente verdade e falso. Verdade, porque isto cobre bem uma parte da realidade- o ato bancário propriamente dito; é falso igualmente porque a realidade total é exatamente o contrário. Só a analise económica pode reconstituir esta realidade total esclarecendo a sua segunda parte, a parte onde são os créditos que geram os novos depósitos.” (adaptado).

Concordam comigo, pergunta o aluno.

Estamos de acordo com a tua interpretação: este excerto adapta-se perfeitamente com o que e temos estado a explicar-te. Mas deixemos esta questão, agora por aqui e alarguemos a análise do divisor e do multiplicador de crédito a hipóteses menos simplificadoras da realidade.

Mas, não avancem ainda. Com esta análise parece começar a ver-se a questão da emissão de créditos abertos ao mundo financeiro. E se o crédito aberto não for para a economia real, para a produção de bens e serviços, direta ou mesmo indiretamente, estamos a criar bolhas sobre bolhas disponíveis a explodir em qualquer momento. É isso?

Talvez seja o caminho para onde, analiticamente, poderemos ir parar, respondemos. Porém, antes de qualquer resposta à tua pergunta muito séria, avancemos na análise do sistema financeiro, situando-nos agora no quadro de duas redes bancárias e um banco central

II.3. O sistema financeiro constituído por duas redes de banca comercial e o Banco Central

II.3.1 A multiplicação do crédito

Analisemos agora esta mesma lógica considerando que o sistema bancário é agora composto pelas redes dos bancos comerciais A e B e pelo Banco Central. Admitamos ainda que o Banco A tem apenas uma quota de mercado de 10% e o Banco B tem uma conta de mercado de 90%. Nesta hipótese o banco A vai ser sujeito a fugas para o banco B na ordem de 90% dos seus créditos criados e que o Banco B vai ter uma fuga de 10% sobre os seus créditos criados a favor do Banco A. Dito de outra forma, por cada crédito criado por A, há um fuga para a liquidez de 15%, transformando-se assim moeda escritural em moeda de banco central e depois há ainda uma fuga de 90% do restante crédito para se constituir depósitos no Banco B. Inversamente para os créditos emitidos por B. Neste caso, há igualmente uma fuga por transformação de moeda em 15% dos créditos emitidos por B e do restante há uma fuga para o Banco A de 10% da restante moeda escritural emitida por B. Consideremos pois que o Banco A dispõe de 10 000 unidades excedentárias junto do Banco Central.

Refira-se que a parte de mercado f das outras redes bancárias que não A é de f = 90%, e F o montante das fugas consecutivas, sendo pois a parte do mercado de B de 90%.

– O coeficiente r representa a parte de reservas obrigatório = 2%, e Ro representa o montante total das reservas obrigatórias criadas, D representa os depósitos de retorno e Re representa as reservas excedentárias disponíveis,

Tabela VII

Vagas de créditos Reservas excedentárias junto do Banco Central

(lógica do multiplicador)

Razão da série geométrica

{[(1-h)-f(1-h)]

– r[(1-h)-f(1-h)]}

 

Créditos novos(moeda escritural criada = Re ) Fugas sob a forma de notas

B = h x Re =
0,15 x Re

Primeiro elemento da soma:

10000 h

Fugas para outras redes bancárias

F =
0,9 x 0,85 x Re

Primeiro elemento da soma:

10000 f (1-h)

Depósitos de regresso à rede A

 

D =
Re – B – F

Primeiro elemento da soma :

10.000.

(1-h)(1-f)]

 

Reservas obrigatórias

Ro = r x D

= 0,02 x D

Primeiro elemento da série :

D(1-h)(1-f)r

1 10000 10000 1500 7650 850 17
2 833 833 124,95 637,25 70,8 1,416
3 69,384 69,384 10,408 50,13 8,85 1,58
4 7,27 7,27 1.091 5.562 0,617 0,0
5 0,617 0,617 0,093 0,555 0,0 0,0
Total 0 10922,8 1310,7 8650,8 961,2 38,4

Trata-se de uma série de razão (1-h) -f (1-h) -r [(1- h)-f(1-h)] e isto em todas as colunas. Utilizando o facto que o total dos créditos concedidos é a soma de uma progressão geométrica de razão µ=(1-h)-f(1-h)-r [(1- h)-f(1-h), obtém-se o multiplicador de crédito para a rede bancária A que detém 10% como parte de mercado e onde f representa pois as suas fugas para B que são de 90%. O multiplicador k vem então expresso por:

criação monetária - VIII

Calculemos agora o que se passa com o banco B que detém 90 % como parte de mercado, ou seja em que as fugas dos seus créditos para outros bancos, para o banco A mais precisamente são agora de 10% contrariamente à situação anterior.

Consideremos pois que o Banco B dispõe de 10 000 unidades excedentárias junto do Banco Central.

Retome-se então a tabela anterior com este novo dado. Tudo o resto se mantém pois constante.

Esquema da rede do banco B:

Tabela VIII

Vagas de créditos Reservas excedentárias Re= D – Ro

Primeiro elemento da soma: D

Razão da série geométrica

{[(1-h)-f(1-h)]

– r[(1-h)-f(1-h)]}

 

Créditos novos (moeda escritural criada = Re)

Primeiro elemento da soma:

D

Razão da série geométrica

{[(1-h)-f(1-h)]

– r[(1-h)-f(1-h)]}

Fugas sob a forma de notas

B = h x Re =0,15
0,15 x Re

Primeiro elemento da soma:

D h =

10000 0,15

Fugas para outras redes bancárias

F =
0,10 x 0,85 x Re

Primeiro elemento da soma:

10000 f (1-h)=10000 .0,1.0,85

Depósitos de regresso à rede B

 

D =
Re – B – F

Primeiro elemento da soma :

10.000(1-h) (1-f)

10000.0,85.0,9

Reservas obrigatórias

Ro = r. D

= 0,02. D

Primeiro elemento da série

D (1-h)(1-f)r

1 10000 10000 1500 850 7650 153
2 7497 7497 1124,5 637,25 5735.2 114,70
3 5620,3 5620.3 843 477,7 4299,6 86
4 4213,6 4213,6 632.04 358,20 3223,4 64,47
5 3159 3159 473,9 268,5 2416,6 48,30
….  …… …….. …….. ……. ……. ……
Totais 40.000 40.000 6.000 3400 30 600 612

As expressões relevantes já foram anteriormente encontradas. Retomemos a do multiplicador:

 

criação monetária - IX

Se a criação monetária é o facto, não de uma só rede bancária, mas do conjunto do sistema bancário (todas as redes bancárias comerciais confundidas), ficam apenas as fugas em notas e nas reservas obrigatórias a considerar: as fugas entre redes são reguladas sobre o mercado interbancário por compensação e refinanciamento dos bancos deficitários pelos bancos excedentários. Para todos os bancos tomados como um todo, não há saldos após compensações. Um cheque tirado sobre um banco é depositado normalmente a crédito de uma outra conta, se não for no mesmo banco, então num outro banco. O valor de f vem então igual a zero e a expressão para o valor de k é então k= 1/ [h+r (1-h)] = 6.44 32989= 5.988.

Para ver o que se passa, uma vez que f é zero bastaria retomar a primeira tabela utilizada e em vez de 100 colocar 10.000. Os resultados obtidos são pois equivalentes, isto é na nova tabela a criar seriam os da primeira tabela mas em que todos eles seriam multiplicados por 100 uma vez que as disponibilidades em moeda banco central de que se parte são agora de 10000 e não de 100.

criação monetária - X

Como se sublinhou anteriormente, na lógica do divisor desapareceria a coluna das reservas excedentárias e teríamos o mecanismo da criação de moeda escritural desencadeado a partir da coluna Créditos novos. Num condicionalismo estaria estabelecido pela primeira coluna, como no caso do multiplicador de crédito. A ultima coluna representaria o refinanciamento que seria realizado via banco central, período a período, refinanciamento esse imposto pela criação da moeda escritural pelos bancos, dada a vaga de créditos que estabelecemos para uma melhor comparação com o multiplicador de crédito.

(continua)

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Para ler a parte V deste texto, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, cliquem no link:

A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – V

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