EDITORIAL – DAVA-ME A ENTENDER QUE SE CHAMAVA EUROPA
joaompmachado
Na próxima segunda-feira vamos celebrar o quadragésimo segundo aniversário do 25 de Abril de 1974. Mesmo os mais cépticos concordam que o triunfo do movimento de capitães trouxe a Portugal grandes mudanças. Uns gostam mais, outros menos. Alguns, mais agarrados a vivências antigas, a subserviências tradicionais e temerosos de mudanças, fechados em redomas pouco transparentes, ainda hoje o deploram. Mas as mudanças não as podem negar, deplorem-nas também, ou não.
Entre estas, depois da democracia e liberdade formais que se terão procurado pôr em prática, é certo que de modo muito relativo, a principal terá sido a de “aproximação” à Europa. Terá sido a que mais imprimiu contornos determinantes para a vida dos portugueses, consubstanciados nos tratados de adesão à União Europeia e seus derivados, e nas políticas derivadas, como as apelidadas de austeridade.
Esta aproximação à Europa foi facilitada pela ideia que desde há muito domina em alguns de nós, da grandeza da Europa, da sua superioridade civilizacional e política, e também intelectual e moral. Não será exagero dizer que essa ideia tem tido adeptos entre nós desde o Renascimento, desde o tempo dos Descobrimentos. E que desde essa altura tem havido quem pense na aproximação à Europa como contraponto ao mito do império. Entretanto, o subdesenvolvimento do nosso país (designado eufemisticamente como estando em “em vias de desenvolvimento”) e a guerra colonial criaram um estado de espírito que predispuseram muitos de nós a encarar de um modo idealista a vida nos países europeus. Assim se foi preparando o caminho para a adesão ao que hoje é a União Europeia. Pensando na Europa como se fosse a rapariga do poema de David Mourão-Ferreira (1927 – 1996), Retrato de Rapariga.
Retrato de Rapariga
Muito hirta de pé no patamar do sono Contornando sem pressa a curva de uma artéria Por mais ocasional que fosse o nostro encontro dava-me a entender que estava à minha espera Com um livro na mão com um lenço ao pescoço uma expressão cansada a palidez inquieta de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto em vez de pó-de-arroz um pó de biblioteca surgia de repente onde sempre estivera em Zurique em Paris em Liège em Colonia Por único endereço uma carreira aérea Mas não sei se era louca ou apenas mitómana Onde quer que eu a visse uma coisa era certa Numa rua num bar num museu numa doca dava-me a entender que estava â minha espera dava-me a entender que se chamava Europa