Um dos aspetos mais aberrantes da construção da União Europeia é a facilidade com que a Alemanha, atrás do tabique da economia, ganhou um poder incrível.
Até há umas décadas para se ter poder sobre outros países era necessário desencadear guerras e impor pela força das armas a política do vencedor.
A Alemanha em 1914-1918 e 1939-1945 desencadeou guerras que se alastraram de modo global para tentar dominar a Europa e o mundo.
Com a reunificação, o desaparecimento da URSS, a construção da U.E. e sobretudo com a criação da moeda única a Alemanha vem impondo à França, ao Reino Unido, aos vizinhos, ao sul do continente a sua política sem dar um tiro. Com falinhas mansas, exceção feita ao ministro Schäuble, a Alemanha vem fazendo tudo o que pode para que a crise não lhe chegue e que a vulnerabilidade dos outros se transforme em superioridade para si.
Na verdade a Alemanha é hoje um império na medida em que tem força para impor aos outros países orçamentos, défices, taxas de crescimento, destinatários de vendas de bancos…Os pequenos países que se encafuaram na moeda única vivem hoje com a espada alemã sobre a cabeça.
Veja-se a vergonha que é para Portugal ter tido um governo que fez o que a U.E. lhe encomendou e apesar disso sofrer eventualmente sanções depois de cumprir ao milímetro as determinações de Schäuble e Cª.
E sublinhe-se a dignidade de António Costa em rejeitar tais sanções que resultam da política submissa do PSD/CDS, isto é, de Passos e Portas.
E assinala-se esta abencerragem que é a possibilidade de impor a um país, a uma nação, sujeita a um tratamento de choque de pobreza, sanções de centenas de milhões de euros. Vale a pena esta Europa?
O manto da austeridade que se abate sobre o continente é tecido em Berlim e visa sufocar economicamente um conjunto de países para que a Alemanha se desenvolva.
Conseguindo que os bancos da Alemanha se tivessem livrado de ver investimento incobráveis nos países em dificuldades passando a dívida dos privados para o Estado, a Alemanha arroga-se o direito de submeter países ao seu diktat, independentemente das vontades expressas em eleições. Que valem os resultados eleitorais face ao poder da Alemanha… über alles…?
Se os portugueses não aceitam a austeridade preconizada pela Alemanha e Cª, isso não conta para a imperatriz. Quem manda é quem pode e quem pode é a Alemanha…
É esta a política dominante no espaço da moeda única onde a panela de barro não pode chocar com a panela de ferro alemã, que cria enormes desigualdades entre as nações, e as transforma em meros espaços económicos, meros prolongamentos dos braços teutónicos, considerando-os como satrapias do império berlinense.
A grande questão da atualidade é esta: vai a Europa sujeitar-se a este desígnio? Mesmo que países como a França e a Itália se submetam, as outras nações vão aceitar continuar encafuadas na lógica da submissão aos interesses alemães über alles?
A imperatriz e o Vizir-Geral agem para com a Europa como donos da Treuhandanstalt, a empresa encarregada de liquidar a RDA, submetendo o continente como outrora submeteram aquele desaparecido país.
É chegada a altura de repensar este caminho. Até agora o que se anuncia é o desastre. É austeridade, mais austeridade e sanções e punições sob a placidez sinistra dos “amigos” governantes alemães. Não se trata de defender o isolacionismo e o fechamento do país. Estamos na Europa e não vai suceder o que Saramago imaginou na Jangada de Pedra, mas ficar amarrado não será melhor que ir à deriva.
Um país longe da periferia, pouco desenvolvido, precisa se se agarrar às raízes de onde está (Europa) e procurar complementaridades que o façam mais forte no local onde está.
Mas estar onde nos punem por fazermos o que impuseram que fizéssemos precisa de ser avaliado e sujeito a outras regras em que cada um possa ser como é e como nação velha de nove séculos ser respeitada. Europa sim, submissão não!