
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
15. Uma nova guerra já começou – quebremos o silêncio
John Pilger, Start of a new world war
Fonte: Consortiumnews.com., 22 de Março de 2016
(conclusão)
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Fiz um filme chamado The war you don’ t see (a guerra que não vê), no qual entrevistava eminentes jornalistas na América e na Grã-Bretanha: repórteres como Dan Rather de CBS, Rageh Omar da BBC, David Rose de The Observer.
Todos me disseram que se os jornalistas e as cadeias tivessem feito o seu trabalho e tivessem questionado a propaganda sobre a posse de armas de destruição maciça supostas detidas por Saddam Hussein; se os jornalistas não se tivessem feito eco e não tivessem servido de amplificador para as mentiras de George W. Bush e de Tony Blair, a invasão de 2003 no Iraque poderia não ocorrer e centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas hoje.
A propaganda que está a pavimentar o caminho para uma guerra contra a Rússia e/ou a China não é diferente no seu princípio. Que eu saiba, nenhum jornalista de “grande público” no Ocidente – o equivalente de um Dan Rather, digamos – se questiona porque é que a China constrói pistas de aterragem no mar da China meridional.
A resposta deveria ser absolutamente flagrante. Os Estados Unidos cercam a China com uma rede de bases, com mísseis balísticos, com tropas de combate, com bombardeiros com armas nucleares.
Este arco letal que se estende da Austrália às ilhas do Pacífico, às ilhas Mariannes, Marshall e Guam até às Filipinas, na Tailândia, Okinawa, na Coreia e através da Eurásia até ao Afeganistão e à Índia. A América pendurou um nó corrediço em volta do pescoço da China. Não é nada de novo. O silêncio nos meios de comunicação social; a guerra pelos meios de comunicação social.
Em 2015, em grande segredo, os Estados Unidos e a Austrália organizaram o maior exercício militar aéreo e naval da história recente, conhecido sob o nome de Talismã Sabre. O seu objectivo era de repetir o Plano de batalha ar-mar para bloquear as vias marítimas como o Estreito de Malacca e o estreito de Lombrok, que cortam o acesso da China ao petróleo, gás e a outros materiais naturais vitais provenientes do Médio Oriente ou de África.
O candidato à presidência da República, o multimilionário Donald Trump.
No circo conhecido sob o nome de campanha presidencial americana, Donald Trump é apresentado como um excêntrico, um fascista. É certamente odioso; mas é também uma figura odiada dos meios de comunicação social. Este ponto só por si deveria despertar o nosso cepticismo. Os pontos de vista de Trump sobre a imigração são grotescos, mas não mais grotescos que os do Primeiro-ministro David Cameron. Não é Trump o Grande Deportador dos Estados Unidos, mas sim o vencedor do preço Nobel, Barack Obama.
De acordo com um colunista liberal prodigioso, Trump está a “desencadear as sombrias forças da violência” nos Estados Unidos. Desencadear?
É o país onde as crianças disparam sobre as suas próprias mães e onde a polícia efectua uma guerra mortífera contra os Afro-Americanos. É o país que atacou e procurou derrubar mais de 50 governos, na sua maior parte democracias, e bombardeou da Ásia ao Médio Oriente, causando a morte e a espoliação de milhões de pessoas.
Nenhum país pode igualizar este recorde sistemático de violência. A maior parte das guerras da América (quase todas contra países sem defesa) foi efectuada não por presidentes republicanos mas por democratas liberais: Truman, Kennedy, Johnson, Cárter, Clinton, Obama.
Em 1947, uma série de directivas do Conselho para a segurança nacional descrevia o objectivo final da política estrangeira americana como “um mundo essencialmente moldado à sua própria imagem (americana).” A ideologia era um americanismo messiânico. Éramos todos os americanos. Ou outra coisa. Os hereges seriam convertidos, destituídos, subornados, caluniados, esmagados.
Donald Trump é um sintoma, mas é também um franco-atirador. Diz que a invasão do Iraque foi um crime; não quer fazer a guerra nem com a Rússia nem com a China. O perigo não é Trump mas Clinton. Esta não é franco-atiradora. Encarna a resistência e a violência de um sistema de que o tanto elogiado “ excepcionalismo ” é um totalitarismo com um aparente rosto liberal.
À medida que o dia da eleição presidencial se aproxima, Clinton será saudada como a primeira mulher presidente, apesar dos seus crimes e mentiras – da mesma maneira que Barack Obama foi enaltecido como um primeiro presidente negro e os liberais engoliram o seu slogan, a esperança “hope” E o circo continua.
O senador Bernie Sanders e a antiga secretária de Estado Hillary Clinton, aquando de um debate do Partido democrata sobre as eleições presidenciais, patrocinado pela CNN.
Descrito pelo colunista do Guardian, Owen Jones, como “engraçado, encantador, com uma atitude afável, calorosa, que falta quase à qualquer outro político,” Obama ainda no outro dia enviou drones matar 150 pessoas na Somália. Mata pessoas geralmente todas as terças-feiras, de acordo com o New York Times, quando se lhe dá uma lista de candidatos à morte por drone. Realmente afável.
Durante a campanha presidencial de 2008, Hillary Clinton ameaçou “ destruir totalmente o Irão ” com armas nucleares. Como secretário de Estado de Obama, participou no derrube do governo democrático nas Honduras. A sua contribuição para a destruição da Líbia em 2011 era quase jubilatória. Quando o líder líbio, o coronel Mouammar Kadhafi, foi sodomizado publicamente com uma faca – um assassinato tornado possível pelas logísticas americanas – Clinton elogiou-se da sua morte: “Viemos, vimos, morreu.”
Uma das mais próximas aliadas de Clinton é Madeleine Albright, antiga secretária de Estado, que atacou jovens mulheres porque não suportavam “Hillary”. É mesma tristemente Madeleine Albright que ficou famosa por ter celebrado na televisão a morte de um milhão de crianças iraquianas como “ter valido a pena”.
Entre os grandes apoios de Clinton, estão o lobby israelita e as companhias de armamento que alimentam a violência no Médio Oriente. Ela e o seu marido receberam uma fortuna de Wall Street. E no entanto, está em vias de ser considerada a candidata das mulheres, para ver falhar o maléfico Trump, um demónio oficial. Os seus apoiantes compreendem feministas de grande reputação como Gloria Steinem nos Estados Unidos e Anne Summers na Austrália.
Há uma geração, um culto postmoderno agora conhecido como “a política identitária” impediu que muitas pessoas abertas de espírito e inteligentes examinassem as causas e as pessoas que elas apoiavam – da mesma maneira que as imposturas de Obama e de Clinton; como os movimentos progressistas tal como Syriza na Grécia, que traiu o povo deste país e se combinou com os seus inimigos.
O olhar só para si, uma espécie de eu-mismo, tornou-se o novo espírito do tempo (Zeitgeist) das sociedades privilegiadas do Ocidente e assinala o desaparecimento dos grandes movimentos contra a guerra, a injustiça social, a desigualdade, o racismo e o sexismo.
Hoje, o longo sono talvez esteja a acabar . A juventude agita-se de novo. Pouco a pouco. Os milhares na Grã-Bretanha que apoiam Jeremy Corbyn como o líder do partido Trabalhista fazem parte deste despertador – como os que tem estado a apoiar o senador Bernie Sanders.
Na Grã-Bretanha na semana passada, o mais próximo aliado de Jeremy Corbyn, o seu tesoureiro John McDonnell[1], comprometeu-se para um governo trabalhista que venha a pagar as dívidas dos bancos piratas e, de continuar a pretensa política de austeridade.
Nos Estados Unidos, Bernie Sanders prometeu apoiar Clinton se for ela a indicada e quando o for. Também ele votou pela utilização da violência na América contra países, quando pensava que era “justo”. Diz que Obama fez “um bom trabalho”.
Na Austrália, há uma espécie de política fúnebre, onde os jogos parlamentares embrutecedores são desenrolados nos meios de comunicação social, enquanto que os refugiados e os indígenas são perseguidos e em que a desigualdade é crescente, tal como o é o perigo de guerra. O governo de Malcom Turnbull acaba de anunciar um suposto orçamento de defesa de 195 mil milhões de dólares que é o caminho para a guerra. Não houve nenhum debate. Silêncio.
O que é que aconteceu com a grande tradição da acção directa popular, não filiada em partidos? Onde é que está a coragem, a imaginação e o compromisso necessário para começar uma longa caminhada para um mundo pacífico, justo e melhor? Onde estão os dissidentes na arte, cinema, teatro, literatura?
Onde estão aqueles que quebrarão o silêncio? Ou esperamos nós que o primeiro míssil nuclear seja lançado?
Este texto é uma transcrição de um discurso de John Pilger na Universidade de Sydney, intitulado ‘ Uma guerra mundial começou’.
John Pilger, Start of a New World War. Texto disponível em: https://consortiumnews.com/2016/03/22/start-of-a-new-world-war/
A versão francesa foi editada por Crises-fr e disponível no seguinte endereço:
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[1] Nota do Tradutor. Sugerimos ao leitor que eventualmente fique espantado com o parágrafo que está a ler que consulte o texto : “Austerity is a political choice” – full text of John McDonnell’s speech, disponível em http://labourlist.org/2016/03/austerity-is-a-political-choice-full-text-of-john-mcdonnells-speech/
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