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NÃO HÁ RECEITAS, MAS SIM CONDIMENTOS por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Não há receitas, mas sim condimentos.

A protecção da Criança tem assumido diferentes figurinos ao longo dos tempos. Paradoxalmente a Criança no século XXI tanto é sobrevalorizada como maltratada, mas o ser Criança é igual em todas elas.

A Criança vive as suas emoções com muita intensidade e os adultos devem perceber que a Criança tem direito a ter raiva, a barafustar e, nessas alturas, os adultos deverão falar com ela e não castigá-la ou expô-la perante outras pessoas.

A Criança presa a sua intimidade e não gosta que outros falem dela, ou melhor, falem do seu comportamento.

Desejar um brinquedo que a mãe não pode comprar leva frequentemente a grandes e visíveis birras. A Criança não aceita um não como resposta, mas muda de comportamento quando se lhe é explicado o porquê do não.

O não irá surgir durante toda a sua vida e, por isso, é urgente que se ensine a Criança a lidar com a contrariedade. A Criança chora, pois claro que sim, ainda não tem maturidade suficiente para regular os seus comportamentos, a Criança faz birras, e porque não?, ninguém a está a ouvir o que ela deseja.

Não há receitas para a educação da Criança, mas há condimentos e um deles chama-se afecto que não pode ser pontual, não pode ser só quando a criança se aproxima dos pais ou dos professores porque se sente carente.

A vida da Criança é vivida durante 24 horas por dia, e nessas 24 horas tem que haver afecto e respeito mútuo para que a Criança se sinta, também, um elemento importante no seio da família, da escola e da comunidade.

Não é difícil, primeiro deve ter sido um filho desejado e depois deve ser protegido pela Declaração dos Direitos da Criança que pretende que se combata os maus tratos e a demasiada protecção, pois ambas inibem o crescimento harmonioso da Criança.

Em casa, deve ser propiciado a caminhar para a sua autonomia com a presença dos adultos que lhe passarão a imagem de que é uma Criança responsável pelas suas coisas.

À hora das refeições deve ser ouvida e participar nas conversas familiares, para isso, não deve haver telemóveis a tocar e a serem atendidos com um desculpem, não pode haver joguinhos nos telemóveis.

Não se pode viver, com os outros, com silêncio e monossílabos.

Durante muitos anos as crianças sentavam-se à mesa, para jantar, entravam mudas e saíam caladas. Ninguém as ouvia, ninguém queria saber nada acerca delas.

Há alguns anos as crianças dominam as conversas, os telemóveis tocam e são atendidos, o que se passa na vida das crianças é normalmente objecto de monólogo com apreciações depreciativas da sua conduta, com ameaças de castigos ou mesmo com castigos, por vezes, corporais.

Como podem estas crianças serem felizes, como se podem construir tendo como lema o afecto, a compreensão, o reconhecimento do outro?

Quando se sentem desvalorizadas ou quase invisíveis optam pela agitação motora, pela falta de concentração, por falta de sono, por testar os adultos a ver quem vence, por exemplo, a algo tão simples como o programa da TV que querem ver quando estão a comer.

Não há receitas, mas há condimentos e medicamentos. Os condimentos vêm do diálogo, do respeito, do afecto, os medicamentos…ai os medicamentos vêm do “não posso mais, esta criança precisa de ser vista por um médico” e lá vem a  ritalina ou o atarax para as crianças acalmarem, ou seja, ficarem mais sossegadas independentemente do seu ambiente familiar, do seu envolvimento na escola, das suas relações com os outros.

OLHEM PARA MIM e verão o porquê dos meus comportamentos.

Agora é tempo de pegar na mochila e ir para a escola, é tempo de aprender e de brincar, mas..o que vão aprender e como, vão brincar com quem e como?

Se não olharem para a criança não saberão como ela está a crescer, em que adulto se vai tornar, que valores vai defender.

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