CHAMO-ME JOSÉ por Luísa Lobão Moniz

Chamo-me José, mas todos me tratam por Zezinho com carinho e um sorriso nos lábios.

Sim, sou pequenino, sou uma criança e como eu há milhões de outras crianças que recebem um bom dia com carinho.

Por vezes oiço a minha tia falar com uma amiga sobre muitas, muitas crianças que morrem de fome, que morrem doentes, que morrem, imaginem, na guerra!

De crianças que sofrem no corpo a pancada desvairada de alguns adultos, que sofrem na alma a delinquência dos pais, as vozes zangadas dos professores, as ameaças das auxiliares que vão dizer que me portei mal!

Sou pequenina, sou uma criança que não pediu a ninguém para nascer. Dói-me a barriga e ralham comigo porque comi o que não devia, dói-me a cabeça e zangam-se comigo porque estive ao sol.

Sou pequenino mas sei ajudar os adultos, sei sentir quando algo corre mal e por isso às vezes o meu pai bebe muita cerveja e vinho e, então eu, eu digo-lhe para se ir deitar ou ver televisão; e por isso às vezes a minha mãe chora baixinho e eu sei que se lhe der beijinhos ela fica um bocadinho mais feliz. A minha mãe gostava que o meu pai não bebesse, gostava de arranjar um emprego.

Eu vejo muita televisão desde que chego a casa até que me deito, às vezes não percebo nada e ninguém me explica como é que uma baleia azul faz matar algumas crianças.

Eu sei muita coisa boa e má porque vejo muita televisão e agora também estou muito tempo na Net. Os meus pais não sabem porque estou sozinho no meu quarto

O que eu não percebo é porque dizem que as crianças têm que aprender a desconfiar de alguns adultos, e porque é que as crianças têm que saber números de telefones para pedirem ajuda, têm que atravessar a rua porque aquela pessoa tem mau aspecto.

Porque desaparecem algumas crianças? porque foram raptadas?

O mundo que eu conheço é mau para as crianças. É possível cairmos logo nos nossos primeiros passos e depois há feridas que nunca saram

Mãe e pai defendam-me dos maus!

Professores ensinem-nos e aos pais que é preciso diálogo e afecto para vivermos todos bem.

Os adultos não podem viver bem se as crianças estão a sofrer.

Sabem, há uma coisa que eu tenho e que é muito boa, conheço muitas pessoas adultas que escrevem e falam e dizem que ser criança é ser pessoa, não é ser um adulto pequenino. Eu quero ser pessoa, quero crescer sem medo do desconhecido.

Pensem bem: os adultos fazem mal às crianças e depois fazem Declarações, Convenções, Programas especiais, Regras Especiais…

As regras devem ser feitas para os adultos, a sanção social deve ser muito mais rígida para que se sintam envergonhados e culpados dos sofrimentos das crianças.

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