
O papa Francisco continua a ser uma caixa de surpresas. Uma das suas mais recentes afirmações doutrinais é que “Judas – esse mesmo que o cristianismo não se tem cansado de chamar até à náusea de traidor – era bispo, um dos primeiros bispos”. A garantia sai-lhe disparada da boca como uma bala, numa daquelas homilias paroquiais sem um pingo de teologia, a de Jesus, menos ainda um pingo de Evangelho, o de Jesus, integradas nas missas a que ele preside na capela privada da Casa de Santa Marta. A afirmação é de cabo de esquadra, mas calha bem na boca de Francisco que, depois de todos estes anos que já leva de bispo de Roma e de papa, continua a não ser, ao contrário do que se faz crer, nem carne nem peixe. Conforme os ventos e as luas. Umas vezes, parece muito avançado, ao ponto de por mais de uma vez ter sido já advertido pelo cardeal Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício. Outras vezes, mais parece um pároco de aldeia do século XIX, ao estilo do já canonizado Cura d”Ars, um ignoto povoado de França que, segundo reza a sua biografia, passava horas e horas por dia sentado no confessionário, como se para isso tivesse sido ordenado presbítero da Igreja de Jesus. Curiosamente, também ele era um jesuíta de formação, mas nem parecia. O que leva-nos a pensar que, também entre os “filhos” de Inácio de Loyola, há alguns que parecem escolhidos a dedo para não querem crescer, nem ajudarem maieuticamente outros a crescer. Como é timbre da generalidade dos funcionários cristãos eclesiásticos forma(ta)dos para serem antípodas de Jesus, o filho de Maria, que cresce em idade, estatura, sabedoria e em graça e se constitui o maior Sinal de Contradição no mundo.
Ainda está para se descobrir onde o papa Francisco foi buscar essa de Judas Iscariotes, um dos doze, ser bispo, um dos primeiros bispos. Só mesmo de um jesuíta papa, a quem tudo passou a ser permitido, de tão inócua é a função papal, já que no Estado do Vaticano quem tudo manda e tudo decide é a Cúria romana com suas Congregações. O papa é mero bobo da corte, ou mero intelectual solitário, à Pio XII, no qual estão postos todos os olhares e todas as atenções do mundo, para que, desse modo, a Cúria fique de mãos completamente livres e sem riscos de ser apanhada em flagrante delito, envolvida que anda nas grandes negociatas do poder monárquico absoluto, sem que os grandes media dêem por nada. Nunca antes, o Estado do Vaticano tinha tido à sua frente um jesuíta. Até porque o geral (em espanhol, “general”) dos jesuítas sempre foi tratado na gíria eclesiástica como “o papa negro”. Não só pelas suas vestes, rigorosamente pretas, da cabeça aos pés, mas sobretudo pela função que lhe é confiada pela Cúria romana, via papa. Concretamente, ser o comandante dos soldados de cristo que são os jesuítas, cujas mentes são violentamente formatadas pelos três votos como quaisquer outros frades e freiras, e por mais um quarto voto, o mais formatador de todos, o da obediência como um cadáver ao papa / Cúria romana. E como esse é um serviço de morte, não de vida, o preto das vestes, da cabeça aos pés, fica-lhes mesmo a matar.
Com um jesuíta como chefe do Estado Vaticano, vestido de branco da cabeça aos pés, nem a Cúria romana sabe bem como lidar. Nunca na sua história, um jesuita-com-voto-de-obediência-ao-papa havia alguma vez sido papa. Francisco é o primeiro e ele próprio tem andado manifestamente aos papéis, já que, como jesuíta, tem de obedecer ao papa, quando ele próprio é o papa. E isto de ter de ser um soldado que simultaneamente é o geral-general da Ordem e da igreja onde se insere a Ordem, tem o que se lhe diga. Não é de estranhar por isso que Jorge Mário se confunda e, umas vezes, actue como soldado obediente ao papa, outras vezes, como o papa-que-manda e dá ordens. São sarilhos sobre sarilhos que a Cúria romana, mesmo assim, agradece, porque, se há pontificado que mais tem deixado os cardeais à rédea solta é o de Francisco. Esta nova “descoberta” acerca de Judas “bispo, um dos primeiros bispos” é um dos paradigmáticos exemplos de quanto o papa anda desorientado e baralhado entre a obediência que o jesuíta deve ao papa Francisco e as ordens que papa Francisco dá ao jesuíta Jorge Mário.
Desta vez, esta categórica afirmação do papa sobre Judas não fez manchete em nenhum dos grandes media. Nem mesmo a agência Ecclesia, em Portugal, viu nela qualquer impacto. A sociedade ocidental está tão formatada pela Mentira institucional e estrutural que é o cristianismo – são dois mil anos de Mentira, senhores! – que ninguém sequer estremeceu com o insólito dito do papa. Há dois mil anos a ensinar mentirosamente que os bispos são sucessores dos apóstolos, pode muito bem vir agora um papa jesuíta fazer um silogismo que faltava e concluir que se os bispos são sucessores dos apóstolos, então, os apóstolos foram todos bispos, os primeiros bispos. Para um papa jesuíta tudo parece certo. E se, antes dele, nenhum outro explicitou essa conclusão, foi só por causa de Judas. É que se os bispos são sucessores dos apóstolos, mas o de Roma, papa, é o sucessor de Pedro, quem, de entre os outros bispos do mundo, é o sucessor de Judas? E neste papel de Judas traidor, nenhum bispo se quer ver perante as suas “ovelhas”. Todos aspiram a ver-se no papel de sucessor de Pedro, mas apenas um o pode ser, de cada vez. O primeiro papa jesuíta é o único que podia formular o silogismo e tirar a respectiva conclusão, porque sabe-se o sucessor de Pedro, por isso, nunca pode ser visto como o sucessor de Judas. Esse sujo papel é para algum dos outros bispos, menos para ele, o bispo-dos-bispos.
Desconhece, porém, o papa – ele é a maior vítima da Mentira institucional e estrutural que é o cristianismo – que não apenas Judas trai Jesus. É todo o grupo dos Doze que o trai. Judas é apenas o executor de uma decisão do colectivo, presidido por Pedro. Tão pouco, Pedro é o único que nega totalmente Jesus – três vezes – é todo o colectivo que o nega totalmente, três vezes. Pedro, enquanto chefe, é apenas o que dá voz e cara a este crime, precisamente, para, depois da morte crucificada de Jesus, poder ser o primeiro chefe do judeo-cristianismo, fundado pelos onze traidores e negadores, mais um, escolhido às pressas entre dois candidatos propostos, na assembleia fundante, reunida na sala de cima, uma dependência do templo de Jerusalém, onde decorreu. Quer dizer: O mesmo templo que mata crucificado Jesus é o que, após a sua morte, acolhe os seus traidores e negadores – pudera! – para eles poderem levar por diante o projecto de poder da casa/ dinastia de David e do seu messias ou cristo invicto contra o Projecto político de Jesus.
Esta visão histórica e teológica dos factos nem o papa a conhece, nem pode conhecer. Para poder dar continuidade à Mentira institucional e estrutural que é o cristianismo, o lugar do papa terá de ser sempre ocupado pelo mais formatado dos bispos cardeais, quando a idade deles já não lhes permite mudar de ser e de Deus, concretamente, passarem de cristão a humano e da fé cristã religiosa à fé política e maiêutica de Jesus. Um erro nesta escolha, por parte do Conclave, ditaria o fim da própria igreja católica romana e do cristianismo, a máfia das máfias. Com esta sua afirmação sobre Judas, como bispo, um dos primeiros bispos, o papa Francisco acaba de dar o maior sinal de que a escolha do cardeal argentino Jorge Mário para papa foi mais do que acertada, para o cristianismo se poder perpetuar, terceiro milénio adiante. Para mal e vergonha da humanidade, formatada pela sua fé cristã religiosa e pelo seu Evangelho, o de S. Paulo, perseguidor de Jesus. A sua já confirmada vinda a Fátima “ver a senhora” (que vergonha este infantil falar papal!), dias 12 e 13 de Maio próximo, é o coroar desta Mentira institucional e estrutural. Quem ainda puder libertar a sua mente de toda esta formatação-abominação cristã, apresse-se a fazê-lo, antes que a idade de cada qual alcance o ponto de não-retorno. Porque então melhor fora que não se tivesse nascido, como de Judas/grupo dos Doze diz Jesus Nazaré, o filho de Maria, a quem todos eles traíram,negaram, mataram.

