FRATERNIZAR – Na abertura de 2015 A PAZ, SEGUNDO O PAPA FRANCISCO – por Mário de Oliveira

001

Jornal Fraternizar, edição 104, Janº 2015

www.jornalfraternizar.pt.vu

Desde há 47 anos que o primeiro dia de cada ano é, na igreja católica romana, o Dia Mundial da Paz. A ideia/iniciativa partiu do papa Paulo VI e teve, na altura, algo de politicamente subversivo, inclusive, em Portugal. Bispos e párocos não gostaram muito da iniciativa. E poucos foram os que, no contexto da Guerra Colonial, como o que, nesse então, se vivia em Portugal, foram capazes de pegar na ideia e convertê-la em anúncio de Evangelho, Boa Notícia da Paz. A cobardia pastoral, disfarçada do hipócrita, “Não convém meter-nos em política”, levou e leva os clérigos a meter-se na mais suja das políticas, que é a política do chamado status quo. Ai de quem rasgue as vestes de clérigo e assuma as vestes de presbítero ou de bispo e pregue a paz em tempo de Guerra Colonial ou de guerra financeira global, como é a permanente guerra em que vivemos neste início de terceiro milénio. A cadeia política, ou o martírio ou o ostracismo mais completo podem ser o seu destino. Porque nada mete tanto medo à paz armada do poder estabelecido do que a Paz desarmada dos seres humanos que recusam todo o tipo de guerra, sobretudo, recusam ser carne para canhão! Recordo-me muito bem que o primeiro dia mundial da paz me apanhou em Mansoa, Guiné-Bissau, como capelão militar à força. Havia chegado apenas há dois meses, mas, nesse dia, não deixei passar a oportunidade. Ordenado presbítero, não clérigo, deixei que em mim o presbítero se assumisse e proferi uma homilia que previamente escrevi, tecida de perguntas, muitas perguntas, qual delas a mais provocadora. O resultado, foi o que eu já esperava. Fui, de imediato, chamado ao gabinete do comandante do Batalhão e ouvi da sua boca militar que o que eu havia proferido na homilia do dia 1 de Janeiro 1968 era politicamente subversivo, nomeadamente, ia contra a Constituição do Estado português que ele, enquanto militar de carreira, jurara defender, até com o risco da própria vida. Ao que eu respondi, Pois então, meu Comandante, eu sou padre/presbítero da Igreja, ordenado para anunciar o Evangelho da Paz. E foi o que fiz nesta homilia do dia mundial da paz. Por isso, mudem a Constituição, que eu não posso mudar o Evangelho. O Comandante ficou sem fala. Mesmo assim, para não perder o emprego e a reputação, lá correu a denunciar-me ao Quartel-General de Bissau e eu acabei expulso de capelão militar, sem qualquer julgamento prévio. E, quando, já em Lisboa, esperava que o Bispo castrense me abraçasse, por ter anunciado o Evangelho da Paz, eis que me recebeu armado de palavras como facas e, sem nunca me ouvir, ditou o seu definitivo veredicto: O Mário é um padre irrecuperável! Concluí, então, não sem escândalo, que a igreja que me ordenou presbítero, afinal, não suporta o Evangelho de Jesus. Em seu lugar, prefere anunciar/praticar o Evangelho de S. Paulo. Descredibiliza/mata os presbíteros e bispos que prosseguem Jesus e o seu Evangelho de Deus que nunca ninguém viu, e promove/premeia os clérigos que se assumem como outros tantos funcionários da empresa eclesiástica. É poder e rege-se pelo evangelho do poder que é o de S. Paulo. 47 anos depois deste pequeno.grande conflito, em que, inesperadamente, me vi envolvido com o bispo castrense, D. António dos Reis Rodrigues, o papa Francisco tem manifestamente um outro tipo de discurso, mas, tal como o bispo castrense, continua ainda muito longe de prosseguir/praticar o Evangelho de Jesus. Tenta conciliar o inconciliável, o Evangelho de Jesus com o de S. Paulo, quando os dois são contraditórios, tal como são contraditórios Deus e o Dinheiro, a Luz e a Treva, a Verdade e a Mentira, Jesus e Cristo. Chega a parecer que dá algumas no cravo e muitas na ferradura, mas, em boa verdade, até as qua parece dar no cravo, é ainda na ferradura que as dá. Por isso, os grandes media, todos, propriedade do grande poder financeiro global, gostam tanto dele e fazem manchetes com frases e gestos dele. Quem não sabe de nada ou vive distraído, engole tudo o que os grandes media escrevem/dizem/ mostram, alegra-se e diz, Este papa, sim, está a fazer uma verdadeira revolução na igreja. E a Cúria romana fica muito satisfeita, porque assim, enquanto os media andam com as suas câmaras de tv apontadas ao papa, ela, na sombra, prossegue o seu sujo trabalho, sem que os povos dêem por nada. É neste tipo de postura que se insere a mensagem que o papa Francisco assinou, em Dezembro 2014, para o Dia Mundial da Paz 2015 que hoje se celebra em toda a igreja católica romana. O título, “Não escravos, mas irmãos”, é sugestivo e prometedor. Mas só o título. O corpo do texto e o contexto não lhe correspondem. E nem que lhe correspondessem, de nada adiantaria, porque o que verdadeiramente conta, em Igreja, a de Jesus, não é a doutrina, a chamada ortodoxia, são as práticas de todos os dias, a ortopraxia. E as práticas do papa Francisco, como as do papa Bento XVI, como as do Papa João Paulo II, como as do papa Paulo VI, deixam muito a desejar, quando confrontadas com as práticas políticas/económicas maiêuticas de Jesus, em seu tempo e país. Desde logo, porque o papa consegue manter-se papa, poder monárquico absoluto, apesar de assinar documentos como este a preparar o Dia Mundial da Paz 2015. Por isso, tudo o que faça e diga não tem quaisquer resultados qualitativos. São meras palavras. Não mudam o ser, a realidade. E sem mudarmos o ser, a realidade continua aí em toda a sua perversão, cada vez para pior. Analisemos, por exemplo, o título da mensagem deste ano, “Não escravos, mas irmãos”. Soa bem, mas o papa não chega a ver que ele próprio, como papa de Roma, chefe de Estado do Vaticano, é uma das fontes da escravatura, como todo o poder monárquico absoluto é. Nem que queira ser irmão dos demais, ou servo dos servos de Deus, só o consegue ser à maneira do poder. O máximo aonde chega, é à postura de benfeitor, de bem-fazer, precisamente, o oposto de fazer o bem. Só há escravos, quando estamos no reino do poder. No reino da Humanidade, a própria ideia de escravos não aflora sequer. Só o poder é capaz de perverter a humanidade e aceitar como coisa normal a existência de escravos e de senhores. Aliás, o título da mensagem do papa provém directamente do Evangelho de S. Paulo, o perseguidor de Jesus e do Evangelho de Jesus. Numa das suas brevíssimas cartas, em que ele aceita a escravatura e apenas recomenda ao senhor de escravos que seja “bom” para os escravos. Querem barbaridade maior?! Mas é esta a paz do papa Francisco. A paz dos poderosos que, no máximo, deverão ser “bondosos” com os seus servos, os seus súbditos. O Cristianismo não vai mais além disso. Porque o Cristianismo é o poder. E a paz do poder é sempre paz armada. Só a humanidade gera paz desarmada, porque todos somos vasos comunicantes, organismo vivo, em que cada um contribui segundo as suas capacidades e recebe segundo as suas necessidades. E numa sociedade assim, a paz é tão natural como respirar.

 

Leave a Reply