Foi no dia 30 de Dezembro de 1961. Partimos de Lisboa cerca das nove da manhã. Saímos das instalações da Fundação e íamos bem dispostos – o dia estava bonito, embora frio. Além de mim, a Luísa Neto Jorge, seu marido António Barahona da Fonseca e um motorista da Fundação Gulbenkian. O António ia assumir o lugar de encarregado de Biblioteca (salvo erro em Bragança) e eu ia encarregar-me da de Vila Real.
Eu abandonava um lugar «de futuro» na RTP onde, aliás, ganhava cerca de 500 escudos mais do que ia ganhar na Fundação. Toda a família reprovou a minha decisão – toda, não: minha mulher, que estava grávida e que trabalhava no que seria depois a Docapesca e que também sairia do emprego (também «de futuro»), aprovou. Ia trabalhar com livros e isso justificava os mais de dois mil escudos que deixaríamos de receber todos os meses. Que se lixasse o futuro.
Almoçámos, o casal de poetas, o motorista e eu e à medida que a tarde avançava, o céu ia assumindo um tom cinzento. Depois foi uma chuva miúda e gélida. Jantámos em Viseu e, quando saímos do restaurante, já noite, nevava com alguma intensidade. Estrada deserta cujos contornos a neve apagava – o António ou eu íamos a pé à frente, iluminados pelos faróis, para que o carro não saísse da estrada. À passagem pelo Pinhão, resolvemos pernoitar ali, pois Bragança ainda ficava distante. Ficámos numa pensão na rua principal (por onde passava a estrada nacional) a poucos metros do estabelecimento do Francisco Tavares Teles, que viria a ser um bom amigo.
Na manhã seguinte, fazia muito frio, mas não nevava e lá prosseguimos. Em Vila Real, despedi-me dos amigos e eles seguiram viagem. Estava a uma esquina no lado oposto ao da catedral e nessa esquina ficava um café. Ou melhor, ficava «o café». Nos oito meses em que vivi na cidade, a Pastelaria Gomes foi o meu «quartel-general». Chegava cedo, saía para almoçar e logo voltava à Gomes, pois o carro da Fundação ali me recolhia para ir visitar as aldeias que ficavam na minha zona.
Logo depois de ter alugado um quarto, escrevi para Lisboa fazendo a minha mulher um relatório circunstanciado -«cidade bonita, com cheiro a lenha queimada e um café magnífico…» A Helena sabia bem que onde não houvesse um bom café,, podia haver mil monumentos maravilhosos que para mim não servia. Para terminar este introito, digo apenas que nunca mais larguei a «Gomes» e só ia á «Pompeia», situada na mesma avenida (a Carvalho Araújo) para ver jogos de futebol transmitidos pela Eurovisão. Estávamos em 1962…
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Na noite de fim-de-ano, não conhecia ainda os muitos amigos que ali tive, estive na «Gomes» até ser posto na rua, antes da meia-noite. Os empregados, simpatiquíssimos e que me consideravam uma daquelas fatalidades a que se não pode fugir, vieram avisar-me de que fechariam um pouco antes da meia-noite e um deles veio tímida e generosamente convidar-me para passar a meia-noite com a sua família… Comovido, recusei e arrumei livros e papéis e vim para a rua.
Aí tive uma surpresa.
Do lado oposto da avenida, onde se situavam o Hospital e o Governo Civil, vinham formações de agentes da PSP – capacetes de aço. Mausers e metralhadoras ligeiras… Algumas viaturas. Embora morasse do lado da «Gomes», na Rua da Igreja, subi a avenida até ao Tribunal, desci-a depois até ao Liceu. Os livros que me atafulhavam os braços deviam dar-me um ar pacífico. Não fui interpelado por qualquer das patrulhas.
Só no outro dia soube que o quartel de Beja fora atacado.
Mas essa história, o meu Amigo José Hipólito de Sousa, conhece-a bem melhor – estava lá.