Durante o desmaio, Diogo voltou aos distantes dias de Agosto de 1471, quando a grande armada, comandada por el-rei D. Afonso, o quinto desse nome, composta por 477 velas e transportando cerca de trinta mil homens, saiu do porto de Lagos no dia 15. As amuradas dos barcos iam adornadas com os escudos dos guerreiros que levavam a bordo, vendo-se também flutuando ao vento, numerosos pendões e bandeiras armoriadas. A partida fora prevista para alguns dias antes, mas a falta de vento impediu-o. Apesar do atraso, a travessia fez-se sem problemas, no dia 20 de Agosto a cidade de Arzila surgia à vista dos Portugueses. Era protegida por uma robusta cintura de muralhas e baluartes, mas, sabia-se, os seus defensores eram em número inferior ao dos sitiantes e que dispunham de melhor armamento.
Dois espiões enviados por el-rei, o escrivão da Fazenda real, Pêro da Alcáçova, e o capitão Vicente Simões, disfarçados de mouros, dominando ambos a língua árabe, e circulando pelo interior da cidade, tinham conseguido obter sobre a praça toda a informação necessária – número de soldados, armamento, pontos mais vulneráveis da muralha… Vieram depois até ao arraial português, onde fizeram o relatório da sua investigação. No entanto, apesar dos cuidados havidos com a preparação da campanha, no momento do desembarque verificou-se um contratempo – uma ondulação forte e a existência de uma linha de recifes situada antes da praia, converteram-se numa intransponível barreira e provocaram o afundamento de alguns barcos utilizados no transporte de homens, cavalos e armas – pequenas caravelas, batéis, barcas de carga, as chamadas barcas de carreto. Durante o desembarque, que durou três dias a completar-se, terão morrido afogados mais de duzentos soldados. As bombardas mais pesadas e o «palanque», a móvel muralha de madeira, atrás da qual os infantes podiam avançar protegidos e que tão útil fora em anteriores campanhas, não puderam também ser desembarcados devido à fúria da rebentação.
Atingida a praia, e Diogo foi um dos que ali chegou no dia 21, na falta do palanque, os portugueses escavaram um fosso em torno do seu arraial e assestaram as bombardas mais pequenas que tinham podido trazer, começando a flagelar as muralhas, enquanto as sucessivas vagas de desembarque prosseguiam. Os soldados estavam equipados com armaduras aligeiradas, devido ao clima quente, usando sobre as cotas de malha, protecções no peito, nas costas, alem de barbotes para proteger o queixo e, na cabeça, as vulgares celadas com cobre-nucas em couro. Espingardeiros, besteiros e artilheiros começaram a despejar uma chuva de projécteis sobre as muralhas e o interior da cidade. O intenso fogo das pequenas bombardas e falconetes destruiu dois troços de muralha que os defensores tentaram colmatar, embora com dificuldade porque, entretanto, outras brechas começaram a ser abertas noutros pontos da fortificação.
A luta prosseguiu feramente por mais três dias. No dia 24, D. Álvaro de Castro, conde de Monsanto, veio comunicar a el-rei que o alcaide mouro da cidade pretendia parlamentar, tentando negociar a rendição. O rei acedeu, pois tal acto permitiria poupar muitas vidas, quer dos sitiados quer das nossas. Porém, verificou-se nesta altura alguma desorganização nas hostes portuguesas, pois enquanto decorriam estas diligências, algumas tropas tinham já penetrado na cidade, escalando as muralhas ou transpondo as entradas abertas pelas bombardas. A negociação que teria permitido poupar vidas fora ultrapassada. As vagas de assalto sucediam-se e, decorridas poucas horas, combatia-se por todas as ruas, vielas e praças da cidade. Começou depois a combater-se casa a casa. Civis desarmados, sobretudo crianças, mulheres, velhos, inválidos, refugiaram-se na principal mesquita de Arzila. Conta-se que, cego de fúria, D. João Coutinho, o velho conde de Marialva, entrou sozinho a cavalo dentro do templo e, com a sua espada, matou muitas dezenas daquelas gentes indefesas, até que, já sem forças, encharcado em sangue dos pés à cabeça, foi, pelas mulheres, velhos e crianças, puxado de cima da montada e despedaçado pelas mãos das vítimas. O curioso é que, segundo as pessoas que com ele privaram, D. João Coutinho era um homem cordial, marido exemplar, pai e avô extremoso… Como pode uma pessoa assim transformar-se num ser demoníaco? A guerra transmuta os homens, não em feras, que só matam para se defender ou para se alimentar a elas e aos filhos, mas em demónios. Para o bom homem que D. João Coutinho fora durante toda a sua longa vida, aqueles indefesos mouros não eram seres humanos, não eram filhos de Deus. Eram infiéis, e isso fazia que, a seus olhos, devessem ser mortos impiedosamente. Quando após a tomada da alcáçova, se deu a rendição dos defensores de Arzila, el-rei procedeu à cerimónia em que armou cavaleiro seu filho, o príncipe D. João. O acto teve lugar na grande mesquita, agora a Igreja de Santa Maria da Assunção (embora depois viesse a ser designada com o orago de São Bartolomeu, pois a cidade foi tomada no dia daquele santo). O rei quis que o filho, com 16 anos, fosse armado cavaleiro ao lado do ataúde onde repousava o despedaçado corpo de D. João Coutinho. Disse-lhe:
– Filho, Deus vos faça tão bom cavaleiro como este que aqui jaz.
Além do Conde de Marialva, caíram também em Arzila muitos nobres, entre os quais D. Álvaro de Castro, conde de Monsanto, de que já falei, e que era camareiro do rei, além de muitas centenas de outros combatentes. Alguns dos nossos terão morrido devido à infecção das feridas provocadas pelas frechas inimigas, as chamadas «setas-ervadas», embebidas em ervas venenosas ou passadas por cebola-albarrã. Entre os islâmicos fala-se, talvez com exagero, em dois mil mortos e em cinco mil prisioneiros. Puderam também ser libertados cinquenta cativos portugueses que ali padeciam os horrores do cárcere. O espólio do saque foi valioso, ascendendo a cerca de oitenta mil dobras de ouro. Magnânimo, El-rei, renunciou ao direito que a tradição lhe conferia de ficar com o «quinto», ou seja, a quinta parte desse valor e determinou que, como impunha a ética militar dos novos tempos, se utilizasse a chamada escala franca, e o saque fosse dividido em partes iguais por todos os companheiros de armas – os soldados aclamaram com entusiasmo a generosidade do rei. Por estas paragens, não muito distantes do ponto onde estava fundeada a Saint-Louis, viajava a mente de Diogo, enquanto, sem consciência, o seu corpo estava estendido sobre as tábuas do convés, e os soldados castelhanos despejavam sobre ele baldes de água, para o despertar. A água salgada sobre as queimaduras provocava uma dor lancinante. Foi essa dor que o trouxe de regresso ao presente.