CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – THE SHOW MUST GO ON
joaompmachado
Eu pasmo, eu não compreendo (aliás gostava era de não pasmar e sim de compreender) como num século já tão adiantado no tempo – e muitos de nós até viemos do anterior – com avanços incontestáveis das ciências, saltos e evidências tecnológicas quase diários, ainda se pensa nesta palhaçada como se algo de palpável, de aceitável, de indiscutível fosse.
Como se repente uma Vossa Senhora de Fátima pudesse aparecer num powerpoint qualquer, suspensa e luminescente de uma árvore e logo quando iam justamente a passar (e a pastar) três analfabetas, pobres e inocentes crianças.
Eu pasmo como ainda hoje se mobilizam milhares (milhões?) de adeptos em êxtase, inconcebível horda de analfabetismo acéfalo, pronta a acorrer a Fátima aos encontrões e a acreditar naquilo. Na suprema banha da cobra que a eclesiástase, que a padralhada afecta e a ditadura da época inventaram conjuntamente com o fim de sossegar os aldeãos deste povoado que era Portugal à época, distraí-los da triste e paupérrima realidade que aquela mesma parelha de monstros criou, manobrou e manteve por decénios.
E eu pasmo, até porque já nessa sinistra época havia quem pensasse como eu estou aqui e agora a pensar. E a pasmar.
E eu pasmo, até porque houve entretanto um 25 de Abril que supostamente deve (deveria) ter aberto as cabeças de avelã vigentes e lá introduzir-lhes qualquer coisa em que pensar, qualquer coisa de novo e de diferente.
Mas não. Tanto lhes faz, tanto lhes fez, deve tratar-se de uma coisa atávica, uma hereditariedade biológica, um fado, um destino. Talvez faça mesmo parte dos Testamentos, do velho, do novo ou o de meia idade, já que como dizem, tudo lá estava absoluta e previamente escrito.
E eu pasmo ainda, como além de aceitarem piamente as tecnologias, os crentes (telefones, televisões, telemóveis, computadores, etc.) não as porem em causa como cousas do Demo – antes servirem-se delas com à vontade, mesmo sem as tentar sequer perceber. Com o mesmo à vontade com que aceitam a aparição, o supremo aparecimento.
Deve ser isto o espírito religioso. Aceitar tudo mesmo sem nada perceber. Bater com a mão no peito ou desligar o smartphone – é a mesma coisa, não há que duvidar.
Apenas me custa que o Papa, este Francisco (indubitavelmente diferente dos outros anteriores fuinhas, tenho de concordar, até mais inteligente) entre nesta encenação, se proporcione, se apraze à pantomima.
Será mais forte do que ele?
Não me parece. Suspeito que pensa o mesmo que eu e mais alguns de nós, apenas sabe em que tempo vive e quem apascenta.
Noblésse oblige. E além do mais the show must go on.