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Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 8 – O perigoso programa do candidato Macron, por Roland Hureaux

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 8 – O perigoso programa do candidato Macron: se este é aplicado, as classes médias serão laminadas.

Por Roland Hureaux, ensaísta

22 de abril de 2017

Material de campanha de Emmanuel Macron em Marselha, abril de 2017. SIPA. AP22035107_000017

O anúncio em fanfarra do programa de Emmanuel Macron tinha tudo para impressionar os eleitores: 500 peritos, 3000 ateliers com, ao que parece, a participação de 30.000 Francesas e Franceses. Era necessário tanta gente para se chegar a um resultado tão vazio?

Basta escutar os franceses para conhecer as suas principais preocupações, que são afinal bastante simples: desemprego e baixa dos rendimentos, imigração, educação, justiça e segurança, peso da pressão fiscal e, por conseguinte, de despesas públicas, sistema social pletórico e desordenado.

O pedagogismo sempre a ser rei

Sobre todas estas questões importantes, poucas ou mesmo nenhuma proposta séria. Nada sobre a justiça, nada sobre a imigração (como poderia isso interessar Macron que felicitou Merkel por abrir as suas fronteiras?), nenhuma resposta às expectativas dos “trabalhadores pobres”, imigrantes incluídos, que têm o sentimento frustrante de serem menos bem tratados que os assistidos. Nada também sobre a família e sobre a política familiar – e, portanto, não há nenhuma perspetiva de voltar à sua destruição pelos socialistas (1). Também não há nenhuma questão quanto à política externa: para quê? Mácron continuará o alinhamento servil à política da NATO, exatamente o que valeu a François Hollande o desprezo universal. Apenas propõe um quartel-general’ europeu’: para fazer a guerra contra quem?

O programa de Macron, http://pt.calameo.com/read/0005097227aee4c66ebf8

Na política de segurança, as poucas propostas são de uma pobreza aflitiva: regressar ao policiamento de proximidade (conhecido como “polícia de segurança quotidiana”), “não tolerar as incivilidades”, mais fácil de dizer do que fazer. “Toda e qualquer sentença pronunciada será executada”, mas ainda aqui será necessário que essas sentenças sejam pronunciadas, o que não é óbvio hoje visto as derivas da própria justiça, sobre as quais Macron não se pronuncia.

Na educação, para que serve proclamar que daremos a “prioridade à escola primária”, se não se mudam os métodos, a respeito do que não existe nenhuma sugestão? Ou de dar mais autonomia a diretores de escola acostumados a não fazerem ondas? Não são postos em causa nem os métodos pedagógicos aberrantes nem o tronco comum, nem a desastrosa reforma levada a cabo por Najat Vallaud-Belkacem, nem a reforma dos tempos escolares, reformas que até mesmo Jean-Luc Mélenchon quer revogar.

Tão pouco se levanta nenhuma questão quanto à ” França periférica”, provincial e rural, que sofre e definha: pode-se imaginar que um quarto dos departamentos regionais que ele pretende eliminar pertencem a esta França do interior.

O enfraquecimento do Estado francês

Os franceses estão afogados em impostos: o programa prevê suprimir o imposto sobre a propriedade imobiliária, o único que todos, franceses e estrangeiros, pagam. O programa também prevê a redução do imposto sobre as sociedades de 33% para 20% e, como Fillon, pretende a revogação do imposto sobre as fortunas. Embora tal não seja dito, Macron tem planos para compensar estas baixas de impostos a partir de um super imposto. Menos impostos, para os mais ricos e para as famílias do baixo da escala de rendimentos, mais impostos para a classe média, ou seja, para 58% dos franceses que tenham uma propriedade, classes médias que serão assim um pouco mais laminadas.

Das 96 propostas, 27 anunciam um aumento das despesas, quase nenhuma tende a reduzi-las; é apenas questão de “lutar mais contra a fraude fiscal ou social”, o que deixa supor que o ministro Macron não o fez suficientemente. Propostas de aumento da despesa pública: aumentar os mínimos de velhice de 100 € por mês, aumento do subsídio por adulto com deficiência em 100 € também, extensão do benefício do seguro desemprego aos que se despedem das empresas, reembolso a 100% dos óculos e das próteses dentárias, plano de 5 mil milhões para a saúde, de 5 mil milhões para a agricultura, um grande plano de investimento de 50 mil milhões, 2% do PIB, para a defesa nacional (precisamente o objetivo fixado pela NATO), ou seja pelo menos 20 mil milhões adicionais.

Acrescentemos: “Aumentaremos os salários dos trabalhadores, dos empregados” de um 13º mês. O Fundo para a indústria e a inovação, criação prevista no plano, será financiado pela venda das participações do Estado nas indústrias estratégicas, o que vai ainda enfraquecer mais a sua capacidade de manobra. De política industrial, é apenas questão de autorizar a cessão da Alstom à General Electric.

Como Marine Le Pen e com a diferença de François Fillon, Emmanuel Macron mantém a idade de passagem à reforma aos 60 anos, sem sequer exigir, como Le Pen, 40 anos de carreira contribuição.

Europa, Europa…

Macron pode prometer “construir uma Europa que crie os nossos empregos e desenvolva as nossas economias”, que “proteja as nossas indústrias estratégicas”, quando todos nós sabemos que essa Europa tem feito até agora o contrário. Não lhe servirá para nada, portanto, reunir «convenções de cidadania para dar sentido ao projeto europeu» (afinal, fala-se sempre do povo ignorante a quem explicaram mal as coisas!) se os programas, processos e regras da Europa de Bruxelas não forem revistos profundamente.

François Fillon defende a manutenção do euro mas integra no seu programa as disciplinas que isso implica (revogação das 35 horas, reforma aos 65 anos de idade, redução da função pública). Emmanuel Macron defende o euro, mas sem as disciplinas que implica a sua manutenção. Marine Le Pen recusa-as também, mas tem a intenção de sair do euro. François Fillon e Marine Le Pen, cada um à sua maneira, são coerentes. Emmanuel Macron, ele, não o é, de modo nenhum. Se o seu programa for aplicado, ele faria como François Hollande: esperar durante cinco anos o regresso do crescimento, olhando com um ar triste a curva do desemprego subir, tal como os défices, o que ele fazia já quando era principal conselheiro económico do atual presidente.

Outras contradições sobre a Europa: Macron propõe que os agricultores “sejam pagos ao preço justo” e não vivam mais de subsídios, mesmo quando é Bruxelas que impôs em 1992 a reforma da PAC em que se substituiu a remuneração pelos preços por uma remuneração pelos prémios. Como é que se pode conciliar estas intenções com o desejo de alargar o comércio livre através do acordo económico e comercial (CETA), tratado euro-canadiano que tem no conjunto dos candidatos um só defensor, unicamente o candidato Macron, tratado este que terá ainda como um dos seus efeitos a baixa dos preços?

François Hollande em pior

Longe de nos trazer a esperança de mais liberdade, o programa de Emmanuel Macron anuncia além disso, nas entrelinhas, o apertar de todas as restrições burocráticas e ideológicas relacionadas com o pensamento dominante: ambiente (50% de produtos orgânicos em cantinas ou ainda abatimento de carros velhos), a paridade em todos os níveis, não-discriminação a todo o custo: “nós lutaremos contra a discriminação e faremos dessa luta uma prioridade nacional”; e até mesmo uma discriminação positiva na forma de “empregos franco”, ou seja emprego de duração indeterminada destinado aos jovens e subsidiado pelo governo para os habitantes de determinados subúrbios. Os nomes das empresas que não respeitem a paridade homem/mulher serão tornados públicos. Avaliação sistemática dos serviços públicos de que se sabe bem a arbitrariedade dos critérios. Em perspetiva, uma sociedade orwelliana onde a pressão do politicamente correto será ainda mais sufocante. Olá, bom dia, jovem e liberal candidato!

 

VIDÉO – Quando #Macron lê um discurso que não escreveu e que não compreende.

https://twitter.com/AlertesNews/status/853262045889916928

Tudo isto é acompanhado, qual gato escondido com o rabo de fora, de algumas proposições apelativas: proibição de telemóveis na escola primária e na faculdade (e no liceu?), abertura de bibliotecas à noite e nos fins-de-semana, um passe cultural (o que fazem já muitos prefeitos), reembolso de óculos e próteses dentárias a 100%. O ensino da religião na escola, uma ideia de longa data a ser recuperada, faz temer abusos.

Raras são as propostas positivas: o restabelecimento das classes bilingues, também prometido por François Fillon e a limitação das sessões parlamentares.

Em resumo, este programa, frequentemente vago e sempre demagógico, deixa aparecer o prolongamento e mesmo o agravamento das principais tendências dos cinco anos de François Hollande: a imigração descontrolada, o declínio do sistema educativo, a explosão da delinquência, o sacrifício das famílias e baixa da taxa de natalidade, aumento das despesas públicas e da fiscalidade, desemprego persistente, sistema social injusto, polícia do pensamento. É isto que explica a sua pobreza, mal disfarçada pelo “bling bling”: a sociedade do espetáculo, tão cara a Guy Debord, está mais do que nunca “em marcha”.

A filosofia geral do seu programa é clara: mais Europa e mais fronteiras abertas (para pessoas, bens e fluxos financeiros) a caminho de uma sociedade mundializada em que a França, acusada de crimes contra a humanidade e que, diz ele, não tem cultura própria, dificilmente pesará alguma coisa. Tudo o que pede o povo…

Leia o original em http://www.causeur.fr/programme-emmanuel-macron-en-marche-43560.html

(1) Exceto para as famílias imigrantes que são os principais beneficiários de subsídios “orientados para aqueles que mais precisam”, os nativos pobres já sem filhos.

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