Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 9 – Macron-Le Pen: os sem dentes ainda não perderam. Nada está ainda decidido – Por Matthieu Baumier

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 9. Macron-Le Pen: os sem dentes ainda não perderam. Nada está ainda decidido

Por Matthieu Baumier, ensaista e romancista.

Revista Causeur, publicado a 24 de abril 2017

Texto 9 Macron_Le Pen os sem dentes ainda não perderam FN

Noite eleitoral da FN. Hénin-Beaumont, 23 abril. SIPA

A primeira volta das eleições presidenciais assemelha-se muito um passe de magia. E isto para não dizer que se assemelhou a um verdadeiro assalto. A acreditar nas reações dos mandarins da política e dos mestres censores de televisão, as eleições presidenciais francesas ir-se-iam desenrolar numa só volta. E esta única volta responderia obrigatoriamente a um script escrito antecipadamente: a encenação de um duelo entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen, conduzindo necessariamente, à vitória do primeiro contra a segunda. Do campo do Bem contra o campo do Mal. A eleição de 23 de abril de 2017 não foi uma eleição democrática, mas sim uma eleição construída. O seu resultado é um resultado pretendido. Macron é o instrumento liberal-libertário para manter a atual situação política e para desenvolver um programa económico de sangue e suor para todos nós, os sem-dentes. Nós, o povo. E se este cenário estivesse errado?

A democracia confiscada

O homem político Emmanuel Macron será que ele existe? Obviamente, não. Macron é uma figura acabada de sair da sacola do mágico Garcimore. Mácron? O homem das palavras ocas. A estrela dos gabinetes de comunicação. Que a classe política, económica e os media, se juntem à volta desta figura oca não é nada de surpreendente. Macron é o homem da síntese das “elites globais”, expressão forjada uma vez e com razão por Zygmunt Bauman.

Não há agora mais nenhuma dúvida que uma oligarquia de privilegiados ocupa o poder. E que não tem a intenção de jogar o jogo da democracia. Nunca ao ponto de perder os seus privilégios. Isto não é uma revelação. Isto é antes uma confirmação: o referendo de 2005 já tinha mostrado quanto a democracia estava confiscada em França. Fazer a soma dos votos de todos os candidatos que se opõem ao liberal-libertarismo é suficiente para disso nos apercebermos. No entanto, os mestres censores, mandarins e profetas das sondagens anunciam-no: o seu candidato será presidente da República a 7 de maio. Quem é que ele representará? Vendido aos eleitores como o homem de um renascimento da política, Macron não é senão a continuação da mesma política politiqueira mas por outros meios. Todo o antigo mundo é “macronista”. A sua maioria legislativa, se maioria houver, será composta de deputados procedentes da mesma classe política. Com o apoio dos mestres censores do jornalismo oficial.

Texto 9 Macron_Le Pen os sem dentes ainda não perderam Macron

Macron eleito em 7 de maio, a França estará na mesma situação que tem tido nestes últimos quarenta anos. A aposta Macron assenta numa “certeza”: todo e qualquer candidato não-populista presente na segunda volta contra Le Pen ganharia as eleições. As aparências são a favor desta aposta. Mas muitos eleitores acordam com uma ressaca, ou seja, ficam com o sentimento amargo de que a eleição presidencial está sequestrada por uma minoria. Fala-se de um big bang eleiotral? O resultado é precisamente o que era esperado. Foi-nos explicado que os velhos partidos políticos estão mortos? Eles estão provisoriamente agrupados à volta de Macron. Macron, a síntese ou o caos?

Soberanistas de esquerda e de direita, uni-vos

A situação lembra a derrota de Hillary Clinton nos Estados Unidos. Parecendo confirmar a estratégia eleitoral das elites mundializadas, é possível que a primeira volta valide sim a estratégia de Le Pen e Florian Philippot [vice-presidente da FN]. Os partidários de um Macron presidente apostam desde o início no automatismo de uma frente republicana anti-FN. É possível que esta aposta seja errada. Quem acredita seriamente que todos os eleitores Fillon, a quem a eleição foi roubada por uma manipulação sem precedentes dos media, ou que todos os eleitores de Mélenchon, que estão cansados da oligarquia no poder e sofrem diariamente com a política que promovem os amigos de Macron, irão votar em Macron como um só homem? No país real, as coisas são diferentes. Grande parte dos 54% dos eleitores que não apoiaram nem Marine Le Pen nem Macron abster‑se‑ão no dia 7 de maio Ou irão às urnas e votarão em Marine Le Pen. Esta é a aposta feita por Marine Le Pen e Philippot, a razão de ser da estratégia da abertura da FN à esquerda.

A aposta de Marine Le Pen ? Que os sem-dentes têm realmente suficiente horror face à insegurança económica e cultural. E que esta situação de estar farto será traduzida nas urnas em 7 de Maio. Pela abstenção. Mas também por um voto a favor de Marine Le Pen. Florian Philippot e Marine Le Pen podem estar prestes a ter sucesso onde Chevènement falhou: unir as duas margens dos soberanistas, a de esquerda e a de direita . Se isso acontecer, a aposta da abertura da FN à sua esquerda feita por Marine Le Pen e Florian Philippot provocará o único verdadeiro big bang na vida política francesa. Se isso não acontecer, a Presidência Macron não será outra coisa que não seja a continuação da mesma política por outros meios. A Maquiavel, Maquiavel  e meio? A resposta dentro de quinze dias.

Matthieu Baumier, Revista Causeur, Macron-Le Pen: les sans-dents n’ont pas encore perdu-Rien n’est joué! Texto disponível em :

https://www.causeur.fr/emmanuel-macron-marine-lepen-elites-43942.html

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