Que fazer: escolher Macron, escolher Martine Le Pen ou escolher não escolher? Texto 6. O princípio do fim – o apodrecimento da França em marcha. Por Michel Lhomme

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Texto 6. O princípio do fim – o apodrecimento da França em marcha

Por Michel Lhomme, filósofo e politólogo

24 de abril de 2017

Texto 6 O princípio do fim o apodrecimento da França em marcha

No final de uma campanha presidencial de vários meses, rica em múltiplos novos desenvolvimentos e de um suspense inédito, o centrista Emmanuel Macron, 39 anos, ficou em primeiro lugar na primeira volta das eleições para a Presidência com 23,75% dos votos, seguido pela líder da Frente Nacional, 48 anos, com 21,53%, de acordo com os resultados do Ministério do Interior. São pois quase 7,6 milhões de votos para a Frente Nacional, um recorde histórico, contra 8,6 milhões para Macron.

Sairá a França da má situação em que se encontra?

Pode-se ter dúvidas tanto quanto os números da primeira volta, abstenção incluída, testemunham se não há em França uma profunda divisão. Quatro candidatos basicamente atingem uma percentagem de eleitores na casa dos 20%, aos quais se acrescenta o partido dos abstencionistas, de 21.77%. Qualquer que seja o Presidente a ser eleito durante a noite de 7 de Maio, este não poderá governar sem ter em conta um forte e constante protesto da rua. O Presidente eleito também não deverá ter uma maioria parlamentar mesmo introduzindo uma dose de proporcionalidade.

Como tinha já sido sublinhado pelo notável filósofo Alain de Benoist em várias entrevistas, os dois vencedores para a segunda volta não pertencem aos partidos tradicionais. É neste sentido uma profunda mudança na política francesa, do sistema bipartidarista tradicional da quinta República, assente em dois grandes partidos.

Esta primeira volta, marcada por uma participação massiva de cerca de 80% sob forte vigilância e com um fundo da ameaça terrorista, assinala a eliminação dos dois grandes partidos tradicionais de direita e esquerda para a última corrida para o Palácio do Eliseu. Direita e esquerda implodiram para se recomporem sobre uma outra linha de fratura claramente afirmada: as elites contra o povo, a identidade nacional contra a globalização.

Ao mesmo tempo, a direita empresarial tradicional, a direita dos notáveis, ao ligar-se sem nenhum problema de escrúpulos ao movimento En Marche! de Emmanuel Macron (tendo François Baroin sido o primeiro a fazê-lo) perdeu todo o crédito e todos o corpus ideológico. Ela abandonou o monopólio dos meios de comunicação (entre outros) para a esquerda. E já para não mencionar, de passagem, que François Fillon não teve até ao fim nenhuma dignidade, porque depois de ter sofrido o massacre organizado pelos Hollandistas para o destruírem moralmente a favor de Macron, pode ele agora vergar-se a este nível e nesta altura aos que o tentaram por todos os meios anular? É na indignidade mais absoluta que Fillon apelou imediatamente e sem escrúpulos para que os seus eleitores votem no adversário desleal, e que votem sem nenhuma hesitação. Poucos, infelizmente, repararam nesta falta de decência óbvia e manifesta e que se acrescenta além disso à sua imoralidade, agora bem conhecida. Os Republicanos é agora um partido em agonia, composto de velhos ricos, que sobreviverá mais ou menos esgotado até às eleições legislativas. Exceto que velhos ricos, há cada vez menos sobre a terra da França e a direita não o enxerga, sequer. Ela tem estado ocupada em os querer tributar.

À esquerda, o Partido Socialista objetivamente já não existe, mesmo se é verdade que habilmente se reconstituiu, através do seu “núcleo “da Rue Solferino, no movimento En Marche! Metade do eleitorado deste movimento assenta neste equívoco que não se aguentará em face das realidades sociais do país e da sua “ingovernabilidade” acima referida. Macron + Mélenchon + Hamon valem no seu conjunto cerca de 50%. Salvo algum acontecimento excecional, e pensamos claro num atentado de grande amplitude que está longe de dever ser excluído, Marine Le Pen não deverá alcançar a Presidência.

Esta manhã, alguns apontavam a má campanha de Marine Le Pen, a sua moleza, as suas escolhas discutíveis, as suas propostas arriscadas, mas o que é que se pode fazer contra tanta cegueira face ao desmoronamento nacional? Diz-se aqui e ali, que com Emmanuel Macron nada irá mudar. É exato: o voto Macron é também o do medo de virar as mesas ao contrário. Os conselheiros dos gabinetes ministeriais conservarão o seu lugar, os projetos mais desconchavados em curso serão continuados. Estatisticamente, Marine Le Pen aumenta o seu eleitorado à razão de mais de 700.000 por ano em média, e esta é talvez a descoberta de uma nova lei política eleitoral: parece não se poder ir mais rapidamente em política, quando se tem todos os meios de comunicação social contra si e quando Macron tem estes mesmos meios de comunicação social a seu favor.

Esta primeira volta deve também levar-nos a saudar honestamente o desempenho e o génio tático de François Hollande e dos socialistas que conseguem manter o poder apesar de cinco anos de política catastrofista e de um cataclismo social no fim do qual a imensa maioria dos franceses inegavelmente os vomitavam.

Isto não é artesanato, é arte e em grande

Quando toda a gente previa naturalmente um naufrágio integral da esquerda como um todo, com uma provável segunda volta com Le Pen versus Fillon e uma cerrada vitória deste à segunda volta, Hollande alcançou um enorme êxito ao colocar o seu candidato fetiche à cabeça. Como é que os métodos utilizados funcionaram, mesmo num país desenvolvido: invenção de um candidato “socialo” anti-sistema mas que, de passagem, efetua a mudança, desde há tanto tempo desejada desde Jospin e a Terra Nova dos velhos PS tendência SFIO, em partido social-liberal à inglesa e à alemã, democrata à americana (a neocolonização dos espíritos).

Como em todas as eleições, esta é altamente sociológica. Entre os burgueses boémios dos centros, defensores da globalização, e as populações alógenas dos subúrbios próximos, este voto confirma uma mudança profunda do povo francês: a minoria branca é reduzida a uma ridícula dimensão. Marine Le Pen teve em Paris 4,99% dos sufrágios expressos.

Outra constatação, os Franceses têm um ídolo, e este é, na verdade, o Euro. Assim, à segunda volta, haverá um voto massivo em Macron pelos que não suportam a referida “extrema-direita” e pelos que têm medo de perder os seus euros. De facto, os desafios europeus da segunda volta foram reenquadrados muito rapidamente e bem colocados pelos dois candidatos. O que verdadeiramente está em jogo na segunda volta, é a Europa e a mundialização. Face aos seus partidários reunidos no Sul de Paris, Emmanuel Macron assegurou que ele transporta “a voz da esperança” para a França e “para a Europa”, e assegurou querer ser “o presidente dos patriotas face à ameaça dos nacionalistas”. Partidário da UE, o ex-ministro da Economia de resto recebeu o apoio explícito do presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker e do governo alemão de Angela Merkel. Por seu lado, Marine Le Pen afirmava que o que está em jogo nesta eleição é a mundialização selvagem que põe em perigo a nossa civilização: “Ou seja, continuamos na via da desregulação total”, terá ela discursado para os seus partidários, descrevendo-se como “a candidata do povo”.

 A partir de hoje, os dois candidatos irão limpar e recarregar as suas armas

Emmanuel Macron terá, de acordo com o seu círculo de campanha, “conversações políticas“, ou seja, negociações com uma parte da direita e da esquerda para garantir as condições de apoio e preparar um governo de abertura. Drogados em termos de dívida e postos sob tutela por Bruxelas, os franceses podem em todo o caso correr o risco de morrer aos poucos. Para muitos esta manhã, a segunda volta vai ser como escolher entre o caos que Marine Le Pen carrega com ela e o apodrecimento político que nos traz Emmanuel Macron. Então o que fazer? Escolher a abstenção, o caos ou o apodrecimento? O sistema de refortalecimento do Estado que nos traz Marine Le Pen ou a desconstrução irrealista que nos quer oferecer Emmanuel Macron? Ou será que se está já a preparar na sombra da segunda volta as eleições legislativas que serão disputadas de 11 e 18 de junho, a terceira volta verdadeiramente decisiva por causa da “governabilidade” possível e sem choques e sem grande efervescência da rua, por natureza imprevisível mas agora desejável.

Michel Lhomme, Le début de la fin : la France du pourrissement en marche, revista Metamag, disponível em : https://metamag.fr/2017/04/24/le-debut-de-la-fin-la-france-du-pourrissement-en-marche/

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