DA DEGENERESCÊNCIA DO ESTADO-NAÇÃO AO TRATADO DE AIX-LA-CHAPELLE DE 22 DE JANEIRO DE 2019 – uma pequena série de textos – TEXTO Nº 6 – AS RELAÇÕES FRANCO-ALEMÃES PORQUE É QUE O TRATADO DE AIX-LA-CHAPELLE AGRAVARÁ O DESEQUILÍBRIO ENTRE A FRANÇA E A ALEMANHA, por ROLAND HUREAUX

Trono de Carlos Magno na Catedral de Aix-la-Chapelle /Autor: Berthold Werner -Aechener Don, Karlsthron


 

Roland Hureaux, Pourquoi le Traité d’Aix-La-Chapelle aggravera le déséquilibre entre la France et l’Allemagne

Atlantico, 28 de Janeiro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Apesar das aparências, o tratado de Aix-la-Chapelle é um duro golpe nas relações  franco-alemães.

 

Com Roland Hureaux[1]

O papel do euro

Esta situação tem uma causa importante: o euro. Pode-se debater para saber se, no seu  princípio, uma moeda única poderia ser bem sucedida. Mais de dez laureados com o Prémio Nobel da Economia manifestaram dúvidas a este respeito. Em todo o caso, conduziu a um desequilíbrio crescente entre os países da Europa e, em especial, entre a França e a Alemanha. Entre 2000 e 2018, a produção industrial alemã aumentou 42%, a de França 3%, a de Itália 15%, a de Espanha 16% (embora a sua evolução tenha sido até aí paralela). A balança comercial da Alemanha apresenta agora um excedente de 248 mil milhões de euros, enquanto o défice da França é de 67 mil milhões de euros, sem esperança de um reequilíbrio.

A primeira razão para este desequilíbrio são as condições em que os dois países aderiram ao euro. Os alemães colocaram no acordo alcançado para o euro um marco a um preço reduzido, o que reduziu o custo dos seus produtos expressos em euros e tornou-os hiper-competitivos, enquanto os franceses, com a vaidade dos nossos líderes a ajudarem nesse processo, colocam no acordo um franco já sobrevalorizado, o que torna os nossos produtos mais caros. Além disso, deve-se acrescentar a este quadro a reforma económica do Chanceler Schröder, realizada sem qualquer concertação  desde a entrada em circulação do euro, e esta reforma tinha por objectivo reduzir ainda mais os custos alemães em comparação com outros países da zona  euro, a fim de conferir à Alemanha uma vantagem decisiva.  Se a França tivesse tido o mesmo crescimento desde a sua adesão ao euro que a Alemanha, como teve entre 1950 e 2000, teria 40% mais produção industrial, ou 40% mais poder de compra, que é precisamente o que os Coletes Amarelos não têm para satisfazer as suas necessidades e o governo não tem  para satisfazer as suas exigências.

As únicas soluções recomendadas pelos dirigentes franceses: salários mais baixos e menores contribuições para a segurança social, medidas tardias e tímidas, ineficazes mas suficientes para impulsionar a circulação de Coletes Amarelos; é evidente que não se deve procurar qualquer solução deste lado. A única saída é uma mudança na paridade monetária entre os dois países. Trata-se do desmembramento da zona euro, que, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer. Entretanto, as fábricas francesas estão a fechar uma após outra e os agricultores estão a matar-se a si próprios. A agricultura francesa, que há muito era exportadora em comparação com a Alemanha, tornou-se importadora.

Este empobrecimento da França afecta particularmente os nossos porta-estandartes industriais. Como se houvesse um plano concertado para enfraquecer o poder francês, o controlo das nossas empresas estratégicas, os produtos da engenharia nacional: Alstom, Nexter (ex-GIAT), em breve talvez Naval-Group (ex-DCN) e outras são transferidos para  lá  do Reno – ou de outro lugar. O Airbus, resultado dos esforços de gerações de engenheiros franceses, está agora fora do controlo francês.

O desequilíbrio económico poderia ter sido compensado por uma vontade política activa de explorar as vantagens de que a França dispõe: o seu imenso domínio marítimo, a sua presença em África, o seu estatuto de potência nuclear. Mas os dirigentes franceses estão a fazer tudo o que podem para a agravar pela sua falta de interesse nestas vantagens, vantagens que estão dispostos a vender ao desbarato, e pela sua servilidade  para com o parceiro do outro lado do Reno. Em França e em todo o mundo, há um sentimento crescente de que a França está a ser controlada por uma Alemanha dominante, que é Berlim que define a pretensa  linha comum.

Uma relação saudável entre a França e a Alemanha exige que a França, que não consegue acompanhar a indústria alemã, tenha o cuidado de preservar os seus próprios activos. Implica, pelo menos, a desagregação da moeda única, que lhe é tão desastrosa .  Quanto mais esperarmos, mais o desequilíbrio entre as duas economias se agravará, menos agricultura e indústria permanecerão em França, mais difícil será voltar ao equilíbrio. E, provavelmente, mais a separação será violenta.

As relações “especiais” franco-alemãs nunca agradaram aos países do resto da Europa. Eles também não vão gostar deste tratado.  Eles esperam, confusamente, que a França desempenhe o seu papel secular no continente, o de conter a desmedida pelo lado dos alemães  tal qual ela se expresso, por exemplo, pela política económica restritiva que Berlim impõe ao resto do continente. Uma política que o Prémio Nobel Josef Stiglitz não hesitou em descrever como “criminosa”.  O nosso cobarde seguidismo deixa os países em causa, muitas vezes velhos amigos de França, longe da questão.

A paz é baseada no status quo

Este desequilíbrio, que irrita cada vez mais franceses, é agravado pelo novo tratado franco-alemão assinado na Alemanha. Não só consolida o euro, como também obriga a França a apoiar a exigência alemã de um lugar permanente no Conselho de Segurança. É pouco provável que esta pretensão seja satisfeita porque pelo menos dez países, a começar pela Índia e pelo Japão, gostariam também de ter um lugar.   Mas esta cláusula, que nada tem a ver com um tratado, envia ao mundo um novo sinal de lealdade da França à Alemanha. Mais grave ainda: a questão do lugar permanente no Conselho de Segurança está, informalmente, ligada à posse de armas nucleares, que alguns círculos alemães reclamam também  e  de uma forma cada vez menos discreta.

Sejamos claros: a relativa paz que prevaleceu na Europa durante 75 anos não é, como dizemos, o resultado da União Europeia, esta  é que antes uma consequência da primeira e que, além disso, tem alguma responsabilidade pelos conflitos que surgiram recentemente no continente: Balcãs, Cáucaso, Ucrânia, como reconheceu o antigo Chanceler Helmut Schmidt relativamente a  este último conflito. A paz reina porque duas potências continentais e apenas duas têm armas nucleares. Ao desafiar este equilíbrio, o tratado ameaça a paz.

No  seu primeiro discurso em Versalhes, Macron já pedia um reforço do esforço de armamento alemão.  Ao organizar as transferências industriais acima mencionadas, Macron está a contribuir para uma perigosa inversão do equilíbrio de poder. Como é que podemos compreender que um país que foi invadido três vezes em menos de um século pelo seu vizinho, queira transferir o seu saber-fazer militar para ele e  por todos os meios? Alguns poderão dizer que estes receios foram ultrapassados: a Alemanha acalmou-se agora. A ver! Num continente onde Leningrado voltou a ser São Petersburgo, o que é que está ultrapassado?  No contexto de extrema instabilidade neste país, profundamente abalado pela louca decisão de Merkel de acolher vários milhões de refugiados – a pedido de empregadores que procuram trabalho para uma economia sobreaquecida graças ao euro – tudo é possível.

Quem sabe o que pode acontecer numa Alemanha com um temperamento bipolar, que passou em três anos de ter “a constituição mais democrática do mundo” (a República de Weimar) para o que se sabe? A Alemanha de hoje já tem mais do que a sua quota-parte de responsabilidade na eclosão da guerra dos Balcãs de 1999, que levou à humilhação da Sérvia, um inimigo histórico do Reich, com a vergonhosa cumplicidade da França, que se apressou a jogar contra o seu próprio campo[2]. Tem-na também, em menor grau, na guerra da Ucrânia, onde a Europa continental está a recuperar a sua extensão de 1942.   Quando, para justificar o Tratado de Aix-la-Chapelle, Macron pediu a constituição de uma defesa europeia contra a Rússia, pensou na Divisão Carlos Magno[3]?  Quem sabe quanto são os  jovens oficiais da Bundeswehr que se reúnem todos os anos para celebrar o aniversário de Hitler?

Promiscuidade

Acrescentemos que os povos, tal como os indivíduos, não gostam da promiscuidade.  Os alemães, que sempre recusaram a noção de um casal franco-alemão, demasiado familiar ao seu gosto (o que os meios de comunicação franceses, que repetem sempre esta expressão, nunca repararam!), conhecem  bem isto. Dois vizinhos que se dão bem  odiar-se-ão rapidamente se as paredes que os separam forem derrubadas.    A reconciliação franco-alemã parecia ter sido alcançada. Ao obrigar-nos a partilhar a mesma cama, Macron e Merkel desafiam-na: os casamentos forçados acabam geralmente mal.

Responsabilidade alemã

Sem dúvida, os alemães têm a sua quota-parte de responsabilidade nestas derivas. Embora o idealismo europeu dos franceses seja frequentemente sincero, chegando ao ponto de sacrificar os seus interesses nacionais, mais por vaidade ou leviandade do que por virtude, o dos alemães nunca perde de vista os interesses alemães. Quantos dirigentes  franceses chamados a cooperar com os parceiros na Alemanha já passaram por este jogo duplo e tortuoso?  Por  duas ocasiões, a França veio em socorro dos alemães em dificuldade: em 1969, concedeu os montantes compensatórios, uma espécie de direito aduaneiro inverso, a uma agricultura alemã desestabilizada pela desvalorização de 1969. Em 1992, restringiu a sua oferta monetária e, por conseguinte, o seu crescimento, de modo a que a Alemanha unida pudesse absorver a massa dos marcos orientais, assumindo assim a sua quota-parte do fardo da reunificação. Não foi tomada qualquer medida semelhante a favor da França, que tem estado em dificuldades desde que aderiu ao euro, como é óbvio.

A responsabilidade francesa: a política do desprezo

Mas seria injusto culpar apenas os alemães pelo crescente desequilíbrio entre os dois países.  Muitas vezes os alemães não pediram nada: foram as chamadas elites francesas que se anteciparam aos seus desejos em muitas questões. É o caso para o fator essencial deste desequilíbrio, o euro, que continua a ser, não o esqueçamos, uma iniciativa francesa, testemunho de uma incultura económica única no mundo dos seus dirigentes e da ideia dissimulada, com matizes vichyistas, de que é necessário impor aos franceses a disciplina alemã.  De resto, os franceses cometeram pelo menos um erro ao não se terem oposto a decisões que lhes eram claramente desfavoráveis: a política económica de Schröder, a política de migração de Merkel, a desqualificação da energia nuclear[4], o nosso cartão forte, orquestrado pela Alemanha, a transferência da Alstom para a Siemens, a transferência gradual de poder dos franceses na  Airbus. As boas contas fazem bons amigos: longe de reforçarem a amizade entre os dois países, estas complacências minaram-na gradualmente.

Que os alemães não se enganem: a Germanomania das elites francesas tem menos a ver com um interesse na verdadeira Alemanha do que com o seu desprezo pelo povo francês. Há uma categoria de franceses para quem tudo o que é feito noutros lugares, especialmente na Alemanha, é melhor. Muitas reformas desastrosas foram feitas no  nosso país por imitação servil da Alemanha, como a reforma regional ou a reorganização do horário escolar. Por outro lado, ninguém em França sabe o que poderia ter sido utilmente transposto como os institutos Fraunhofer.

Um sinal que não engana: cada vez menos franceses falam alemão e cada vez menos alemães falam francês. O próprio Macron, tão orgulhoso do seu inglês, nunca se esforçou para aprender a língua de Goethe.

O desprezo das classes dirigentes pelos franceses, por vezes o seu ódio, tem um carácter patológico. Quando se chega ao servilismo face ao estrangeiro,  isto tem a ver sobretudo com baixeza,  característico de uma classe de novos ricos  que nunca aprendeu que o primeiro dever de uma elite autêntica é servir o seu povo e, no mínimo, estimá-lo. 

O General de Gaulle havia feito todo o possível para que, através da exaltação da França livre, os franceses recuperassem a sua autoconfiança e se livrassem dos complexos nascidos da derrota de 1940. Mas desde há  últimos 50 anos, o seu trabalho tem sido objeto de um trabalho incessante de sapa , reabrindo as velhas feridas. A magnífica vitória conquistada em 1918 pelo nosso exército quase sozinho[5] foi deliberadamente ocultada. A teimosa Germanomania de Macron resume a atitude vergonhosa das classes dominantes francesas durante décadas.

Quando a França acordar…

Seria preciso uma forte ignorância da nossa história para imaginar que os franceses continuarão por muito tempo a aceitar este desequilíbrio destrutivo que lhes é imposto pelas suas elites.  Eles são como o cavalo em que o seu dono iria impor uma severa desvantagem nas corridas  para depois lhe  cuspir em cima. Sem dúvida que vão acordar um dia. E melhor cedo do que tarde. No dia em que abrirem os olhos para o que lhes foi infligido, terão uma boa razão para se zangarem com a sua oligarquia. Mas também se arriscam a culpar o povo alemão, que talvez não estivesse a pedir tanto.

Os Coletes Amarelos são uma forma de despertar. Provavelmente têm uma má compreensão do impacto das relações franco-alemãs nas suas misérias quotidianas. No mínimo, podem ver que o Presidente Macron, ao reforçar o empenhamento da França no euro, está a privar-se de qualquer margem de manobra e que, por conseguinte, não tem qualquer intenção de admitir nada no grande debate nacional que acaba de lançar.

Negociado em segredo, o Tratado de Aix-la-Chapelle  foi concluído entre dois Chefes de Estado e de Governo em grave défice de legitimidade: Emmanuel Macron, enredado na crise dos  Coletes Amarelos, cuja popularidade está no seu nível mais baixo, Angela Merkel no final da corrida, a gerir as atividades correntes. Macron está completamente desfasada das aspirações do povo francês. Vai contra o sentido da história, que em toda a parte está a ver o regresso das nações em causa para manter a sua soberania e defender os seus interesses: os Estados Unidos, o Reino Unido, a Itália, a Europa Oriental, a Rússia e a China. De qualquer forma, isso irá prejudicar gravemente as relações entre a França e a Alemanha. Uma caricatura do tratado de 1963, ele será,  na melhor das hipóteses , um nado-morto.


[1] Segundo Wikipedia: Roland Hureaux é ensaísta e alto-funcionário francês. Tem desenvolvido atividade politica nos grupos soberanista e gaullista.

[2] A odiosa humilhação infligida ao Presidente sérvio aquando das cerimónias de 11 de Novembro exprime o desprezo dos dirigentes franceses  pelas obrigações tradicionais  assumidas pela França

[3] Os SS Charlemagne Panzergrenadier  (a divisão Carlos Magno é uma alusão ao lendário rei Carlos Magno), era formada por voluntários franceses fascistas que se alistaram no exército alemão para combater os comunistas do leste. Foram criados grupos semelhantes na Espanha e na Escandinávia também.

[4] De que os absurdos eólicos, fabricados na Alemanha, são um símbolo.

[5] A batalha decisiva deu-se em julho de 1918 : os exército inglês e  italiano estavam esgotados, o exército americano no seu essencial  só depois é que esteve operacional, só o exército alemão e o francês estavam na sua máxima força.

 

Fonte : Roland Hureaux, sitio Atlantico, Pourquoi le Traité d’Aix-La-Chapelle aggravera le déséquilibre entre la France et l’Allemagne. Disponivel em : https://www.atlantico.fr/decryptage/3564688/pourquoi-le-traite-d-aix-la-chapelle-aggravera-le-desequilibre-entre-la-france-et-l-allemagne-roland-hureaux

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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