CATALUNHA – PUIGDEMONT E A DEFESA CHEWBACCA, por MÁXIMO PRADERA – selecção e tradução de FRANCISCO TAVARES
joaompmachado
Puigdemont e a defesa Chewbacca
Máximo Pradera, Puigdemont y la defensa Chewbacca
Publico.es, 27 de Setembro de 2017
A minha cena favorita de Os cavaleiros da Mesa Quadrada, de Monty Python, talvez seja o hilariante duelo entre o Rei Artur e um misterioso personagem (luta com a viseira a tapar-lhe a cara) chamado O Cavaleiro Negro. Por razões desconhecidas (um tautológico Não é Não medieval?), O Cavaleiro Negro não quer deixar passar o Rei e este desafia-o para um duelo de espada. Artur corta-lhe um braço e dá por concluído o duelo, mas para sua surpresa, o seu adversário não admite a derrota e afirma que a sua ferida é um simples arranhão.
Continua a luta e O Cavaleiro Negro, já sem o outro braço, pretende continuar a combater a pontapés.
– Imbecil, pois se já não tens os braços! – grita-lhe Artur, incapaz de entender porque razão o cavaleiro não se dá por vencido, nem de imaginar aquilo por que tem que passar para que ele se renda.
Após perder as quatro extremidades e ficar reduzido a um vociferante tronco no meio do bosque, El Caballero Negro continua a maldizer o seu adversário e acusa-o de cobarde:
–Não fujas, galinha, vou acabar contigo à dentada! – grita-lhe enquanto contempla, impotente, como o Rei se afasta.
Não se me ocorre outra metáfora melhor que esta para ilustrar o duelo entre Rajoy e Puigdemont. Ao catalão confiscaram-lhe os boletins de voto, os cartazes, fecharam-lhe as webs, dissolveram-lhe a sua Junta Eleitoral, Piu-piu vigia-lhe as urnas de voto, ocultas (corre esse boato) no porto de Barcelona e o tipo mesmo assim continua a dizer que haverá referendo. Que mais é necessário que se passe para que admita que não vai haver votação de nenhum tipo, salvo talvez em formato farsa, como nos Carnavais de Cádiz?
Qualquer um que tenha visto a entrevista que Jordi Évole fez a Puigdemont e escutado as delirantes respostas deste aprendiz de Lluís Companys, sabe que mesmo que a Fiscalía ordenasse hoje mesmo a prisão de todos e cada um dos mais de seis milhões de catalães com direito de voto, o President continuaria a afirmar que no domingo 1 de outubro haveria referendo. Porquê? Porque Puigdemont chama «referendo» a qualquer acto participativo que tenha que ver com o futuro político de Catalunha. Terá o President lido Lewis Carroll? Em Alice através do Espelho, aparece um ovo antropomórfico chamado Humpty Dumpty que joga com o significado das palavras da mesma forma que o faz o molt honorable.
–Quando emprego uma palavra – diz o ovo – significa aquilo que eu escolho que que signifique, nem mais nem menos.
Um referendo é um procedimento avaliado, no qual tem que haver controlo do recenseamento, junta eleitoral, legalidade interna, registro fiável de voto exterior e neutralidade da administração eleitoral. Como a convocatória do 1 de outubro não reúne nem um só destes requisitos, quer dizer que Puigdemont e os seus sequazes, imitando Humpty Dumpty, estenderam o propalado direito a decidir inclusive ao significado das palavras.
Alguém dizia no Twitter há pouco que Rajoy consegue mil independentistas cada vez que abre a boca, mas que acto contínuo, Puigdemont desanima-os com alguma ocorrência delirante. Talvez as analogias com Monty Python e Lewis Carroll sejam demasiado elevadas para o nível intelectual do President. Porque a sua lógica não chega nem à Defesa Chewbacca, que vimos num episódio de South Park. Consiste em empregar argumentos sem sentido com o fim de confundir o teu adversário:
–Chewbacca é um wookiee [raça ficcional de Star Wars] do planeta Kashyyyk, mas Chewbacca vive no planeta Endor – diz o advogado na série. Agora, pensem sobre isto. Não tem sentido! Porquê um wookiee, um wookiee de dois metros e meio de altura, quereria viver em Endor com um grupo de ewoks de 60 centímetros? Isso não tem sentido! Portanto, senhores do jurado, devem absolver o meu cliente.
Absurdo, mas não muito diferente das respostas de Puigdemont em Salvados:
–Como consequência do resultado do referendo vai-se aplicar o resultado do referendo – disse o ex-alcalde de Gerona na entrevista.
É aí quando teria que ter entrado a Guardia Civil para levar detido o President. Não por tentar romper Espanha ou desobedecer ao Tribunal Constitucional. Isso é um pequenino pecado (peccata minuta) comparado com o autêntico delito: o de insultar uma e outra vez a inteligência do seu interlocutor.