CARTA DE BRAGA – “A noite em que não conheci um poeta! por António Oliveira
clara castilho
Era Setembro ou Outubro, Outubro com certeza, na memória dos tempos de cadete no convento de Mafra. E também me lembro, apesar de já lá irem quase sessenta anos, de as noites já serem mais frias. Tinha chegado ali no princípio de Agosto.
Pelos acasos da Fortuna, conheci um pequeno grupo de jovens em que todos, eles e elas, roçavam a minha idade e, volta e meia, quando os fardos da escola de cadetes o permitiam, tomávamos uma bebida num dos cafés do lado de lá da praça, em frente do convento.
Naquela noite, fosse pelo que fosse, alguém disse ‘vamos até minha casa! Está lá um amigo que vão gostar de conhecer!’
A casa ficava numa rua de trás e a sala onde entrámos e nos sentámos era ampla, a dar à vontade para a meia dúzia de pessoas que lá entrou.
Alguém trouxe uns biscoitos e uns cálices de Porto para a mesa e, estávamos a tentar alinhar uma conversa qualquer, quando o tal amigo de quem seria o dono (ou do filho do dono) da casa, entrou na sala.
Um fulano de estatura média, forte sem ser gordo, uma testa alta da uma calvície a caminhar lenta e tranquila e o jovem do convite, disse apenas ‘é o Ruy Belo!’
Alguém lhe empurrou uma cadeira, sentou-se e entrou na conversa tranquilamente como se já lá tivesse estado antes.
O amigo dele estava à minha frente e quando olhou para mim, perguntei mais por gestos e a falar sem voz, ‘é o poeta?’
Sorriu estendeu a mão por cima da mesa, deu uma leve palmada na minha, como a pedir calma, mas a conversa continuou, sobre o tempo que ainda faltava para irmos embora de Mafra.
Parecia ser eu o único interessado no poeta e ele, o dono da casa, ou filho do dono da casa, toca-lhe no ombro e ‘há aqui gente que sabe quem és’.
Olhou por mera curiosidade, ajeitou-se melhor na cadeira, de maneira a ficar bem de frente e o outro perguntou ‘não tens aí nada que nos possas dizer?’
Por hábito antigo, tirei um lápis, puxei um guardanapo e fiquei a olhar expectante.
Ruy Belo sorriu e começou a dizer lenta e sentidamente, mas não consegui apanhar tudo.
O que apanhei decorei-o de tantas vezes o ter lido, antes de o copiar para um papel mais forte pois o guardanapo já quase tinha desaparecido.
Era assim:
‘Está sereno o poeta?
Desprende-se-lhe dos ombros e cai
depois em pregas por ele abaixo a manhã
Não pertencem ao dia os gestos que ele tem
não morrerão na noite seus assombrosos passos’
Não consegui apanhar mais nada e, mesmo assim, foi a jovem sentada a meu lado a dar-me as dicas para conseguir escrever certo e bem o último verso.
Só o consegui completar, alinhar e emendar, já depois de ter voltado da guerra, mais de três anos depois.
É um dos incluídos no ‘Aquele grande rio Eufrates’ editado pela ‘Assírio & Alvim’ em 1961.
Tem por título ‘Poema quase apostólico’ e aqui fica o resto, para terminar da melhor maneira a história de uma noite em que não conheci Ruy Belo, o poeta!
‘Dizem que ele volta a pôr em movimento a roda
de crianças de atitudes desmedidas
que o vento varreu e parque algum queria
E abre os braços para deixar cair na cidade
um ano favorável ao senhor
E põe o rosto do senhor por trás das suas palavras
Elas decerto o hão-de dar a quem as demandar’
Só o tive à frente, do outro lado da mesa, a ‘sentir’ um poema!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor