Neste mês, já estiveram aí as Perseidas, aquela anual chuva de estrelas anunciadas pelos media, como se fosse um espectáculo dependente de patrocinadores à escala mundial, pois até indicaram dias, horas e mesmo os melhores lugares para se apreciarem.
Por ter lido essa notícia em vários órgãos de comunicação, lembrei-me da frase que um grande amigo, já partido, ‘A Lua e as estrelas estão sempre lá em cima, no firmamento. A maioria olha-as de baixo, sonhadoras e humildes, mas há quem, egocêntrica e invejosa, se julgue também ao lado delas’.
Creio serem estas as palavras que ele repetia com frequência, para explicar o comportamento e atitudes de pessoas com quem, por vezes, tropeçávamos na rua, no café, no cinema, ou em qualquer evento, até de entrada livre. Aconselhava sempre a continuar em frente com um sorriso, por a noite ser feita para nós, para olharmos para a lonjura da noite, ‘porque assim te aproximas cada vais mais delas, para entenderes os outros e a ti mesmo’.
Hoje, muitos anos mesmo depois de ele ter partido, creio já ter compreendido o que queria dizer-me, ao ver gente que nunca parou um pouco no seu caminho, a saber se haveria outra que se preocupava em apreciar a vida, em ser como é, a conhecer-se cada dia que passa, a arriscar e cair, a pôr-se de pé outra vez, a viver e a sentir.
Na verdade, e com toda a certeza, a maioria até saberá disso, da mesma maneira que as emoções nascem do coração, como sói dizer-se, também os sentimentos parecem sair de uma noite, mesmo nublada, onde as nuvens escondem o firmamento, apesar de a Lua sempre deixar ver um pouco da sua sensibilidade, para acalmar a inveja e a raiva daqueles que, humildemente, olham as estrelas todos os dias.
Se andássemos para trás dois mil e trezentos anos, até poderíamos chegar a Aristóteles, que acreditava na perspectiva teológica de merecer viver a vida, com o propósito de nos aproximarmos da felicidade, que o filósofo considerava o bem supremo do ser humano.
No entanto e nos dias de hoje, este modelo parece já não funcionar, e são cada vez mais os que vivem numa incrível e triste solidão, atravessada por outros tipos de convivência, e basta olhar em volta para termos a noção total e perfeita de tal facto. O filósofo grego também dizia que o ser humano é um animal dotado de linguagem, que fala, que necessita de comunicar para se relacionar com outros e viver. Ainda poderíamos acrescentar que lê, que existem os livros que criou, e contam das lendas, dos mitos e de estórias. Queiramos ou não, somos seres enredados em História.
Para deixar neste meu escrito um pouco de realidade, e obrigar quem fizer o favor de me ler a olhar um pouco para a pessoa mais comum, atrevo-me a deixar dois aforismos: o primeiro do também filósofo e crítico literário Walter Benjamim, falecido na fronteira entre Espanha e França em 1940, fugindo dos nazis, ‘Não existem documentos de cultura que não sejam também de barbárie’; o segundo da actriz e cantora, Marilyn Monroe, desaparecida há sessenta e dois anos, ‘Os cães nunca me morderam, só os humanos!’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor