CARTA DE BRAGA – “De monstros e aniversários” – por ANTÓNIO OLIVEIRA

 

 

Não vou falar de cacarejos nem de anormais fardados de riscas verdes, por terem ocupado demasiado espaço na comunicação do Eucaliptal e até por já lá irem alguns dias!

Por outro lado, há coisas que quando mais depressa se abandonarem, mais depressa deixam de cheirar que, para isto, basta esperar que dêem cumprimento à licença para prospecção e, talvez exploração de petróleo, lá em baixo em Aljezur! Digo de poluições, pois vivo numa zona onde as maiores explorações, mesmo sem serem licenciadas, são as de incêndios em tempo seco!

Apetece-me mais dizer de literaturas, porque editoras, distribuidoras, livrarias, feiras de livros, supermercados e centros comerciais com salas onde se mascam pipocas para ver imagens, esqueceram ou omitiram os 20 anos do Nobel de Saramago e os 200 anos de uma das mais marcantes novelas do ocidente, Frankenstein, de Mary Shelley.

Estórias como a de Blimunda, Sete Sóis e uma barcarola num convento enorme, ou a da fabricação de um monstro num laboratório de autópsias, feita por um médico atrás da utopia da imortalidade juntando bocados de corpos dissecados, são estórias que venceram as barreiras do tempo.

Embora correndo o risco de tornar a bater no mesmo bombo, estou convencido que evocar os autores do Memorial do Convento e do ‘monstruoso’ Frankenstein, foi posto de lado por as estórias exigirem leitura, uma leitura a pedir aplicação e uso do tempo bem diferentes dos que se usam na modéstia de só se lerem tweets descontraidamente, aliás a grande norma das práticas culturais destes tempos.

Também deve ser por isto que não aparece gente a querer trabalhar, diz Ferraz da Costa, o príncipe dos capatazes, ao afirmar que as empresas têm lugares vagos por faltarem candidatos, não por falta de qualificações, mas porque “as pessoas não querem trabalhar” e por isso “as empresas são quase lares de terceira idade”.

A ver pelas notícias e anúncios de vagas que os jornais vêm apresentando, tal facto não espanta pois, há muitos anos que a OCDE e outros estudos de instituições diversas, alertam para o crescimento da desigualdade num mundo (este, aqui e agora!) onde também se vai esquecendo a importância das estórias, da cultura e da história.

Por outro lado, os pagamentos oferecidos à laia de vencimento, podem levar a casos como este, divulgado há dias por um jornal daqui ao lado – se ofrece para trabajar a cambio de comida y consigue un contrato. Desahuciada y sin recursos, una viguesa logró empleo horas después de pedir auxilio en la Red.

A desigualdade, já aqui referida por vezes, é uma questão nascida do desdém pela decência e dignidade humanas, como salientou o escritor, poeta e músico espanhol Sergi Puertas, autor de Estabulario, uma colecção de contos onde tudo é opressivo e totalitário, como se pode imaginar por esta máxima preocupante de lá retirada – Hemos pasado de ser un mamífero normal, a reducir la vida a esa especie de estabulario, donde cada mañana suena el despertador a primera hora, nos metemos en un bloque de cemento, volvemos a casa a poner la televisión…

 

Decidi fazer a Carta de hoje com este diferente conjunto de situações, porque a afirmação do tal príncipe, mais a omissão dos 20 anos do Nobel de Saramago e dos 200 anos do Frankenstein, a juntar à ‘autosobrevalorização’ (neologismo de minha autoria!) de outros monstrinhos como o trumpa das américas, o quim das coreias e o puto das russas, tudo a acontecer num curto espaço de tempo, me impediu de falar de cacarejos nas televisões ou de pontapés às riscas verdes!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

One comment

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha

    Ó meu caro Atónio, basta de verde `as riscas||||Estamos intoxixados de tanta baixaria!
    Sabes, leio-te com um prazer enorme!!!!! Tu não deitas ” palavras fora”…Tudo tem recheio : memórias, humor e saber….muito saber!!
    Lembras o Saramago….Pois bem, no próximo programa, vou dizer um poema dele, evocandp, tardiamente.o Nobel de há 20 anos!!
    Obrigada por nos trazeres frecura, humor e sabedoria ..
    Abração! CL

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