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CARTA DE BRAGA – “de Camus a Woody Allen” por António Oliveira

Há dias, face aos inúmeros mails e notícias que vão chegando sobre o coronavírus e sobre as medidas tomadas em algumas regiões deste pequeno mundo (é assim que damos conta da sua real dimensão!), lembrei-me da que será a melhor obra de Albert Camus, ‘A Peste’.

Ali se conta que, em meados de Abril de 1940, um médico sai do consultório e tropeça num rato morto, o primeiro sinal do que rapidamente, se transforma numa epidemia que vai isolar a idade argelina de Orão do resto do mundo.

Todas as misérias e grandezas do ser humano estão ali também postas em destaque, numa estória a contar da abnegação e da generosidade, entre os tristes e trágicos episódios daquele tempo e, se há alguma coisa que situações como esta podem ensinar é que, este tão pequeno mundo está muito longe de ser justo.

Aliás, Viriato Soromenho Marques salienta-o no ‘DN’ de 8 de Fevereiro ‘O coronavírus, assim como outros agentes pandémicos, passados e futuros, resultam de processos de contágio entre humanos e animais selvagens, já resultado da destruição avassaladora dos seus habitats naturais. A promiscuidade tem sempre um preço doloroso. Tanto para a vítima como para o agressor’.

Mas isto é apenas mais um ‘pequeno’ desafio que se nos propõe porque, afirmou-o também em Fevereiro, aquele símbolo humano em que se transformou ‘Pepe’ Mujica, ‘Viramos as costas à dor alheia porque, se a vemos também nos dói e, por isso, precisamos de medidas globais para preservar a vida, que é um milagre na imensidão de um universo inerte. Este é o real desafio dos direitos humanos para as novas gerações e instituições’.

Um aviso no tempo certo pois, de acordo com o americano National Institute of Environmental Health Sciences (NIEHS), já morre mais gente cada ano pela poluição do ar, que pela malária, tuberculose e sida juntas, afirma a ex-directora, Linda Birnbaum, acrescentando «Vivemos numa sopa, uma sopa química e, às vezes é difícil assinalar um único agente, como causa definitiva deste problema’.

– Uma parte importante do seu trabalho, foi o estudo desses e outros riscos ambientais. Viu esse trabalho à frente do Instituto comprometido com a eleição de Donald Trump?

– Cada ano, desde que é presidente, propôs cortes tremendos no orçamento e só não foram adiante pela oposição do Congresso. Mas há expressões que não devíamos usar como «com base em evidências» ou «anticoncepção» e fomos instados a deixar de falar em «alteração climática», tudo porque a linguagem empregada não podia ser vista como provocação».

Ao mesmo tempo e ‘como um mal nunca vem só’, a OIT, a Organização Internacional do Trabalho, divulgou no passado dia 21 de Janeiro ‘Em 2019, havia 500 milhões de pessoas no mundo a trabalhar sem salário, 188 milhões de pessoas desempregadas, 165 milhões com emprego mal remunerado e 120 milhões que não têm acesso ao mercado de trabalho.

Por tudo isso, a OIT defende a necessidade de inovações nos sistemas, de ‘uma reflexão crítica a nível mundial, sobre a idoneidade dos métodos e dos conceitos no mercado de trabalho’, pois as perspectivas sociais para 2020 estão longe de ser optimistas.

Mais uma vez, o mau uso das novas tecnologias a provocar danos enormes pois, de acordo com o romancista e académico francês Erik Orsenna, ‘Há líderes, nos EUA, no Brasil e no Reino Unido, que encarnam os três pilares da catástrofe. Com as redes sociais vota-se para saber se uma coisa é verdade ou mentira. É a caricatura da democracia’.

E hoje, como tudo está codificado, por só assim se poder explicar e vender (vejam-se os códigos de barras), pouco mais resta do que deixarmo-nos arrastar pela emoção e pela adrenalina do inesperado pois, se as coisas não forem bem feitas, ‘a única diferença entre uma comédia e um drama, está no lugar onde pusermos o ponto final’ garante Woody Allen.

Que tempos!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 
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