CARTA DE BRAGA – “das diferentes jaulas” por António Oliveira

Aqui há uns dias fui surpreendido por um título num diário nacional Combate entre Musk e Zuckerberg será em Itália, diz dono da Tesla para ler a seguir, O ansiado combate de jaula frente a Zuckerberg será em Itália, já que as autoridades locais confirmaram as negociações para a realização de um grande evento de caridade. Musk espera que tal ‘combate’ ocorra no antigo Coliseu, um Património Mundial da UNESCO, tendo publicado sobre a ideia no final de Junho.

O homem mais rico do mundo tem uma placa de titânio a segurar duas vértebras juntas, mas não vai ser um problema, garantiu ele então, e Zuckerberg, é um entusiasta das artes marciais, e até que participou em competições de jiu-jitsu. Os dois magnatas da tecnologia, que ocasionalmente tinham desavenças à distância, tornaram-se concorrentes directos, depois de a Meta de Zuckerberg ter lançado a plataforma Threads, semelhante ao Twitter, no início de Julho.

Esta notícia mais os comentários polifacéticos e ademanes que a rodeiam mostram, uma vez mais, como o ‘cabedal’ se serve da digitalização para explorar, desapiedadamente, o impulso natural do ser humano para o jogo e, pense-se nas redes sociais, e de como elas se servem de elementos lúdicos, para aliciar os usuários a praticar jogos, alguns mesmo com consequências funestas. Aliás já referia tal tema, o filósofo e crítico literário Walter Benjamim, ‘O capitalismo presumivelmente é o primeiro caso de culto não expiatório, mas que culpabiliza’, por o crédito ser puramente imaterial, aliás e só, a verdadeira essência das coisas esperadas.

Outra razão para tal culto, é a da meritocracia avaliada permanentemente por likes e emojis que impõe e é o reflexo de uma sociedade extremamente competitiva, em que cada um é ‘medido’ pelos triunfos pessoais, por também ser do pensamento comum, que o êxito só compensa os que chegam ‘lá acima’, porque se fosse ao contrário nunca lá chegariam. Na verdade, reflecte apenas a mercantilização da vida social quando, paradoxalmente, procura afastar a economia da política, da ética e do social.

Um afastamento também referido por Daniel Innerarity, catedrático de filosofia política, ‘Ao atenuarem-se os perfis ideológicos, diminuem-se as legitimações e as desculpas que proporcionavam, pois, a atenção fica dirigida aos casos pessoais de quem se dedica à política, degradando a conversação democrática; quando se exige transparência, convém não esquecer que os poderosos têm instrumentos para fazer circular apenas tal informação, juntamente com as imagens, para produzir reacções emotivas’.

E assim, ficamos verdadeiramente mergulhados em tal culto, que o poeta modernista Ezra Pound, talvez tenha caracterizado, já em meados do século passado, com estes versos extremamente simples ‘E os dias não estão cheios o suficiente / E as noites não estão cheias o suficiente / E a vida passa como um rato passa pelo campo / Sem agitar a erva’.

O muito conhecido filósofo sul-coreano, Byung-Chul Han, professor da Universidade das Artes em Berlim, completa bem o poeta Ezra Pound, ‘Só um regime repressivo provoca resistência; pelo contrário, o regime liberal que não oprime a liberdade, antes a explora, por não enfrentar resistência, por não ser opressor, mas sedutor. O domínio só se completa, no momento em que se apresenta como a liberdade’. Onde é que já teríamos ‘visto’ estas coisas?

Dizia Mark Twain, ser mais fácil enganar a gente, do que convencê-la de ter sido enganada, até porque, ‘Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado’, garantiu Albert Camus um dia.

Talvez, porque no tempo de Camus, ainda se podia pensar que a digitalização viria para substituir ou ajudar no trabalho!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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