Recebeu o Prémio Nobel em 1957, mas atrás deixa obras como ‘O estrangeiro’, ‘O mito de Sísifo’ ou ‘A peste’, onde reflecte o seu pensamento sobre os acontecimentos no mundo inteiro, as suas angústias e a constante presença da morte, escrevendo sempre contra as ideologias que, na sua opinião, falseavam a natureza humana.
Mas há um episódio que não pode passar despercebido, uns dias depois de receber o Nobel, durante um encontro com estudantes; um deles censurou-o por não ter tomado nenhum atitude a favor da independência da Argélia de onde era natural. A resposta de Camus foi ‘Neste momento lançam-se bombas sobre os eléctricos de Argel. A minha mãe pode estar num deles. Se isto é a justiça, prefiro a minha mãe’.
Quem atirava as bombas era a Frente de Libertação Nacional, que lutava pela independência da Argélia. Camus manifestava assim, a sua oposição a que se atacassem civis, como a FLN estava a fazer, reposta que levantou então uma enorme polémica.
E, talvez a propósito, escreve no ‘Publico.es’, o arqueólogo e professor González-Ruibal, referindo o que hoje se passa, ‘O século XX regressa nos lombos dos tanques’, por os carros de combate serem um símbolo do século passado e ‘da modernidade pesada e industrial que o sociólogo Zygmunt Bauman, opunha à modernidade líquida dos nossos dias’, mas que são também a forma actual de entender as relações políticas e a guerra, creio que não ainda de forma generalizada, aliás um autêntico anacronismo.
Palavras de algum modo confirmadas pelo padre e filósofo Anselmo Borges, numa das suas crónicas do ‘DN’ de Fevereiro último, ‘Mas precisamente o sofrimento, que é sempre o meu sofrimento, o teu sofrimento, como a morte é sempre a minha morte, a tua morte, é que nos individualiza, dando-nos a consciência de sermos únicos, de tal modo que nenhum ser humano pode ser dissolvido ou subsumido numa totalidade anónima, seja ela a espécie, a história, uma classe, o Estado, a evolução…’
Mas também não podemos esquecer como nos regimes no poder na Rússia e na China, as relações com os governos estão longe de se caracterizar pela discussão e pelo debate. Na Rússia, Putin serve-se do poder dos serviços secretos e, na China, Xi Jinping usa os êxitos económicos de um sistema dito socialista, controlado pelos oitenta milhões de filiados no partido, atentos –veneradores e obrigados– ao leader máximo.
As estórias que os leaders contam, são fundamentais para manterem a sua posição, com o cerimonial aparatoso que os ecrãs já nos habituaram a ver, por também não haver contraditório, como agora com a ‘operação especial’ na Ucrânia.
Aliás Hannah Arendt, já no princípio dos anos sessenta, escrevia contra todas as narrativas que se baseassem na invenção de um passado à medida dos desejos de alguém, citando uma das frases preferidas de Hitler ‘A grande maioria das pessoas acredita mais facilmente numa grande mentira do que numa pequena. Quanto maior a mentira, maior a chance de todos acreditarem nela’.
Talvez por isso, estes tempos e estes acontecimentos estejam a confirmar como ‘os déspotas terão porventura construções mentais diferentes das nossas, e como a falta de mecanismos de equilíbrio e controlo, só eventualmente os fará afastar da realidade, e com resultados trágicos’, Marc Murtra, ‘La Vanguardia’, 13.04.
Depois, há toda uma atitude e todo um sentimento, culturais, a identificar a cultura europeia, como foi definida em ‘A ideia de Europa’, por uma das mais importantes mentes das últimas dezenas de anos, o pensador e romancista George Steiner, ‘A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa, frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos Cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ideia de Europa’.
Talvez seja isso, pouco mais do que isso, que a Europa tem para dar, escreve o filósofo Santiago Alba Rico, no ‘Publico.es’ de 11 de Março, ‘A UE não tem petróleo nem gás, nem metais raros; o único que poderia oferecer ao mundo (o que tem de ganhar se não quer que as diversas formas de putinismo o devorem) é um modelo diferente de gestão, realmente democrático e fundamentado nos Direitos Humanos. Se não se entende que essa é a batalha europeia, a das instituições e da esquerda, a vitória de Putin, independentemente do que ocorrer na Ucrânia, está já assegurada’.
E a encerrar um período de mais de setenta anos de paz, depois das terríveis guerras do século passado, encerra-se também a contribuição cultural, aquela igualmente forjada nos cafés da Europa, de que as últimas gerações tanto se orgulharam.
António M. Oliveira
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