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CARTA DE BRAGA – “da farinha e da palavra” por António Oliveira

«A democracia é como a farinha, alimenta até o mais tonto, mas não deixa de ser farinha. É um sistema político que dá guarida a políticos de qualquer qualidade e ideologia. Há ladrões e honestos, competentes e ignorantes, moderados e valentões, broncos e inteligentes, duros e moles, mas a democracia é mesmo como a farinha, engorda mas não mata e, apesar de tanto idiota, continua a ser muito fina».

Esta comparação, da autoria do jornalista e escritor espanhol Manuel Vicent, foi publicada no passado mês de Janeiro e pode aplicar-se ‘urbi et orbe’, tanto lá como noutro lugar qualquer deste nosso pequeno mundo, apesar de muitos se esquecerem das suas verdadeiras dimensões, as do mundo e as deles!

Não há muito tempo, em Dezembro último, Pere Portabella, que foi realizador de cinema e produtor de outros realizadores como Carlos Saura, Luis Buñuel e Marco Ferreri, afirmou convictamente ‘há uma falta de exemplaridade na política global que a desprestigia’, chamando a atenção para a ausência de narrativa nas comunicações por twitter.

E, lamenta Pere Portabella que assim, se decida o futuro ‘por se tratar apenas de denegrir a noção de «povo» democrático como intrusão de Estado, que iria impedir o avanço do capitalismo como fonte de riqueza e bem-estar’.

Na verdade, é outra maneira de dizer que não se quer mudar uma situação em que ‘as interacções humanas são mediadas pelas regras frágeis do mercado, no qual as vidas humanas são agora vistas, acima de tudo, como instrumentos para o lucro’ garante Martha Nussbaum, a premiada filósofa americana, professora na Universidade de Chicago.

Aliás e, como disse José Mário Branco, já por aqui citado, ‘O capitalismo fez essa coisa inteligentíssima – controlar as grandes massas por dentro da cabeça em vez de ser com algemas e com grilhões’.

E ele (capitalismo) sabe mesmo fazer isso muito bem, basta ir desmontando a memória das coisas porque, deixou escrito Eduardo Galeano, ‘A memória do poder não recorda: abençoa. Justifica a perpetuação do privilégio por direito de legado, outorga imunidade aos crimes de quem manda e oferece desculpas ao discurso, que mente com admirável sinceridade!

Mas a memória preserva também a essência da individualidade porque, ‘O que se encontra guardado e susceptível de recordação, nem imposições e abusos políticos, o detergente do conformismo social, o podem roubar’ garante Steiner em ‘Presenças Reais’ e um poema dito na solidão, ou uma peça de teatro representada no íntimo, são os guardiães daquilo que resiste e que deve permanecer inviolado.

Na realidade, ‘o grande armazém do «ver» é feito de palavras, porque as palavras são a minha memória, a minha narrativa e o pouco que sei são palavras, cadeias de acontecimentos que regressam na sua sequência, me refazem o mundo e mo narram de novo’, afirma a propósito o médico e neurocientista Lamberto Mafei, ex-director do Laboratório da especialidade em Pisa.

Apetece dizer como disse Manuel Vicent da farinha que, apesar de tanto idiota, ainda é pela palavra que se pode distinguir um homem!

E amanhã é o “Dia Mundial do LIVRO”, onde as palavras são narrativas e nos asseguram que o pouco que sabemos são só palavras.

É bom recordá-lo pois, escreveu o poeta cubano Angel Buesa, catedrático e argumentista, partido já  em 1982.

Con la simple palabra de hablar todos los días,

que es tan noble que nunca llegará a ser vulgar,

voy diciendo estas cosas que casi no son mías,

así como las playas casi no son mar’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 
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