CARTA DE BRAGA – “das carvalhas e da felicidade” por António Oliveira

 

Há aqui, não muito longe da minha casa, uma estrada onde ainda se vêem carvalhas e, lá mais atrás, alguns carvalhos, abrindo ramos e ramas ao sol, poderosos neles, mais modestos os delas, mas a mostrar a resistência a muitos anos de abandono, favorecidos por algum e raro milagre de um improvável esquecimento, perante o ataque devastador dos poderosos mandantes dos eucaliptais, que estão a dar cabo dos espaços verdes deste país. 

São árvores sábias, carvalhas e carvalhos, a crescer em terrenos que agarram para os não deixarem fugir, capazes de resistir tanto a securas como intempéries, para largarem as bolotas, que já foram fundamentais na alimentação dos povos ibéricos, para a farinha com que os lusitanos reduziam a falta de cereais no inverno e, assim continuado durante séculos, com um aproveitamento fundamental, para colmatar a aterradora falta de cereais, durante a primeira Guerra Mundial. 

Depois passou a ser considerada um alimento para pobres, quando o Alentejo foi transformado num celeiro para o trigo, por ser planta de crescimento rápido, com a bolota também destinada para dar de comer aos animais; mas olho aquelas árvores com carinho, passo devagar sabendo que a maioria não quer saber delas, modestas por estarem tão longe das promessas do ‘petróleo verde’, com que nos enganaram não há muito tempo.

E lembro-me, se a memória não me atraiçoa, de numa povoação do nordeste transmontano, Veiga de Lila, no concelho de Valpaços, a população se ter juntado para arrancar uma plantação nova de cerca de 200 hectares, numa quinta próxima, por o eucalipto lhes ir roubar a água tão necessária para as culturas naquelas terras. E por também lhes ir roubar as jornas ganhas no trabalho dos olivais. Nem a GNR os conseguiu impedir de o fazer e, hoje afirmam, não há por ali, incêndios, há mais de 30 anos. 

Esse foi quase o mesmo tempo, como refere Viriato Soromenho Marques, ‘Em que globalização e neoliberalismo foram sinónimos, em que os Estados se limitaram a aplanar o caminho para a eficiência dos mercados, consentindo em todos os abusos, existia uma promessa de felicidade universal’.

E a gente passa em qualquer estrada deste ‘Eucaliptal’ e fica abismado com a monotonia da paisagem, só troncos altos e estreitos a pedirem caminho para as fábricas de poluição, de mau cheiro, de rolos e resmas de papel, ainda pela ausência de pássaros, a demonstrar como este mundo se virou contra a natureza, quando cada vez mais precisamos dela, de a poder ver apaziguada e livre de um sistema devastador, que nos vai destruindo a esperança, quando tanto também precisamos dela.

Porque, se pensarmos e virmos bem as coisas, nós humanos, também somos natureza, por sermos muito mais do que apenas seres vivos e, assim, quem quereria viver num país sem árvores, só eucaliptos, sem amparo nem refúgio, desprotegidos, sem cultura e sem futuro, por nos terem arrancado uma grande parte de nós mesmos?

Recordo, a propósito, o bem conhecido cientista e divulgador naturalista britânico David Attenborough, ‘Estamos diante da possibilidade real de uma sexta extinção em massa, causada por ações humanas’, escreveu há já quase dois anos e, ‘Dentro da vida útil de alguém nascido hoje, prevê-se que a nossa espécie provocará nada menos que o colapso do mundo vivente, precisamente no que se baseia a nossa civilização’. 

Mas e, por outro lado, como assinala o escritor e pedagogo José Antonio Marina, ‘Para educar um cidadão, é necessária a colaboração de toda a sociedade’, isto é tarefa de todos, família, escola, meios de comunicação e sociedade, apesar de ‘alguns membros estarem noutra, tocando tambor’, porque, como pediu, há alguns dias, o escritor Jordi Soler, ‘Há que inventar um lugar em que nos possamos refugiar cada dia, cinco minutos ou umas horas, um sítio a que sempre regressemos, num deslizamento onde seja possível abstrair do ruído quotidiano e do abismo insondável do ecrã’.

Também escreveu o mesmo, mas dito de outra maneira, o Prémio Nobel Herman Hesse, ‘Quando aprendermos a escutar as árvores, sentir-nos-emos em casa. Isso é a felicidade’.

Feliz Natal!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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