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CARTA DE BRAGA – “da leitura e do passado” por António Oliveira

De nada serve recordar que, por aqui, nunca se leu muito. Que durante gerações e gerações este foi um país maioritariamente analfabeto. Que a isso chamem correcção política, não é mais do que um consenso social, que até pode incomodar alguns, por prescindir deles, por pôr em crise um pensamento em que já não estão em idade de inventar truques novos, ou por lhes recortar nos privilégios, em que estão comodamente apoltronados’.

Este pensamento não me pertence, é de Gómez Vaquero, professor universitário de Jornalismo e Literatura na Complutense, mas tanto se pode aplicar lá como do lado de cá, por serem tempos de exigência a todos e a cada um porque, além do atraso endémico, com a crise originada pela pandemia, seguida pela crise financeira e agora esta das guerras, ‘urge delinear uma acção capaz de ligar os objetivos de desenvolvimento sustentável e de recuperação do atraso. A reforma que se nos exige é assim educativa, profissional, científica, cultural e artística. Não falamos de medidas avulsas ou de uma visão centrada no consumismo e no curto prazo. A qualidade na aprendizagem, a exigência e o rigor são mais importantes do que nunca’, escreve Guilherme d’Oliveira Martins no ‘Diário de Notícias’.

Um tempo que cada vez mais nos exige também –até pelas guerras– a ‘interpretação do outro’, não expulsar ou matá-lo, porque entender o mundo é sempre interpretá-lo e vivê-lo contextualmente, numa dimensão aberta sempre ao outro e para o outro, ‘o que nos interroga e apela em termos de caridade, de cuidado, de escutarmos o que necessita, do reconhecimento da sua diferença, de pensar no seu futuro, apenas o futuro do outro’, afirma na sua última entrevista, em meados de Fevereiro, o filósofo italiano Gianni Vattimo, referência obrigatória para se poder entender o pensamento do nosso tempo.

Por outro lado, bem à nossa volta, o cidadão ‘normal’ obediente, de máscara, confinado, limpo e temeroso, segue os ecrãs durante as vinte e quatro horas do dia, conversa ou tecla com um seu ‘amigo’ também ‘normal’, que lhe dita e comunica a relação completa dos seus direitos, quase nunca a dos seus deveres, mas mesmo nunca, as das relações devidas com o outro, a não ser os dos ‘cromos’ que os media ‘fornecem’, para conversar e discutirmos, muito mais se forem ‘distintos’.

E, depois, ainda temos de pensar no que dizem os opinadeiros de tudo, sábios também em todas as coisas, com assento garantido em todos os lugares que lhes permitam exercer o seu ‘múnus’, sem controlo e normalmente sem contraditório, para aumentar a tensão já existente entre países, culturas e mesmo entre os vários sectores das comunidades, devido a uma orientação política e estratégica, a de olhar mais para os interesses e ambições de quem lhes governa o final do mês.

Mas, neste mesmo período de tempo, o das crises pandémica, financeira, outras mais e agora a da guerra cá pelas ‘europas’ sempre tão longe de tudo , também nos fomos dando conta, de como o património cultural de um povo é a sua própria vida, tudo o que nos apela aos lugares de referência, muitos deles abandonados há anos ou mesmo há gerações, como forma de nos libertarmos de todo o fatalismo que estas coisas sempre trazem com elas, para recuperarmos a força que fez movimentar e levou à saída dos nossos pais e, muitas vezes, de toda a família.

E os milhares de ucranianos que fogem das caves das casas destruídas, para conseguirem um pouco de paz para eles e para as crianças que trazem a rojo, todos exaustos e exauridos, servem bem para nos mostrar como o património cultural é predicado fundamental da união e da pertença, porque os trapos nas maletas com rodinhas e sacos de plástico, agora transformados em símbolos do abandono e da tristeza, não chegam para quase nada.

Talvez seja, ou melhor, poderá ser estas as imagens e este o conhecimento que nos faltava, para podermos definir a nossa identidade. Para Rainer Maria Rilke, o segredo a chave está na infância, enquanto para Camus é a linguagem, aquela com que aprendemos a olhar e a interpretar o mundo, afinal o que está sempre nesse refúgio das nossas origens –infância, lugar de onde e idioma– e não aquelas outras que vamos agarrando, ou nos vão impondo, nos caminhos e voltas da vida.

Também Viriato Soromenho Marques, adianta uma resposta diversa a estas questões, ao afirmar ‘A resposta familiar ajuda a colocar o assento tónico no lugar decisivo, o de uma resposta global articulada, que prima pela ausência. Se continuarmos nesta deriva, onde a velocidade mascara a falta de rumo, agravando o risco de colapso ambiental, estaremos a comprometer não só as gerações futuras, mas também a perder o legado das muitas gerações passadas’.

E há muitas ucrânias e mariupols para serem contadas, nas últimas dezenas de anos dos anais das nossas histórias comuns, (e não queríamos saber por estarem longe ou não termos nada com isso!) muitas responsabilidades a atribuir a gente para quem tudo isto é quase indiferente, desde que as suas contabilidades não ao se conheçam, enquanto os sinais exteriores de riqueza enchem de glamour canais de televisão e as páginas das revistas para gente fina.

Por tudo isto, elas, as gerações futuras, merecem-nos uma profunda e sentida resposta, familiar, seja qual for o local deste planeta, porque, como escreveu um dia José Saramago, ‘Devemos recuperar, manter e transmitir a memória histórica, porque se começa com o esquecimento e se termina na indiferença’, pois o que vemos agora, pertence à memória comum da humanidade e não devemos abdicar dela.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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