CARTA DE BRAGA – “mariposas e democracia” por António Oliveira

Achei um nome delicioso para aquele leitor de textos só em suporte virtual ou electrónico. Diz o comentador que tal leitor – ‘o leitor mariposa’ – se comporta em geral, como o cavalo numa partida de xadrez: salta de site em site, pondo de parte continuadamente, os textos que tinha começado a ler, situação que não é nada boa para habituar a práticas sadias de leitura.

Adiantava o mesmo comentador que tal prática estava a transformar os alfabeto-leitores em analfabetos funcionais ou neo-analfabetos, consequência de ter iniciado a leitura num site para, em resposta ao apelativo ou à provocação de outro site, começar nova leitura nesse, sem acabar a do outro e assim sucessivamente.

E termina o afirmando que tal leitura não prejudica, antes acrescenta e favorece a ignorância.

Vem isto a propósito de um tal weintraub, dito ministro da Educação de um tal bolsonaro, que escreveu ‘imprecionante’ depois de ter escrito ‘descente’ em vez de ‘decente’ e, numa carta enviada ao seu colega da Economia, queixava-se da ‘suspenção’ em vez de ‘suspensão’ que qualquer corrector indicaria. Será que não passará também de um ‘leitor mariposa’?

Estas ‘anomalias’ foram retiradas do “DN” do dia 9 de Janeiro último e não são abonatórias do nível cultural do tal weintraub, aliás ministro da educação (?) lá do pedaço!

E não custa deixar aqui a frase que um velho amigo já desaparecido, usava sempre que a ocasião o permitia ‘um democrata tem de ser educado, tanto no tratamento com as pessoas, como em cultura, por ela também impor tal tratamento! E nem é preciso ser doutor’.

Na realidade, somos criaturas de sentimentos, de sentido e de significados. Vivemos num mundo de entendimentos e das interpretações que fazemos dele, até dependemos da visão e de uma leitura a condizer, mas tanto uma como outra estão hoje excessivamente mediatizadas.

Há uma tentativa descarada e generalizada para formatar toda a gente, para a tornar ‘sossegada isolada e mansa’ enchendo-a até aos gorgomilos com futebóis, séries, novelas e casos sociais, sem capacidade de reacção a não ser se comandada, sabe-se lá por quem!

E, adianta David le Breton, antropólogo e sociólogo em Estrasburgo, ‘as gerações mais jovens não estão orientadas, não sabem onde vão, não têm a certeza interior do valor da vida e de que têm um lugar no mundo e procuram-no fora. O consumismo tenta colmatar essa brecha dando-lhes pontos de referência. Mas somos já indivíduos isolados, à procura de reconhecimento’.

E lembrei-me do aforismo do meu velho amigo, por ter lido há dias e também no “DN”, uma afirmação que o pode completar, da autoria de Yuval Noah Harari, autor de ‘Homo Deus’ e o cientista que mais estudou a evolução do ser humano frente aos domínios da técnica, ‘A democracia acredita na autoridade do eleitor individual. O capitalismo acredita na do consumidor individual’.

Ámen!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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