CARTA DE BRAGA – “onde se conta de um cego, de um canteiro e de um garoto” por António Oliveira
clara castilho
A singeleza das coisas, principalmente das que ouvimos das pessoas, dos escritores ou dos poetas, de todos os que fazem da vida o alfobre ilimitado do seu trabalho, são a melhor maneira de se poder avaliar a riqueza de uma qualquer comunidade, por serem partilhadas pela oralidade ou pelas páginas de um livro, o espaço público habitado por quem se interessa pelas coisas simples que a vida, a diário, lhe fornece.
Hoje deu-me para contar algumas estórias, daquelas que se vão lendo ou ouvindo e sempre guardando, para meditar, voltar a contar, recorrer a alguma, se necessário, para estas Cartas mas, acima de tudo, para poder salientar o valor e a importância das palavras, desde que se aprende a juntar letras porque, sem se ler, também nunca se sabe o que fazer com elas.
Com as palavras aprendemos a deslumbrar-nos com as maravilhas dos contos infantis, a transferir essa magia para as estórias da adolescência e a usar a imaginação para as recontar ou lhes dar outra forma nas escapadas de divertimento ou em partilhas diversas, a parte mais importante da nossa vida em comunidade ou na sociedade, pois as estórias simples e despretensiosas, foram e ainda continuam a ser as que mais marcam e sensibilizam.
E é a originalidade e a diversidade que encontrei em algumas dessas estórias, o tema desta Carta.
A primeira, contada por Oliver Sacks, neurologista e escritor, nascido na Grã Bretanha, mas que desenvolveu toda a carreira nos states, é a estória de um cego a quem um milagre da medicina devolveu a vista; e, conta Sacks, o homem teve de passar uma larga e obrigatória aprendizagem, até o cérebro conseguir apreender as formas de todas as coisas, desde os monstruosos edifícios, que sempre o assustavam pelo tamanho, aos minúsculos insectos que o incomodavam a todo o momento.
Iam falando-lhe de tudo, mas nunca ouviu qualquer explicação para os vagabundos, para as pessoas a dormir debaixo de uma escada ou de uma ponte, para as barracas de mal viver, para os mendigos e para as armas. Disseram-lhe que tudo já existia antes, mas nunca ninguém lhe educou os olhos para a difícil tarefa de –olhar e ver– o mundo daquela, ou outra maneira idêntica.
Ver e olhar em volta é uma arte, quando se tenta entrar no ambiente que se contempla, principalmente se implica a intervenção do homem. Foi sempre motivo de enorme preocupação e, por isso mesmo, um amigo contou-me, certa vez, uma estória interessantíssima, lida algures num escrito bem antigo, envolvendo o trabalho dos canteiros, aqueles artistas que tentam descobrir a trazer cá para fora, o ‘tudo’ que as pedras têm dentro.
E dizia esta segunda estória, que um passante curioso, frente às obras de um templo em construção –não se lembrava em que século!– começou a perguntar aos canteiros, o que cada um estava a fazer. O primeiro respondeu simplesmente –Estou a ganhar a minha jorna!–; o segundo a quem perguntou foi mais explícito –Estou a desbastar e cinzelar este pedregulho!-; mas o terceiro a quem fez a mesma pergunta, tanto o espantou como o deixou a pensar, –Estou a construir uma catedral!–
Entre as pequenas lascas que vão saindo de cada pedra devido ao sábio uso do maço e do escopro, para dali brotarem capitéis, cimeiras de colunatas, anjos com asas ou caras de santo, vão saindo também o brio, o interesse e o futuro que cada um põe na obra, até para aliviar as privações que de quem deixou atrás.
Aliás Zigmunt Bauman, afirma ‘O trabalho é só um meio, antes de ser um a valor por si mesmo, uma forma de vida ou uma vocação; apenas trabalhar no que seja e onde seja, para não depender de ninguém. A incerteza é o habitat natural da vida humana, ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor das atividades humanas’, mas vencer a grandeza dessa incerteza, também engrandece quem o tenta.
A última destas estórias tirei-a da recensão ao ‘Libro de los abraços’, do já abalado escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, autor de umas dezenas de livros traduzidos também em muitas línguas; Galeano conta de um encontro com uma criança, junto das ruínas onde tinha ido com turistas, criança que se aproximou a pedir-lhe uma lapiseira; como não lha podia dar, por lhe fazer falta naquele momento, propôs desenhar-lhe um veadito na mão.
E, num instante, se viu rodeado de crianças a estender-lhe as mãos para também lhes desenhar também animaizitos, desde o condor à serpente, mesmo até um fantasma ou um dragão; então, no meio daquele alvoroço, aparece um garotito, que ainda nem chegava a um metro de altura, para lhe mostrar um relógio no punho, desenhado com tinta preta.
“–Mandou-mo um tio, que vive em Lima– disse o miúdo
–E trabalha bem?– perguntou-lhe
–Atrasa-se um pouco– admitiu”
Não há estória com singeleza tão encantadora!
E, a propósito, li há já alguns dias, uma entrevista feita a um catedrático de Psiquiatria, a alvitrar sobre sonhos e vivências; guardei a frase com que terminava a entrevista, por a crer inteiramente adaptada ao que escrevi, ‘Nós, seres humanos, não vivemos a realidade, só a pensamos’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor