CARTA DE BRAGA – “de poemas e aranhas” por António Oliveira

Que será, será…

Entre poemas, vidas, cinemas e a preguiça depois… 

Começava assim Ana Luísa Amaral, em ‘A vida breve’, para mim o apontamento mais importante do programa da Antena 2, ‘A ronda da noite’, da autoria de Luís Caetano, numa sexta feira destas, já passava das onze da noite.

E continuava a premiada e já abalada poeta, dizendo que havia encontrado aquelas duas frases, num dos mais belos cemitérios da Nova Inglaterra, até por terem sido lidos na lápide da campa de um casal, entre as milhares que ali estão, das ricamente instaladas, às que ocupam só um brevíssimo quadrado em pedra.

O tempo remove todos os desgostos

com vida, com a memória e com o amor

Mas Ana Luísa Amaral, acrescenta mais um outro, este da autoria de Thomas Gray (séc. XVIII) que não é uma elegia, mas sim uma advertência, por encimar outra lápide a honrar a memória de uma amiga, já esquecida pela lassidão do tempo, e chamar a atenção para as duas frases com que comecei esta Carta.

Os caminhos da glória só levam ao túmulo

Ouço ‘A ronda da noite’ como a vou ouvindo há muitos anos, mas mais atentamente agora, para não ser massacrado pelas tevês onde, nas palavras do professor António Carlos Cortez, numa das suas crónicas no DN, ‘A nossa democracia, como todas as outras, na verdade, tem pés de barro porque está dependente, em excesso, da TV e das redes sociais, lugares onde viceja a mediocridade total. Se André Ventura e a sua trupe vierem a transformar São Bento num arraial de impropérios, ofensas, dislates, agradeça-se à televisão o péssimo serviço prestado nos últimos anos’.

E na Ronda, como no resto da programação da Antena 2, tenho a palavra calma, ponderada, sensata e prudente das gentes que, culturalmente, vão fazendo este país, que não precisam de tais campanhas, por elas se fundamentarem grandemente na iliteracia e na ignorância que os ecrãs proporcionam e, aquele professor acrescenta mais, ‘É o que a nossa democracia dá. Este facto explicará imensa coisa da nossa pobre realidade social, política e cultural’.

E se as olhar, as TV´s, sei que tenho as vedetas do directo, a futebolização dos partidos, comentadores e comentários, mesmo na política; e vejo como tudo tem preço, tudo se vende, se compra ou se troca; e também ouço como se sabe estar o poder em quem manda nos que mandam nos ecrãs, que os outros até respeitam e acatam, tenham ou não tenham toga.

E, numa réstia de sol, a entrar-me pela janela, coisa que já não via há dias, por causa da chuva que teima também em nos che(a)gar, olho para as árvores do outro lado da rua, estranhamente calmas por também não haver vento e vejo-a, mais uma vez, pendurada imóvel da parede do canto do lado esquerdo da janela, se calhar a olhar para mim deste do vidro 

Já a tinha procurado, a ver se tinha ninho nalgum lado e nunca vi alguma coisa que lhe marcasse o rastro. Dizem que dá sorte e acontece mesmo, eu não querer acabar com aquele pouco mais de um centímetro de vida, pois entre ‘poemas, vidas, escritas e preguiça depois…’, e de igual modo, também vou fazendo a minha vida.

E oxalá tenhamos sorte, e não vença a iliteracia e a ignorância!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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