Porque é que sendo a nossa língua tão rica e tão versátil, deixando-nos exprimir como nenhuma outra, de qualquer modo e feitio, permitindo toda uma comunicação inesgotável, desde a mais simples forma à mais sofisticada retórica, abrangendo uma dinâmica e uma capacidade inigualável de nos entendermos, há tanta gente a introduzir, abusivamente e inesteticamente nos seus textos, em reuniões e conversas, toda uma mistela de anglicismos metidos mais ou menos a martelo, absolutamente desnecessários e, na minha opinião, dando a quem os profere um ar de prosápia, bem longe da erudição que pretende mostrar, hoje apenas aceite pela banalidade da comunicação daqueles que não sabem nada de português, dando erros veniais e outros de bradar aos céus. À parte um ou outro vocábulo, introduzido por necessidade de uma maior precisão que a palavra portuguesa por vezes pode não permitir, qual a razão para estar sempre a inglesar aquilo que pode e deve ser dito com precisão, beleza e elegância por palavras nossas? Penso que uma das maiores riquezas é a nossa fantástica língua. Assim como o piano é o instrumento do pianista, a palavra é o instrumento de quem escreve e de quem fala. Em qualquer dos casos, nem o pianista se pode impor como virtuoso se tocar mal, nem o que escreve se pode fazer acreditar se escrever ou falar mal e com erros. Uma coisa é saber línguas, o que é muito bom e muito importante, sobretudo nos tempos que correm. Outra coisa é a perda de respeito pela nossa língua. Aprendamo-la o melhor possível e, sem margem para dúvidas, disporemos do mais útil, do mais bonito e nobre instrumento de toda a nossa relação humana e social. Não temos o direito de a conspurcar, como hoje se faz a torto e a direito, por ignorância, indigência mental, snobismo ou exibicionismo, remetendo-a a um mero ingrediente de uma caldeirada anglo-portuguesa.