ADÃO CRUZ – A NOSSA LÍNGUA

Não sou nenhum linguista nem coisa que se pareça, mas ouvi na rádio uma senhora professora de língua portuguesa, cujo nome não retive, e com a qual estou totalmente de acordo. Ainda bem que aparece, de vez em quando, alguém que dá gosto ouvir, alguém que tem do valor e da alma de uma língua um conceito correcto, alguém que sabe que uma língua não é apenas uma forma de dizer, ouvir e comunicar, mas uma forma de viver e fazer viver, sentir e fazer sentir, participar e fazer participar.
Torna-se de facto lancinante ver que pretensas novas formas, novos processos e novos métodos de usar e ensinar a língua não são mais do que execuções sumárias da própria língua. A senhora desta entrevista chama a esses processos, idiotas, e tem toda a razão. E diz, segundo me apercebi, que a poesia é a alma da língua, e só entendendo a poesia da língua se consegue entender a sua profundidade, a sua identidade, a sua autenticidade e, consequentemente, reconhecer a sua enorme importância na poesia da vida. Simplesmente, uma boa parte dos responsáveis pelo ensino da língua, quer professores quer membros da tutela, infelizmente não atingem, são demasiado superficiais, sem traquejo e sem activa vivência neuronal e mental que lhes permita ter o sentimento da essencialidade rítmica e harmoniosa da poesia, incapazes de conceberem a poesia da língua como poesia da vida, incapazes de conceberem a poesia como a mais nobre e sublime expressão da realidade e das coisas.

Eu não sei verdadeiramente o que é a poesia e duvido de quem diz que sabe. No meio de tudo o que tenho ouvido, julgo que apenas as Neurociências nos poderão aproximar da verdade. Daí eu aceitar, como conceito mais atraente, que a poesia é um Sentimento, do ponto de vista neurobiológico. Por isso, penso que a poesia não é muito daquilo que para aí se produz e publica, sob a forma de palavras sem nexo e frases labirínticas que ninguém entende. Sei que a poesia nem se mexe no interior de tanta coisa chamada poema e sei que há coisas ditas poemas que mais não são do que os andaimes da obra. Mas que a poesia percorre transversalmente toda a forma de expressão artística, não tenho dúvidas. E a língua é uma arte poética. E que arte! Penso que uma obra de arte, seja um poema, seja um texto em prosa, seja uma pintura ou uma peça musical, só é arte se contiver dentro de si, como essência, a poesia. Que ela existe, eu não tenho dúvidas, como não as tem, com certeza, a Senhora entrevistada. Por isso ela se defende, da forma como defende, das agressões e dos atentados que pretendem levar a cabo na esfera do ensino da língua. Ela sabe que a língua é um mundo de sentimentos, ela sabe e sente que a língua, assim como a vida, está repleta de sentimentos poéticos e artísticos. Ela sabe que as propostas contra as quais se insurge são fenómenos redutores e empobrecedores da língua, podendo levar à destruição insidiosa da sua própria hermenêutica. Por isso a Senhora dá à gramática e à linguística a notável e imprescindível importância que elas têm como matriz, na criatividade e na função social da língua, insubstituível alicerce da estruturação e da formação global do ser humano.

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