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CARTA DE BRAGA – “da ruralidade e da palavra” por António Oliveira

Não há muito tempo, ouvi uma conversa incomum na mesa ao lado daquela onde estava e, aqui a vou tentar resumir da melhor maneira possível, tentando não me afastar, nem um pouco, do que ouvi na altura, até porque, quando cheguei a casa, logo passei aquela prosa toda para o computador.

A pessoa que mais me chamou a atenção pelas suas palavras, era um homem novo, talvez ainda sem ter chegado aos quarenta, mas por falar sempre e também com uma voz pausada e lenta, sem nunca levantar o tom; atentei particularmente no seguinte:

As pessoas vindas da ruralidade, as que cresceram no interior deste país, tendem a ter uma pensamento panteísta, mesmo que não pensem nisso, o que não acontece com as pessoas nascidas na cidade, por tenderem a ser monoteístas.

– Explica lá isso melhor, a ver se agarro a tua ideia! atira-lhe um sujeito do outro lado da mesa.

– Pois tudo terá começado com os desaguisados entre cristãos e mouros nos primeiros anos da nacionalidade, desaguisados entre duas religiões monoteístas, mas com a maioria a quedar-se no interior, onde ainda estavam vivas as usanças e as tradições dos povos que por aqui andaram, os que divinizavam as forças e as energias que sentiam na natureza, de que ainda restam vestígios espirituais e materiais por esse país fora!

– Então, se formos por aí, ainda devemos estar no tempo dos afonsinhos! volta a atirar-lhe o outro em frente.

– Nem sei quem são esses tipos, mas vai dar uma volta pelo interior, fala com as pessoas, só as que não vivem nas cidades, fala com quem trabalha os campos, com quem respeita a mata, não os eucaliptos, vai ver como elas se inclinam perante as antas e as oradas, pergunta-lhes, com carinho e sem troçar, o que significam aquelas coisas para elas e para os seus!

– E então os das cidades?

– Nas cidades, mandam os bancos, as repartições, os supermercados, as prestações e o dinheiro; até os jardins tendem a ficar cada vez mais pequenos; vês as ruas cheias de gente, mas só nos lugares de diversão, vês as malas com rodinhas dos turistas, a gente mais antiga a desaparecer, o resto das ruas quase desertas e a pedir cautela!

Já nem escrevi a resposta do outro, só anotei a atitude quase acanhada que assumiu, como se tivesse sido apanhado em contramão, mas logo os outros três que também ali estavam, começaram a despejar sentenças e o resto da conversa deixou de me interessar.

Sei que nada há tão enganador como a experiência, por ser através dela que se enforma a maioria das nossas decisões, tanto pessoais como sociais, mesmo as éticas e as políticas. Na verdade, acabamos por dar pouca ou nenhuma importância às informações e aos dados recebidos, a propósito de qualquer resolução que se pretenda tomar, até porque o pensamento e a argumentação estão praticamente afastados, devido a uma quase ideologização da vida diária, conseguida e obtida através dos media e das redes sociais, cuja importância se reforça cada dia que passa.

Não devemos esquecer que os ecrãs seja qual por o tamanho criam miragens e ilusões, como também ‘levam a ver o que eles querem, nos roubam a capacidade de pensar, de imaginar e de nos movermos nas margens dos ângulos mortos. E aí é vital a pausa, o silêncio, o escutar a leitura em voz de papel, para que cada estória nos mostre os seus cenários, o seus rostos e a sua compreensão’, de acordo com as palavras de Guillermo Busutil, prémio de Periodismo Cultural em 2021.

É o pensamento dominante, uniformizador e homogeneizador, cuja característica principal, de acordo com Sousa Santos, ‘Consiste em contrastar os princípios com as práticas dos que se lhe opõem; os valores universais são um catálogo que pode ser consultado por todos, mas só as potências hegemónicas decidem o que entra nele’.

Referindo, de algum modo, toda esta situação, Saramago visitou um dia uma escola em Rosário, na Argentina, para entregar uns prémios de literatura juvenil e explicou tudo isto melhor que ninguém, ‘As palavras não são inocentes nem impunes; devemos ter muito cuidado com elas, porque se não as respeitamos, não nos respeitamos a nós mesmos. Há que as pensar e dizer conscientemente. Não podemos deixar que nos saiam da boca, sem antes passarem pela cabeça e se reconheçam’.

Porque será que tanto nos queiram sujeitar à vassalagem ao pensamento único?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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