CARTA DE BRAGA – “bemóis e óleo de fígado de bacalhau” por António Oliveira

Antes de entrar nos temas que me possibilitaram a escrita desta Carta, devo confessar que nem nos aniversários me atrevo a cantar o ‘Parabéns a você’ com medo de poder estragar a festa toda, participando só no bater palmas para não se dar conta da desafinação.

Vem isto a propósito de, paradoxalmente, ter quase em permanência a ‘minha’ música na sintonia da ‘Antena 2’, a dita ‘Rádio Clássica’, não só pela qualidade dos locutores e das coisas que vou ouvindo, como por até não ter ‘anúncios’ a estragarem-me o sossego!

Um dos meus apresentadores preferidos e cujo programa nunca falho, mesmo que seja em gravação, é o jovem maestro Martim Sousa Tavares, autor do semanal ‘Lira de Orfeu

Embora a linguagem e os temas escolhidos pressuponham algum conhecimento iniciático que me está tremendamente distante, continuo a ouvi-lo religiosamente, por sempre ali beber algum conhecimento, mesmo sem saber bem onde o possa aplicar.

Um dia destes, ouvi um programa todo a falar (fazendo-nos ouvir!) da música diatónica, feita apenas com sete notas das teclas brancas do piano e de outra para as teclas pretas!

Deve ser uma coisa espantosa para quem perceba, mas a mim, pareceram ser tocadas com as teclas todas, tal a beleza dos excertos apresentados e, a dada altura, ainda me pediu para tentar ouvir um ‘bemol’ qualquer, mais ou menos ‘daqui a tantos minutos’!

Juro que tentei, mas aquela beleza distraia-me, ou o ‘bemol’ estava tão escondido que não o consegui ‘apanhar’!

Não acredito que ele tenha feito aquele pedido com ele ‘confinado’, pois tal situação já deu origem a males diversos ao longo da história do homem, como se pode aprender numa das últimas crónicas do sociólogo Boaventura Sousa Santos, no blog ‘Outras Palavras’.

Afirma BVS ‘Deus parece estar confinado’ pelo menos a partir do século XVII, quando se impôs a separação absoluta entre ‘a natureza, enquanto ‘res extensa’, e os seres humanos, enquanto ‘res cogitans’. A prova da existência de Deus está na mente humana, porque só ela pode conceber um ser perfeitíssimo, infinito’.

E mais acrescenta que tal confinamento de Deus foi fundamental para que em Seu nome, se tivessem cometido as maiores barbaridades ou, então, ‘o discurso predominante dos humanos sobre Ele, destinou-se a criar e a justificar a Sua ausência’.

E acrescenta BVS, a natureza foi desqualificada para o capitalismo a transformar num recurso disponível, para o colonialismo e patriarcado a alterarem num recurso subjugável e espoliável e para fazer inferiores todos os seres humanos que estivessem mais próximos da natureza, fossem eles negros, indígenas ou mulheres.

Não há dúvida de que o mundo é uma permanente mudança de paradigma, com ou sem os ‘bemóis’ de Martim, mas tudo isto também nos tornou mais conscientes da nossa inegável vulnerabilidade, numa sociedade que só quer confinar a morte, por agora já nem se morrer em casa.

Por outro lado, de acordo com o filósofo esloveno Slavoj Zizek, as medidas de emergência para a crise que estamos a viver já estão bem longe do capitalismo, por também não se preocupar em ouvir os ‘bemóis’ da natureza, nem a sua simplicidade e luminosidade diatónica, apoquentado que está em aproveitar os dislates desta pandemia.

Não posso deixar de ligar isto tudo a quando cresci, já lá vão muitos e longos anos, quando a crise era a carência de fortificantes da alimentação de então, e a minha mãe nos impunha a beberagem de um suplemento bem horroroso, de que só pensar nele me faz ficar pálido, o óleo de fígado de bacalhau, não o das cápsulas, mas o líquido, pestilento e nauseabundo!

E hoje, ao não conseguir atinar com um fugidio ‘bemol’ na ‘Lira de Orfeu’, por não os conseguir distinguir no meio de toda aquela beleza, quase me sinto culpado, e até acredito que tal fortificante teria sido uma invenção da Inquisição, para torturar pecadores, nem que fossem só por pensamento!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

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