UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (554)
José Fernando Magalhães
O COMÉRCIO TRADICIONAL VS CENTROS COMERCIAIS
A PUBLICIDADE
O comércio tradicional, onde encontramos de tudo um pouco, desde o que todos têm ao que só “aquela loja daquele senhor costuma e consegue ter”, o comércio saudoso do antigamente onde nos conheciam e tinham “aquela coisinha” guardada especialmente para nós, aquele comércio do sentimento sedutor e antigo das nossas mães e avós, o comércio de Natal, o comércio doce, do sorriso fácil e simpático, o comércio do “se faz favor” do “faça o obséquio” e do “tenha a bondade” (que ainda o há), o comércio de encantar, de charme, das ruas engalanadas com as iluminações (cada rua com a sua), da noite a chegar muito cedo, do frio a bater na cara enquanto mudamos de loja ou procuramos alguma coisa diferente nas montras, todas viradas para a rua, o comércio das compras de última hora, das bombocas, dos chocolates de leite e do coelhinho e do pai Natal e do comboio e do circo, aquele comércio que conhecemos por resistir ao longo dos anos a ataques, a tentativas de aniquilamento perpetrados das mais variadas formas, está a enfrentar uma ameaça cada vez maior.
A mais recente é a proliferação, desde o tempo da pandemia, das compras “on-line” e entregas por estafetas, permitindo nem chegar a sair de casa para poder comprar quase tudo o que se quiser, condições que os mais preguiçosos aceitam de braços abertos, dada a comodidade de tais serviços.
As mais antigas, mas com uma enorme importância, são os Centros Comerciais que estão em constante expansão, ainda e cada vez mais com famílias inteiras de adeptos, que esquecem as limitações que esses espaços oferecem, com as suas lojas “âncora”, de duas ou três a muitas mais, dependendo do tamanho do “shopping”. Sempre um supermercado, e sempre as mesmas lojas de roupa, ou de perfumaria, ou de sapataria ou de eletrodomésticos. As mesmas marcas e produtos em cada esquina, não importando o Centro onde estejamos. As mesmas pessoas, a maioria das vezes desqualificadas enquanto vendedoras (hoje chamam-se, pomposamente, Assistentes de loja), sendo unicamente mostradoras de artigos que o cliente tem de saber de antemão que quer. A mesma falta de empatia, a mesma falta de paciência, a mesma frieza, a normalização dos padrões de consumo, impulsionadas por directivas e regulamentos que transcendem fronteiras, resultado de uma nova ordem global, de uma era em que tudo é fugaz, passageiro. Somos impulsionados a adquirir sempre mais na expectativa do consumismo exacerbado que conduz as nossas escolhas.
Pior, estamos condicionados por anúncios direccionados, que é uma estratégia de comunicação estruturada com base numa análise prévia do perfil e comportamentos do público-alvo, e aprisionados por chips invisíveis que monitorizam os nossos procedimentos, moldando as nossas vontades e ímpetos, com impacto directo e crescente na nossa saúde mental e física.
A publicidade é uma presença constante nas nossas vidas, aparecendo em diversos meios de comunicação. As televisões, as rádios, os telemóveis, os “mupis”, os panfletos, todos sem excepção nos invadem a todo o momento, com a máxima agressividade das suas sedutoras promoções ou serviços, mensagens e imagens, adaptando as nossas vontades, e acima de tudo, as nossas necessidades e hábitos, ao apelar ao consumo, o que condiciona as nossas vidas. Quando, através de anúncios, nos deixamos convencer de que precisamos de adquirir determinados produtos para alcançar algum tipo de satisfação ou felicidade, esta, ajuda a criar um círculo vicioso de procura incessante por mais coisas, cada vez mais coisas, numa insatisfação permanente.
Se utilizada de forma responsável e ética, pode ser uma ferramenta poderosa para informar, educar e promover produtos e serviços relevantes, mas quando o objetivo principal é também, ou apenas, manipular e explorar o consumidor, ou, pior, muito pior, ímprobo e insanamente influenciar as pessoas, através de publicidade orientada, para políticas, ou para a aceitação de modos de estar, contrários à nossa maneira de pensar e de viver, ela cruza uma linha perigosa, arriscada, danosa e ameaçadora. Temos também e ainda, a falta de qualidade e de gosto de muitos dos anúncios apresentados, ou na da tentativa de muitos deles de condicionar a moral e o modo de vida daqueles para quem são dirigidos, nos quais incluo crianças, jovens, e adultos mais impressionáveis e controláveis.
Até que ponto têm, os anúncios, o direito de influenciar tão profundamente a nossa vontade e as nossas necessidades? Até que ponto podem moldar os nossos padrões de consumo, de pensamento e de vivência, e ter impacto na nossa saúde mental e física? Este dilema, ético e moral, sobre o controlo exercido pela publicidade nas nossas vidas é uma questão que precisa ser analisada e discutida aprofundadamente.