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CARTA DE BRAGA – “da política e da dúvida” por António Oliveira

Li, já lá vão umas semanas, ‘Há políticos que, pela sua decência política, são capazes de iluminar tempos de obscuridade. Mas, ao mesmo tempo, há outros que, pela sua ânsia de poder, obscurecem a transparência’.

Escrevi a frase, mas não escrevi o autor, uma daquelas aparentes faltas de respeito pelo escritor, mesmo se a frase não for dele ou ter sido repescada de uma outra qualquer leitura, como costumo fazer também. Minha só é a cópia e não me importo de o dizer, porque a seriedade é o bem mais precioso de qualquer ser humano. 

Mas, talvez a propósito, escreveu um dia Montaigne, ‘Nascemos para agir’, afirmação mais tarde confirmada por Freud, dizendo a mesma coisa de outra maneira, ao falar da saúde psíquica como a capacidade de amar e trabalhar, no fundo e apenas, o facto de termos nascido para agir, sociabilizar e partilhar.

Creio que não se deve avaliar uma pessoa só pela aparência física, mas pela altura moral a fim de lhe ‘medir’ as atitudes, seja uma figura pública, político ou responsável de algum qualquer órgão de comunicação, onde nos vamos encharcando com ‘opiniões’, pois a forma como notícias e figuras nos são apresentadas, depende da montagem, do alinhamento e colocação nos noticiários e programação, do tipo de apresentação e hora de saída, para só citar alguns dos condicionamentos que lhe estão adstritos. 

Todos sabemos também, ser humilhante assinalar alguém por se duvidar da sua honorabilidade, porque o resto dos valores vem logo a seguir; já temos visto ou sabido de gente que, para reparar nódoas morais falsas ou injustas, hipotecou tempo, trabalho insano e, por vezes, até a própria vida; mas sabemos ainda, como alguns outros, desde políticos a figuras de órgãos de comunicação, podem também ser acusados de ter destruído muitas outras. 

Se recuarmos a Aristóteles, nenhum cidadão deveria votar em alguém de que não desse prova irrefutável de ser honesto, leal, sincero e coerente, porque a dignidade não é ter honra, mas apenas em a merecer. É um problema complicado neste nosso mundo pois, mais de dois terços da população mundial vive hoje, em países com democracias em retrocesso, ou em regimes autocráticos, seguindo o último relatório do Instituto para a Democracia e Assistência Eleitoral, sediado em Estocolmo. 

Relatório que aponta ainda para a necessidade urgente de revolucionar uma sociedade maioritariamente a ‘funcionar por objectivos’, desde a escola à vida de todos os dias e que, por isso mesmo, nos obriga a uma atitude ética em permanência, onde as Humanidades devem voltar em pleno aos currículos escolares; diz De Crescenzo na sua ‘História da Filosofia Grega’, que estudou profundamente, ‘A filosofia é uma prática do viver humano, útil para enfrentar os pequenos problemas de cada dia e, cujo estudo, desgraçadamente, não foi declarado obrigatório como o serviço militar’.

Com efeito, a reforma da sociedade não depende apenas de uma solução temporária, sujeita aos inconstantes objectivos de qualquer responsável daqueles que se falou atrás, por ter de estar estribada numa acção ética contínua e, disse António Sérgio, ‘No seu papel de organizadora de atividades, a educação não tem por objeto manter a estrutura da sociedade de hoje; tem por objeto melhorá-la, revolucioná-la. Se cada escola for uma cidade, um laboratório, uma oficina, se conseguirmos deslocá-la do enciclopedismo para a criação, o aluno ao sair irá marcado, terá amoldado o seu espírito à iniciativa produtora e virá a ser para a sociedade uma fonte de progresso’.

É António Sérgio no seu melhor, uma figura maior da cultura portuguesa, mas por outro lado também e, para nos obrigar a pensar mais e melhor, garante agora na revista ‘Philosophie’ o filósofo André Comte-Sponville, ‘O belo, o bom, o bem, o verdadeiro, têm qualquer coisa de desesperante’, por fazerem parte de uma forma de felicidade e plenitude, que não deixa lugar a apontar alguma falta, nem esperança. 

Talvez venha a propósito um muito antigo provérbio grego, ‘Quem de nada duvida, também nada percebe’.

Também vale para os que julgam saber de tudo?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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