CARTA DE BRAGA – “um verso e Confúcio” por António Oliveira

Depois das besteiras do trumpa, preocupei-me com uma frase que li nem sei onde! Ainda bem que a escrevi para me debruçar sobre ela quando pudesse, por me parecer muito mais complicada que o seu curto tamanho!

Meti-me num sarilho que ainda não consegui resolver, pois daria uma crónica que bem se poderia aproveitar para falar destes tempos de pandemias, assaltos atávicos, encadeamentos por ecrãs, maioritariamente pelos mais pequenos, de dúvidas e temores, de gente que caminha sem razão e que se nega a ter alguma, a não ser uma insaciável e urgente sanha de poder sem controlo!

O dr. Google pôs-me à frente gente variada e distinta, Pessoa, Osho, João Cabral de Melo Neto, Giordano Bruno, Steiner, Camões, Buda, Maiakóvski, Vinicius, O’Neil, Bukowski e não sei quantos mais, mas se não encontrei o autor da frase, encontrei escrita e gente da melhor, gente com quem devíamos conviver amiúde, para não ensandecer, como os idiotas que enchem as horas e as páginas das notícias, as que os donos dos nossos tempos, pensam ser os únicos a que temos direito.

A frase dizia apenas ‘Todo o ser humano leva um verso dentro’, lida nem sei onde.

É de uma simplicidade que perturba, incomoda e nos remete para aquela viagem interior que raramente fazemos, porque no reino das causas, as mediações entre o humano e o não humano, ‘a invisibilidade é menos rarefeita, mas é produzida por luzes intensas, que ali projectam sombras densas’ afirma Boaventura Sousa Santos.

Aliás a ‘redundância de dados que nos oferecem, não nos permite compreender o sentido do que se passa à nossa volta, desde o «corona» a tudo o resto’, nas palavras sábias de Daniel Innerarity.

Creio que, neste momento, a cultura do colectivo, tanto do social, como do público e do político, parece ser a alternativa necessária para nos opormos à confusão e ao nosso quase caótico dia a dia.

Aliás, parece-me que só a cultura nos permitirá fazer frente ao individualismo, o dos produtos estandardizados e niveladores por baixo, conforme a imposição das tais mediações, sem darem atenção (que lhes interessa isso?) a sociedades, culturas, modos de vida e memórias.

As antigas civilizações interpretavam a realidade como a ligação incondicional entre o homem, a natureza e os acontecimentos, festivos ou funestos. Foi esse o caminho dos mitos, dos rituais, das narrativas religiosas, da linguagem a da poesia.

Isto significa que a linguagem nasceu da crença, mas a literatura extraordinária que lhe sucedeu, não foi mais do que um ‘voltar a escrever’ carregado de religiosidade.

Isto daria para muitas, muitíssimas páginas, mas creio que o empobrecimento e a quase penúria da linguagem actual, é consequência de uma sociedade utilitarista, das políticas de ‘omissão e esquecimento’ em volta da história, da filosofia e da sociologia.

E preocupo-me, muito, por não esquecer um velho aforismo atribuído a Confúcio, ‘aprender sem pensar é inútil, pensar sem aprender, muito perigoso’, como se viu no Dia de Reis!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

2 Comments

  1. Creio que o autor foi o vienense Ernst Haas : “Em cada artista existe poesia. Em cada ser humano existe o elemento poético. Nós sabemos. Nós sentimos. Nós acreditamos”. Depois de traduzida a frase ficou + ou – assim.

    1. Obrigado, Amigo!
      Poupa-me uma quantidade de trabalho, porque tal frase merece uma enorme atenção!
      É bem possível que uma qualquer especulação possa ter levado àquela simplificação.
      Mas vou conservar esta mensagem, pois também permite mais abordagens!
      Mais uma vez lhe agradeço a lhaneza da resposta.
      Um abraço
      A .O.

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