CARTA DE BRAGA – “do rigor nas palavras e na linguagem” por António Oliveira

As línguas não fizeram mal a ninguém. Quem fez o mal foram os animais que têm atrás!

Esta frase, esta dureza crua e límpida, pertence a Joan Margarit, o poeta laureado em 2019 com o Prémio Cervantes e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana, proferida há pouco tempo numa entrevista à comunicação social de todo o mundo.

Frase explicada por si mesma, agora mais do que nunca, pois ‘as pessoas têm de saber que a cultura é uma coisa que toda a gente tem, e o povo que ainda não foi dissolvido pela sociedade moderna de consumo, tem a sua cultura própria mesmo que seja analfabeto e, às vezes, essa cultura pode ser mais profunda e mais inteligente do que a das pessoas que vão «pregar» para ele’.

Uma afirmação já com quarenta e dois anos (1977) e pertence a Jorge de Sena, outro poeta maior, obrigado a sair do país por causa dos ‘animais que havia então atrás da língua’.

Agora e não só, pelas eventuais pressões de toda a qualidade sobre quem as pronuncia, temos as que são exercidas sobre quem as pensa ou escreve, até pela abundância de lixo nos canais de tv, mais os ‘emojis’, sons substitutivos, siglas e sinais, todos já com uso normal, para maximizar a simplificação da linguagem.

E não aponto apenas aos usuários constantes das teclas dos telemóveis, praticantes do seu lento descaminho, mas também por estarem a acabar com a musicalidade própria das palavras, aquele som que permite reconhecer, pessoas, origens, tempos e lugares.

Aí se situam os poetas, os escritores, os artistas da fala e da representação, os políticos (os que ainda se atrevem e usam ver o mundo e a vida mais de perto) mas, acima de tudo, os professores.

Aliás no ‘Emílio’, Jean Jacques Rousseau afirma ‘A educação vem da natureza, do homem ou das coisas. O desenvolvimento interno das nossas faculdades e órgãos é a educação da natureza; o uso que nos ensinam a fazer desse desenvolvimento é a educação do homem; e o ganho da nossa própria experiência sobre os objectos que nos afectam é a educação das coisas’.

Não consigo pensar assim, se me confrontar, em qualquer conversação, com as palavras maiormente substituídas por eufemismos, onomatopeias ou ‘caretazinhas’ de nome japonês!

A educação, a ver pelo que se vai praticando agora, não parece ser mais do que um instrumento de domínio, por estar sempre acompanhada da simulação mediática, favorecida por algoritmos e pelas poderosas redes sociais, alertando-nos para uma outra realidade que nem vivemos, abrindo espaço para legislações bem longe dos nossos interesses, onde não será difícil lobrigar coacções e demais repressões, apesar de nelas todas até poderem não estar expressas.

Por isso, usar de rigor na linguagem oral e escrita é essencial para todos, (por isso o deixo aqui em castelhano) pois ‘Hasta Dios nos necessita, a cada una de sus criaturas y sus singulares puntos de vista, para tener experiencia de la vida, o sea, del tiempo encarnado’, referiu Ortega y Gasset em ‘El tema de nuestro tiempo’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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