CARTA DE BRAGA – “a navalha de Ockham” por António Oliveira

O frade franciscano William de Ockham legou-nos o princípio filosófico ‘em igualdade de circunstâncias, a explicação mais simples costuma ser a mais provável’, princípio que, mesmo sem nunca ter sido demonstrado e só devido à extrema simplicidade, veio a ser conhecido como ‘a navalha de Ockham’.

De qualquer maneira, apesar da sua rudeza, é um princípio metodológico que não se pode pôr de lado mesmo tendo em conta mais alternativas, como apelar a outra explicação mais redundante, talvez mais palavrosa ou excessiva.

No outro extremo das metodologias vamos encontrar Paul Valéry, o poeta que deixou a preocupação em melhorar a agilidade mental para poder desenvolver o talento natural numa frase aparentemente simples ‘Trabalho uma estrofe. Não fico satisfeito dez vezes, mas de tanto voltar a ela, termino por me familiarizar, não com o meu texto, mas com as minhas possibilidades’.

Vem isto a propósito das palavras de uma das administradoras de uma antiga livraria e papelaria do Porto (190 anos!) que acredita ser possível levar o conceito lá para fora, mesmo ao Japão, pela mais-valia do mercado da nostalgia de ‘um tempo em que havia mais tempo para escrever, ler e pensar’.

Mas estamos a viver maioritariamente tempos que até já não são da ‘pressa’ mas da ‘urgência’, por ver toda a gente a correr para proteger os seus ‘até quando’, a começar sempre pelos que mais têm a proteger, as classes mais endinheiradas.

E são também esses a comandar as caixas da ‘verdades’ às cores, variadas, atractivas, quase sempre pungentes e com muito barulho, por já não existirem sem ruído a condizer, impositivo, mandatório, uniformizador, agregador.

São tempos em que as ‘navalhas de Ockham’ podem cortar a eito, orientadas pela cabeça de gente que não se detém para pensar, seguindo o esclarecedor ‘Breviário dos políticos’ atribuído ao cardeal Giulio Mazarini, regente de França na menoridade de Luís XIV.

Nunca reveles os teus sentimentos, maquilha o teu coração como se maquilha o rosto e que as palavras que pronunciares, até as entoações, partilhem o mesmo disfarce. E se tiveres medo reprime-o, repetindo que és o único que o sabe. Faz o mesmo com os sentimentos!

Aproximam-se tempos de decisão, onde se vai testar outra vez, a grandeza da democracia, onde se mede e pode verificar ser ainda a melhor das opções para orientar o destino de um país, por se apoiar na capacidade decisória de cidadãos, exercendo o direito inalienável de criticar, opinar e eleger outros cidadãos como seus representantes.

Um retrato a preto e branco com demasiados tons de cinzento mas é óbvio que, vista à maneira de Ockham até é bem bonita, pois já sabemos que uma qualquer outra definição mais complexa será também muito pior!

E as definições que hoje aparecem por aí, usam roupas antigas ornamentadas com folhelhos novos para esconder o cheiro a mofo, apesar dos ‘tipos’ com esgares sorridentes onde estão penduradas.

De qualquer maneira convém não esquecer o que um dia, há quase duzentos anos, escreveu Victor Hugo, ‘Entre um governo que faz o mal e o povo que o consente, há certa cumplicidade vergonhosa’ e nós somos acusados demasiadas vezes de ter a memória curta!

Vai ser assim, ainda e também desta vez?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 comments

  1. Carlos Leça da Veiga

    Com efeito o sustentáculo da Democracia tem vivido, nos últimos séculos, sob o comando dum modelo constitucional capaz de, há muitos anos, ter servido para mudar qualquer coisa desde que – alguém nos ensinou – tudo ficasse na mesma. Depois da Magna Carta – ainda por escrever – veio o modelo constitucional gerado na Revolução dita Francesa que, anos após, no meu entender, sofreu uma alteração inteligente feita pelos ianques fartos do domínio dos Comuns em detrimento daquele do Chefe do Estado. Depois disso “nada de novo na frente constitucional”..Vou atrever-me a dar um passo em frente !!!. Cumprimentos do CLV

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  2. António Oliveira

    São tempos de muita preocupação e demasiadas interrogações, estes os que passamos!
    Crise na ideologias, nos objectivos nacionais (?), na imprensa e na velocidade da comunicação.
    A História move-se para diante e há demasiada gente a querer atrasar o passo!
    Aompanhemos a História, deixemos a estória para os contadores!
    Cumprimentos com amizade
    A.O.

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