CARTA DE BRAGA – “de Putin e da ampulheta” por António Oliveira
clara castilho
O maior problema para qualquer tirano ou ditador, é o andar lento e compassado do relógio, pois é a única coisa que eles não conseguem comandar, independentemente do número de polícias, ‘sacerdotes’ e homens de mão que tenham à disposição, que lhes bebam as palavras ou lhes ‘adivinhem’ os propósitos, por a marcha do tempo ter um ritmo que eles não conseguem alterar, porque depende de um outro ‘tirano’ bem distante do seu mundo, e que eles nunca chegarão a entender, o cosmos!
Falta e faltam-lhes, sempre aquela dimensão cultural, espiritual e humana que define as ‘pessoas de bem’, (aqui bem longe dos descontrolos propagandeados pela extrema direita), porque dá a cada um, a noção de integração e pertença a uma sociedade plural –da cor de pele ao espírito– noção que eles também não entendem nem aceitam.
Esta Carta que estou a escrever na tarde de sábado (17), foi motivada pelo facto de ‘terem suicidado’ Alexéi Navalni que, de acordo com as palavras de Ramon Aymerich, redactor chefe do ‘La Vanguardia’, nem por ser largamente anunciada, deixa de ser assustadora, pois no ‘No mundo de Putin, sempre acabam por se confirmar os piores pressentimentos. A história parece seguir a lógica brutal que retrocede a tempos passados, em que o poder era implacável com quem errava ou se lhe opunha. O destino seguiu agora o mesmo padrão, na vida e morte de Navalni, o mais popular e, por isso o mais perigoso, dos opositores de Putin’.
Penso, no entanto, que os protestos não sairão dos salões do poder do mundo ocidental, a seguir também a opinião do escritor e cronista britânico John Carlin, ‘Putin será recordado como um cínico mentiroso e Navalni pela integridade, mas, a não ser que aconteça algo inesperado, de pouco servirá o sacrifício deste grande homem para a Rússia ou para o mundo de hoje, o que é uma pena terrível’.Opinião que parece ser partilhada por Natália Vasilyeva, antiga correspondente do ‘The Telegraph’ em Moscovo e agora no Médio Oriente, ‘O Kremlin não tem de temer protestos num país onde uma mulher reformada, com 72 anos, foi condenada a cinco anos de prisão no mês passado, por um post antiguerra nas redes sociais. Putin pode torturar, prender e matar o político da oposição mais popular do país, pois sabe que é intocável dentro das fronteiras da Rússia’.
O escritor e cronista Enric González, comenta assim na Cadena Ser, ‘Agora, com Putin e a antiga KGB a mandar, o maior país do mundo recuperou o que poderíamos chamar normalidade, uma vez que o terror vem sendo o normal desde os czares. É terrível’.
Mas creio, aqui tão longe e tão perto, que tudo isto servirá também, para prolongar indefinidamente a guerra da Ucrânia, por até poder ser ‘a vitória’ com que o senhor da Rússia irá justificar todos os seus desmandos.
Só que nunca pára de escorrer a areia da ampulheta!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor