CARTA DE BRAGA – “Como se fabrica uma guerra” por António Oliveira

 

Vendo’ esta receita tal como a ‘comprei’, só a tradução de parte de uma crónica publicada num conceituado jornal diário europeu. E dizia assim:

«Em 14 de Agosto de 1964, dois v sos de guerra norte-americanos entraram em combate no golfo de Tonquim. Durante duas horas, sacudidos por forte temporal, o ‘Maddox’ e o ‘Turner Joy’ dispararam furiosamente.

O comandante do ‘Maddox’, John Herrick, enviou um ‘cable’ para Washington onde explicava que, na realidade, não houve inimigos, mas disfunções no radar e no sonar, por causa da tormenta. Foi uma batalha contra ninguém.

Mas o ‘cable’ de Herrick, permaneceu secreto.

Três dias depois, o presidente Lyndon Johnson convocou o Congresso para denunciar o ataque sofrido pelo ‘Maddox’ e pelo ‘Turner Joy’ no chamado «incidente de Tonquim» e o Congresso autorizou mais bombardeamentos sobre o Vietnam e o envio de mais tropas para a zona.

A publicação dos papéis do Pentágono em 1971, permitiu saber que a guerra do Vietnam começou com uma manipulação da CIA e uma grande mentira presidencial. Estas coisas funcionam assim, uma falsidade bem orquestrada pelo poder e aplaudida pelos media, faz maravilhas»

Acrónica referia ainda mais casos parecidos, como a da Alemanha na fronteira da Polónia em 1939, as armas de destruição massiva no Iraque em 2003 e, como agora se conta, dos fantasmagóricos ataques iranianos aos petroleiros ocidentais, para acabar aconselhando a ‘estarmos atentos para ver que mentira vamos escutar desta vez

A tirania é um hábito’ escreveu Dostoievski em ‘Recordações da casa dos mortos’, e logo alguém acrescentou que essa condenável e odiosa prática se transmite aos povos, com uma velocidade de vertigem.

Na verdade, o tirano sabe e reconhece que vai prejudicar outros gravemente, mas não se importa se o beneficiar directamente.

Transferindo este pensamento para o patético loiro nova-iorquino, teremos todas as razões para uma enorme preocupação, não só pelo Golfo Pérsico e Médio Oriente, como e também pela degradação do clima, tudo a pôr em risco o resto do planeta onde gastamos os dias, a vida e a importância de ainda se ter esperança!

Se lhe acrescentarmos a mutação brutal na evolução do humano com a prevalência do algoritmo em todos os campos de actividade, da educação ao entretenimento, veremos como o pacto social também está em perigo pela alteração total das regras do jogo, mas o lesado será sempre o mesmo, aquele que não consegue sair do lado de dentro do ecrã.

Por outro lado, o predomínio das hoje tão faladas ‘fake news’ (campo em que somos quase doutorados a ver pelos ‘manhas’ de todas as manhãs) originou um brilhante aforismo ao escritor e tradutor espanhol Javier Cercas ‘o pior do poder crescente da mentira é que, da mesma maneira que a verdade cria homens e mulheres livres, aquela só gera escravos

E por acreditar que um poema será a melhor maneira de representar o que atrás ficou, aqui fica um poema do bracarense Dinis Albano Carneiro Gonçalves, que o mundo da poesia conheceu e respeita como Sebastião Alba

No meu país

dardejado do sol e da caca dos gaios

só há estâncias

(de veraneio) na poesia.

Nossos lábios

a um metro e sessenta e tal

do chão amarelecido

dos símbolos

abrem para fora

por dois gomos de frio.

Nossos lábios outonais, digo,

outonais doze meses.

No entanto

o equilíbrio jacente

faz florir as acácias;

a terra incha;

na derme da possível

geografia,

um frémito cinde

as estações do ano.

Ainda!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

One comment

  1. Raul Manuel Freitas Araujo Rocha

    Obrigada, amigo…Vou voltar a ler( porque o fiz a correr e pretendo “mastigá-la bem…), mas já sei que me serviste mais um bom copo de bom senso…Oque se passa no mundo? Dantes, temíamos o “botão vermelho” carregado por um louco…Hoje, vários loucos andam à solta e os cidadãos, cada vez mais alienados não dão conta de que o mundo se esfrangalha com estes loucos egocêntricos…Andamos a assobiar para o lado…
    Um abraço!!!!!!
    CL

    Gostar

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