Carta de Braga – 24.03.16 “direitolas e convivência”
clara castilho
Faltou lá o luso, o boris inglês e o falso loiro holandês, talvez por a reunião se ter realizado nos últimos dias de Fevereiro, antes do dez de Março, que atirou o luso para as primeiras páginas dos jornais europeus e arredores; mas em volta do seu patrono, o gadelhas americano (que garantiu já, libertar os “encornados” e todos os outros palhaços detidos pelo ataque ao Capitólio), estiveram figuras bem conhecidas dos salões de cabeleireiro e das páginas da ‘Gente’, de todos os diários e semanários desse mesmo mundo, o milei, a melona, o recém-chegado buquele, o boçalnaro e o avascal daqui ao lado, bem como outros candidatos a cabeças mirabolantes.
Não disseram o que lá foram fazer – não acredito ter sido uma viagem promoção na compra de uma mão cheia de dólares num supermercado, ou de um carro ainda movido a “gota”, paga por uma gasolineira qualquer sediada no Árctico e em fim de vida útil – acredito sim, não ter sido mais do que um ‘balão de ensaio’ atirado para o meio da confusão que reina na política internacional, em que entre os Bidens e os Netanyahus, ainda há muita gente a acreditar, afirma um cronista internacional, ‘A Rússia é uma reedição da URSS e que Putin até é comunista’.
Se calhar foi para tentarem saber como é que um fulano a que têm tentado parar por todos os meios mais ou menos legais – cerca de noventa processos por crimes de vários tipos, dos financeiros aos sexuais – poderá vir a ser o próximo presidente dos states, apoiado num conjunto de eleitores que foi manipulando durante muitos anos – setenta milhões ou mais – e que, nas palavras do escritor e cronista John Carlin, ‘É o grupo mais numeroso de “deploráveis” do mundo ocidental .
Zygmunt Bauman, o já abalado e bem conhecido sociólogo europeu, afirmou há alguns anos, ‘Trump é um sintoma preocupante que reflecte o divórcio entre o poder e a política, de que resulta um vazio depois preenchido por quem promete soluções fáceis e imediatas para problemas complexos e sistemáticos, deitando a mão à rica reserva da retórica populista.
Na verdade, o ‘gadelhas’ apresentou-se como o antídoto para a incerteza actual em todos os campos da actividade humana, substituindo os meios tradicionais com a transferência do poder para (e com) modelos autoritários, acabando assim com tal vazio.
Mas não é só este caso a levar-me a escrever este texto, mas sim pegar numa frase de Charles Bukovwsky, o norte-americano, poeta e escritor nascido na Alemanha, por muitos tido como um escritor maldito, pelos seus excessos na escrita e na vida, a reflectir muito bem como ‘Nascemos numa civilização atordoada, por uma mediocridade esmagadora’, que ele considerava uma civilização perdida.
E mais acrescenta o também escritor Tello Peñalva, num artigo de um diário daqui ao lado, ‘Parece estarmos condenados a não conhecer outra coisa além desta falta de humanidade, de cinismo crescente, desvergonha, maldade e indignidade que trouxe consigo a horrorosa pandemia de desenfreado capitalismo, que penamos há já demasiado tempo’.
Não quero saber de lá ter faltado o luso, por cada vez mais me preocupar outra situação, a de ver como estamos a usar cada vez mais a reserva colectiva de hipocrisia, com o fingimos não ver e ignorar a dimensão social do ser humano, como nos vamos transformando em depósitos andantes de egoísmo, a dificultar gravemente a parte mais importante deste viver, a tolerância, o entendimento e a convivência.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor