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CARTA DE BRAGA – “Abril chegou! Não quero mais muros!” por António Oliveira

Abril chegou e até parece que só os mais velhos, os que viveram dezenas de anos marçagões sem esperança de algum dia poder alçar braços e voz para agradecerem aos deuses, terem sido derrubado os muros físicos e sociais levantados pela ordem –fosse ela qual fosse, mas Ordem– a mesma que não aceitava a participação activa, nem a representação real e legítima do cidadão, nas obrigações de uma sociedade orientada pela igualdade, a determinada pelo direito, fundamentalmente pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, estabelecidos já em 1948, pela Assembleia Geral das Nações Unidas; mas Nova Iorque estava demasiado longe, ainda a trinta e seis anos de uma distância!

E, depois, nestas terras não se praticavam as quatro aprendizagens básicas que cada pessoa devia adquirir durante a vida, aprender a conhecer, para além da vizinha do lado, as bases da compreensão; aprender a fazer, para melhorar o próprio ambiente; aprender a viver juntos, para saber o valor da partilha e da colaboração e, finalmente, aprender a ser, talvez a consequência e a junção dos valores da três anteriores, coisas que por esta e outras terras de uma Europa, n as mãos e às ordens dos ‘senhores de tudo’, ninguém dizia que tais coisas eram apenas a ‘educação ao longo da vida’, longe de togas e mitras, por serem parte da sociedade que lhes marcaria a vida, prática e eticamente.

Abril chegou e trouxe com ele também, as antigas propostas há cinquenta anos postas de lado –embora com palavras e jeitos diferentes– mas que nós, os mais velhos conhecemos bem, por as termos ouvido e penado largas dezenas de anos. Mas agora procuram, ou esperam conseguir, com ilusões de palco bem iluminado, meter o esquecimento no conjunto das nossas memórias, devidamente sedimentadas por dores e mínguas, que não são de perder. E conseguiram, com tais ilusões, no iluminadíssimo palco da Assembleia, colocar um dirigente do MDLP, (a organização terrorista da extrema direita responsável, entre outras coisas, pela morte do padre Max), como um dos novos vice-presidentes desse mesmo palco. Teremos de estar preparados para outros truques para iludir, tanto a nossa memória como os registos da História.

Mas a nossa velhice está bem certa daquelas desigualdades, em todos os escalões da vida, para as quais eles não têm respostas, mas atroam os ares e ecrãs que lhes continuam a dar guarida, com outras e diversas diferenças, só a acentuar as já existentes, apoiando-se na iliteracia e na incultura de grande parte da população, aquela que nunca ouviu falar –e muito menos leu– alguma coisa sobre tal aprendizagem, assunto que não interessava nem interessa àqueles senhores, mandões e donos de tais domínios.

Convém não esquecer, agora que Abril chegou, e até pelo que se viu no iluminado palco da Assembleia, como a democracia ainda está muito longe das ‘ideias e palavras antigas, mesmo ditas e representadas com outros jeitos’, por muito necessitar de vozes e opiniões que se possam juntar e afinar os processos de transformação íntima e social, resultantes da busca de um novo mundo, apoiado na defesa da verdade, da dignidade e da vida.

Abril chegou e carrega ainda a esperança de não voltar a ter, de maneira alguma, queles muros à minha e à nossa volta!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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