CARTA DE BRAGA – “de que lado está Você” por António Oliveira

Quando tive o meu primeiro computador, acabou o meu sacrifício de ter de escrever cartas, pois ainda se escreviam cartas naqueles tempos; e até nem foi há muitos anos, andaria eu pelos quarenta!

Gostava de escrever cartas, mas fazia-o com a máquina de escrever, porque decifrar o que escrevia à mão era uma autêntica charada, mesmo para mim, por a minha letra mais parecer um conjunto de gatafunhos ininteligível e indecifrável, que aliás muito me prejudicou até nas frequências e exames, nas instituições por onde andei.

Sempre pensei que escrever uma carta exigia caneta e papel, uma secretária ou mesa a condizer e silêncio, porque escrever era ‘chamar’ a pessoa a quem a dirigia para ‘a ter’ ao lado, pois escrever-lhe uma carta, também era para lhe dizer ‘a sós’ o que só os dois já sabíamos, uma espécie de diálogo transformado em monólogo escrito, sem atender ao tamanho das frases e sem economizar nas repetições nem nos adjectivos, até por irem separadas por pontuação adequada.

Era expor a minha intimidade, deixar que ela ficasse a pairar no silêncio ou no pensamento, sem pedir nada em troca, pois escrever uma carta, pressupunha respeito e estima pelo destinatário, por as palavras serem dirigidas ao seu sentimento e entendimento, não ao presidente da Junta, da Câmara ou de qualquer outra instituição a pedir letra grande.

E, depois, havia o tempo da espera pela resposta, o domínio absoluto da expectativa, para ver se as palavras ‘calavam’, se teriam caído em cesto roto ou ido parar no caixote do lixo, os verdadeiros túmulos de toda a esperança.

Tenho reparado que a escrita começa a ser, se não for já, um tormento real para as pessoas, especialmente para os mais jovens, até por a leitura também já não lhes ser uma função primordial na actividade comunicativa, a não ser nas ‘secas’ das burocracias, ou o das instruções para uso e produção, onde vem mesmo em letra pequena, aquela que toda a gente põe de lado, para logo pedir explicação personalizada a quem tem do outro lado do balcão, ou a um amigo que já as penou.

Estamos na época de todas as Feiras de Livros, onde aqueles que escreveram, ou os que ainda escrevem, procuram ‘ledores’ para os seus sentimentos, sonhos, efabulações, para mostrar as pessoas que ‘tiveram ao lado’ quando os escreviam e passavam a letra de forma, para evitar os gatafunhos que os poderiam afastar, sem os deixarem entrar na intimidade, a mesma com que escreviam cartas, pois escrever tem como destinatário um só leitor, Você!

Você, aqui escrito com letra grande, como merece uma qualquer outra instituição, de certeza e, se calhar, nem tão respeitável, mas aquela que lhes permite o acesso a bibliotecas e editores, para já não falar nos órgãos de comunicação, os que também vivem das ideias e da escrita, para pessoas como Você.

E, voltando ao princípio, antes da chegada da internet e do domínio dos ecrãs de qualquer tamanho, sabia-se que escrita e leitura eram a base da liberdade, aquela que todas as instituições temiam por poderem, com a divulgação de valores e ideologias, ‘contaminar’ pessoas como Você, e lhes tornariam complicado controlar os processos de produção, divulgação e conservação dos textos que os disseminavam.

Não se deve esquecer que, em qualquer sociedade, a produção de discurso qualquer que seja, desde o livro ao imagético e ao digital é selecionada, organizada, controlada e distribuída, mas só depois de um conjunto de procederes a prevenir tais perigos para os poderes em função, mas que também leva à proliferação de publicações e edições anódinas, dos ‘manhas’ e afins de todas as manhãs, onde proliferam os casos sociais, emotivos e chorosos, os de conversar com a vizinha por cima do muro, se ainda os houver.

E, talvez a propósito de tudo isto, afirmou o director de uma grande órgão de comunicação mundial, ‘A parte pior caiu no jornalismo, onde os leitores das notícias digitais, dificilmente ultrapassam um minuto. Os artigos longos e profundos têm pouca clientela. A opinião pública é o resultado de picotar sobretudo as redes sociais’.

De que lado está Você?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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