CARTA DE BRAGA –“de muros, catedrais e opiniões” por António Oliveira

Os primeiros dias de Abril ficaram marcados por dois acontecimentos que, à partida, nada terão a ver um com o outro – a prisão de Assange na embaixada do Equador em Londres e o incêndio de Notre-Dame, a catedral de Paris.

Até podem não ter, mas aquelas cidades são e assumem-se como símbolos importantes de uma Europa ainda à procura de definição num novo e temeroso contexto internacional.

A Europa trouxe e legou ao mundo duas ideias fundamentais, a revolução e o descobrimento, tanto no aspecto físico como no mental, por muito que isso também custe a muita gente!

É uma questão importante a ter em consideração, como diz José Antonio Marina, ‘Estamos en una cultura del usar de todo, incluso los conceptos, sin entender muy bien de lo que tratan. En este momento estamos viendo como en naciones con gran tradición democrática hay mucha gente joven que empieza a pensar que, a lo mejor, no es tan importante vivir en un sistema democrático

Mas representa também a sempiterna questão entre fé e lei, uma questão que, em linguagem bíblica, exprime a difícil coexistência entre as leis civis por dizerem respeito à terra e as crenças religiosas a dizerem respeito aos céus.

Não pretendo falar nem efabular uma qualquer teoria da conspiração por também não me dizer respeito mas, se quisermos olhar para mais longe, nunca foi fácil o convívio entre os senhores dos templos e os dos parlamentos, visível por ter sempre havido quem quisesse mandar nos outros.

As hierarquias nunca fora fáceis de aquietar e, agora muito mais, quando os critérios ideológicos estão em crise acentuada.

Do lado de lá do charco, a obsessão do trumpa pelos muros, é o sinal claro do final da hegemonia norte-americana no mundo, por querer tapar buracos chantageando os inquilinos que lhe restam e se constitui já, no retrato oficial do patético personagem e do fim dessa hegemonia.

Só a chantagem permitiu tirar Assange da embaixada das Equador e foi notório a rejeição do facto por parte dos equatorianos e demais gente dos países ainda sob tal predomínio.

Do lado de cá são cada vez mais impositivos os critérios que valorizam a rapidez da informação, em que se dá valor apenas ao agora e ao instante, pois o sucedido ontem já não tem importância por já ser só história, logo substituída por outra mais atractiva ou com mais selfies.

Nada é absoluto. Tudo muda, tudo se move, tudo gira, tudo voa e desaparece’ disse um dia Frida Kahlo, repetindo por outras palavras um aforismo de Heráclito, com mais de 2500 anos ‘nada é permanente, excepto a mudança

E quero acreditar que não passe de uma coincidência (não há coincidências, apenas sincronicidades! disse Jung um dia!), mas aquela expressiva e icónica catedral a arder, também parece a imagem do fim de uma longa época marcada pela cultura europeia.

Note-se que a catedral se aguentou nove séculos, resistindo à Guerra dos Cem Anos, à Revolução Francesa, à Comuna de Paris, a duas Guerras Mundiais e o único incêndio que sofreu foi só ficção, em ‘Notre-Dame de Paris’, o celebrado romance do não menos celebrado Victor Hugo.

Notre-Dame ardeu tão simplesmente, que parece ter posto de pantanas toda uma realidade em que só se dá valor a uns poucos conflitos provocados por interesses difusos, ideologicamente sensíveis, mas beneficiando de uma enorme, parcial e manipulada informação.

Garante-se agora já haver já muito dinheiro para a reconstrução, mas não resisto a citar o poeta romântico alemão Heinrich Heine (1797-1856) ‘Já não construímos catedrais como as notáveis góticas, pois os homens daqueles tempos tinham convicções; nós, os modernos, só temos opiniões mas, para elevar uma catedral, precisa-se algo mais que uma opinião

E ainda nem haviam ecrãs, nem Facebook nem Whatsapp!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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