CARTA DE BRAGA – “como será?” por António Oliveira

Os últimos tempos, com as suas e nossas limitações, têm-me obrigado a pensar e a reflectir sobre este ‘ofício de viver’ nosso.

A primeira questão que me pus, com certeza a primeira que todos se puseram, foi ‘quando acabará tudo isto?’ e logo a seguir ‘como será o mundo depois disto tudo passar?’, com a dimensão que aquele termo ‘mundo’, possa ter para cada um, desde a família, a casa, a rua, a cidade, o país e até mesmo esta Terra em que vivemos.

Não será fácil uma resposta a qualquer das duas questões, com aquele triste ‘fica em casa’, pela incerteza e dúvidas ligadas à pandemia, por uma ignorância que não conseguimos ultrapassar com leituras, pareceres e com os ecrãs que nos rodeiam e, não desprezíveis, com os aproveitamentos políticos que nos encharcam, vindos de todos os lados.

Também devem ser considerados os egoísmos próprios, societais e nacionais, por estarem em jogo distâncias, lonjuras e povos, a arrastar-nos para condições humanas e geográficas distintas, quantas vezes incompreensíveis ou incompreendidas, em função das culturas e dos privilégios, nossos ou alheios.

Também não podemos afastar as dezenas de anos do ‘welfare state’, aquela ‘civilização do bem-estar’ em que a maioria acreditava viver, até por se negar a olhar um pouco para além do muro ou da sombra da própria casa.

Essa recusa levou-nos a esquecer os problemas da grande e enorme maioria dos habitantes de um planeta explorado para além dos limites, a viver afastada e ignorada pelos ‘patrões’ dessa exploração e pelas muitas ‘fundações’ que não visavam mais do quer tentar legitimar os lucros gerados por um liberalismo selvagem e sem regras, a não ser as deles, para poderem exercer uma caridadezinha cimeira, arrogante e abençoada.

Mas há sempre ‘alguém que resiste, alguém que diz não’ como cantou o poeta e, para Pepe Mujica, ‘Esta pandemia é um desafio da biologia, para nos recordar que não somos tão donos do universo como julgávamos’.

Esta afirmação do veterano ex-presidente do Uruguai, só vem confirmar Zygmunt Bauman, para quem a modernidade nasceu sob o signo de uma confiança inédita ‘Ser moderno significa ser incapaz de parar. Continuaremos a mover-nos pela impossibilidade de atingir a satisfação e, até por isso, se conseguiria refundar a condição humana e convertê-la em algo melhor do que foi até hoje’.

Mas, talvez pensando nessa impossibilidade, deixou escrito noutra ocasião ‘Se Marx e Engels escrevessem hoje o Manifesto Comunista”, teriam de substituir a frase inicial «Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo», pela seguinte, «Um espectro ronda o planeta, o espectro da indignação»

Os mistérios insondáveis pelos quais se guiam tais patrões, em tempos onde ‘A política, que devia ser a mediadora entre as ideologias e as necessidades e aspirações dos cidadãos, tem vindo a demitir-se dessa função. Se mantém algum resíduo de mediação, é com as necessidades e aspirações dos mercados, um cidadão estranho que só tem direitos e nenhum dever’ escreveu Boaventura Sousa Santos no blog ‘Outras Palavras’ a 7 de Abril.

Mas as dúvidas sobre o futuro continuam, pois até o prémio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, afirmou nos últimos dias de Abril, ao censurar aquela avantesma trump, ‘Cortou 30% dos fundos públicos para a ciência, por considerar as melhores universidades e os cientistas, como uma elite a castigar’.

Sinceramente, vou ficando temeroso cada dia que passa que, num deles, alguém possa usar connosco, os mesmos versos do seu poema ‘Os homens ocos’, que T.S. Eliot usou no elogio fúnebre de Walt Whitman.

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Assim expira o mundo

Não com uma explosão,

                                                                                            mas com um gemido

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

2 comments

  1. Maria de sa

    *Sempre aprendendo .* *Obrigada Professor .* *Adorei : *‘*Se Marx e Engels escrevessem hoje o **“**Manifesto Comunista”, teriam de substituir a frase inicial **«**Um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo**»**, pela seguinte, **«**Um espectro ronda o planeta, o espectro da indignação»* *Maria *

    Sem vírus. http://www.avast.com

  2. António Oliveira

    Obrigado, Maria de Sá!
    A.O.

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