CARTA DE BRAGA – “estórias de livros” por António Oliveira
clara castilho
Esta Carta (hoje bem diferente) nasceu de ter lido, em jornais distintos, duas estórias de (e com) livros, que não resisti a passar para este espaço, porque os livros são e serão sempre um refúgio, o pequeno paraíso ao alcance da mão de cada um, de todos os que vivemos no meio do caos levantado pela ambição de uns poucos, no meio da incerteza para onde nos arrastam.
São também o símbolo da luta contra o esquecimento e desmemória com que tantos, às vezes sem consciência do que fazem, tentam apagar das nossas rotas, todas as maravilhosas ideias e seus autores, que sobreviveram aos tempos, alguns mesmo milhares de anos.
A primeira estória, ‘A casa dos livros perdidos’, passa-se na Argentina, e conta a tragédia de uma família, quando os militares através do golpe de 1976, se apropriaram do poder naquele país da América do Sul. Uma família de judeus comunistas, um casal com cinco filhos entre os 9 e os 19 anos, ela arquitecta e o marido, advogado do sindicato dos mecânicos, prevendo o que poderia vir a acontecer, decidiram esconder a biblioteca, mais de meio milhar de livros de Marx, Engels, Neruda, Vallejo e outros autores de diferentes países, alguns do leste europeu, arrumando-os num armário que ela emparedou numa das salas da casa.
Como conseguiu licença para a remodelar, meteu um armário que ali encaixava perfeitamente e, quando foram prender o advogado, fizeram uma busca à casa, mas nada descobriram. Depois, como ela não arranjava emprego e o único dinheiro que ali havia era o do ordenado do marido, os amigos e vizinhos montaram uma rede de solidariedade, mas a senhora viu-se obrigada a vender ao desbarato a vivenda do casal.
Um ano depois de o advogado ter saído da prisão em 1981, perguntou ao dono da casa se podia tirar os livros, mas foi maltratado, por ele ser judeu e comunista. Anos depois da morte dos pais, em 2008, os filhos voltaram àquela casa, e o dono autorizou que tirassem os livros que ele nunca tinha encontrado. Tardou mais de trinta anos, que aqueles cinco irmãos recuperassem o seu passado e, com os mais de quinhentos livros, a sua verdadeira liberdade.
A segunda estória passa-se numa modesta livraria e foi contada pela encarregada, em curtas mensagens no twitter da livraria, aquele lugar de aprendizagem de vidas, de suas estórias e das maneiras de as contar.
Então foi assim: uma jovem obrigada pela precariedade em que os tempos lhe tinham mergulhado a vida, entra na livraria a pedir para lhe recomprarem os seus livros. Sabendo da situação, o rapaz com quem ela tinha começado a sair, decidiu comprar, um a um, todos os livros que ela ali ia deixando, para que aquelas obras não se perdessem, mas sem nunca o dizerem à jovem.
É uma estória simples e singela, porque a encarregada da livraria não chegou a contar nem, se calhar, o venhamos a saber algum dia, o tal final feliz que os livros ou uma pequena livraria, poderão trazer para o mau momento económico de uma jovem, e também para a calada e silenciosa reacção do rapaz, com certeza enamorado.
Esta poderá servir de conclusão para um ‘pensamento’ de Luís Castro Mendes, numa das crónicas semanais no DN, ‘A literatura aprendeu com os jornais que era mortal, ao mesmo tempo que os jornais iam aprendendo com o digital a mesma dura lição. Os jornais olhavam para além da literatura, a literatura habituava-se a passar sem os jornais. E, contudo, há leitores. Eles continuam a ler e a comprar livros. Eles interagem com os livros como todas as gerações fizeram, mesmo que hoje leiam no “kindle” ou no computador. Mas a verdade é que os leitores formam hoje, aos olhos da edição de massas, não um público, mas um mercado, não um sujeito que reage e sinaliza, mas um inerte objeto de marketing’.
Inércia que pode ser quebrada por pequenos e singelos gestos, como o que a segunda estória narra, tirada de umas mensagens do twitter, para terem ambas passado às páginas de um jornal e daí –quem sabe?– virem, também um dia, a obrigar a rodar a gráfica de uma editora.
Na verdade, são raros os objectos tão perfeitos como o livro clássico, com capa, páginas numeradas, com ou sem gravuras, com índice e, às vezes acompanhado de um marcador, de papel ou de cartolina, para saber onde terminou a leitura no dia anterior. Há quem diga que o digital se pode ler em qualquer ecrã e não ocupa espaço, mas faz da leitura uma corrida, aumenta o isolamento, e pouco ou nada fica para recordar.
Mas a livraria ou a biblioteca, maior ou menor, também é de cada um, por fazer parte da sua vida e até o ajudar a construir a própria biografia, resultados a longo prazo inatingíveis só no ecrã, com a leitura ajudada por emojis a fazer caretas do lado de lá da pantalha.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor