CARTA DE BRAGA – “dos paradoxos destes tempos” por António Oliveira
clara castilho
É uma sociedade paradoxal a nossa. Esta que nos impõe os paradoxos, tanto no lugar onde vivemos, como nos outros todos do mundo que nos rodeia, com familiares ou não, com amigos ou inimigos, mais alguns do mesmo clube ou de outros credos; creio poder falar assim, ao ver os modos como hoje se encaram as mutações sociais ou políticas, onde se dá maior cobertura mediática aos mileis ou aos macacos, mas que não impliquem leituras de textos com mais de uma página, e relacionados com temas sociais ou políticos, e só com uma antiguidade que não vá mais longe do que o ‘ontem de manhã’.
Vejo-me obrigado a recorrer a fontes que a grande maioria desconhece, mas é baseado nelas que consigo ir mais além do que os ‘Manhas de todas manhãs’, mais o canal que patrocina e os outros que também lhe seguem as regras e o imitam, uma vez que o ‘mercado’ é rei!
O filósofo italiano Franco ‘Bifo’ Berardi, escreveu há uns meses uma ‘Carta aberta aos hipócritas da Europa’, onde salientava, a propósito, ‘Houve um tempo em que se supunha que os filósofos eram os defensores da coerência ética e da decência intelectual. Esta tradição parece estar totalmente esquecida no panorama intelectual da Europa. O conformismo, a hipocrisia e a cumplicidade com malfeitores, substituíram a coragem intelectual’.
Mas começando pelas coisas mais comezinhas, o catedrático de filosofia Norbert Bilbeny perguntou também, num atrigo do princípio de Maio, ‘Por que é tão caro viver?’, para acrescentar logo a seguir, ‘Até os gorilas podem dispor do seu ninho na selva, sem ter de pagar a outro congénere por isso. Nunca uma casa foi tão inacessível, apesar de haver do norte e sul da Europa, centenas de milhar de apartamentos por habitar. Uma arma sem munição que algum dia se carregará, sem sabermos quem a disparará’.
Guilherme d’Oliveira Martins, presidente da Gulbenkian, escreveu ainda, e já este ano, ‘Disse um dia Jacques Delors, que alguns querem impor erradamente a tese segundo a qual o social seria um travão ao crescimento e competitividade’. Mas, acrescenta, ‘A economia ao serviço da pessoa humana é “crucial”. Por isso, não se pode ‘Aceitar que apenas os mecanismos do mercado determinem ao mesmo tempo o útil e o justo’.
O escritor e jornalista Martin Caparrós, explicou uma das razões da instalação mundial desse sistema de consumo obrigatório, ‘Os fabricantes de lâmpadas reuniram-se em Genebra, nos anos 20. Tinham em problema –as lâmpadas duravam para sempre– e optaram por uma solução que os viesse a ajudar, elas deveriam estragar-se com o tempo’; inventaram assim e ali, a obsolescência programada. Foi difícil, mas tinham de continuar a vender. Falta ver o que irá a acontecer quando os trabalhadores perderem os lugares devido à IA, que irá substituir certamente, uma parte considerável da máquina humana.
Um pouco afastado disto, mas não das nossas preocupações, o escritor israelita e também activista pela paz, Amos Oz, afirmou já em Outubro do ano passado, ‘O estado judeu vai fazer, qualquer dia, as pazes com o Islão, mas o seu conflito com o Ocidente cristão, tem todas os atributos da eternidade’.
Ainda a tocar noutro campo, que nos está extraordinariamente próximo, Miguel Romão, professor de Direito em Lisboa, escreveu numa das suas crónicas habituais no DN, ‘Quem deveria ser efectivamente pago de forma diferenciada, eram as pessoas que lidam com os temas decisivos, estilo vida e morte ou formar as próximas gerações, como os enfermeiros ou os professores. Mas, enquanto isso não acontece, e preferimos remunerar quem lida com dinheiro em vez de quem trata de pessoas, talvez devêssemos todos reduzir a dose de sonsice e de populismo, ao tratar destes assuntos’.
Termino esta série de paradoxos, expostos ou subliminares, com mais uma reflexão a propósito, esta de um cronista daqui ao lado, ‘Vou perguntar uma coisa algo populista, mas com uma valente dose de verdade: como aparecem a negociar o salário mínimo, pessoas que nunca perguntaram pelo limite para o salário máximo?’
A bon entendeur!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor