CARTA DE BRAGA – “do valor de um paradoxo” por António Oliveira

Um dos mais famosos paradoxos de toda a filosofia grega está contido numa curta pergunta, mas de resposta de resposta complicada, como todos os paradoxos Em que momento um montão de areia, se lhe tirarmos grão a grão, deixa de ser um montão? onde estará em jogo tanto o sentido comum como a universalidade do conhecimento sobre um qualquer tema. 

Mas podemos aplicar a mesma pergunta a outros campos da vida e da actividade humanas. Todos os anos morre muitíssima gente por causas, directa ou ındirectamente relacionadas com as alterações climáticas. Há estudos a apontar para as 250.000 por ano, mas a ver pelas crises energética e alimentar, parece que aquele número corre bem o risco de ser o montão a que arriscamos, nestes tempos, juntar muitos mais grãos, podendo mesmo criar mais montes e montões de humanos abandonados e perdidos. 

Há muito que cientistas, especialistas e estudiosos vêm avisando que esta crise global que nos amarfanha a todos, tem de ser avaliada tanto pelos efeitos imediatos, como pelas consequências a longo prazo. Aos primeiros, pertencem as devastações humanas e materiais que os media não conseguem esconder mesmo nos territórios onde os media não são livres e, aos segundos, a adaptação aos problemas criados pela ‘soberania’ da energia, as garantias da distribuição, a redução das emissões de CO2, um sistema de preços que não escandalize, como está a acontecer.

António Guterres, secretário geral da ONU não se cansa de criticar A humanidade tem de cooperar ou morrer, porque estamos numa corrida para o inferno com o pé no acelerador mas um acordo que envolva governos, empresas e cidadãos, pois todos fazem parte do tal monte de areia, de que se falou ao princípio e, acrescenta ainda, ‘Há uma clara ruptura na confiança entre o norte e o sul e entre os países desenvolvidos e as economias emergentes’, mas dando urgência às duas partes ‘para se porem de pé e enfrentar o maior desafio da humanidade, a alteração do clima’.

Aliás um grupo de onze investigadores do Reino Unido, China, Estados Unidos, Alemanha, Países Baixos e Austrália propõe, num artigo publicado há já algumas semanas na prestigiosa revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), dirigido à comunidade científica internacional e a todas as comunidades humanas, alerta para a obrigação e o dever de estudar a fundo a possibilidade da alteração climática chegar a um ponto realmente catastrófico, tanto pelo aumento da temperatura como pelo impacto ambiental, social e económico. 

O artigo tem o mesmo nome do projecto de investigação Climate Endgame e na versão reduzida daquela proposta, afirma-se ‘O aquecimento global pode acabar por ser catastrófico para a humanidade, se os aumentos de temperatura forem piores que as previsões dos modelos actuais, ou se o aquecimento provocar uma catarata de efeitos ainda não suficientemente estudados, ou ambas as coisas. O mundo necessita de começar a preparar-se para a possibilidade de um Final Climático, Climate Endgame’.

Os autores avisam ainda que o colapso climático agravaria provavelmente outras ‘ameaças interactivas’, desde o aumento da desigualdade e da desinformação até ao colapso democrático e, inclusivamente, a novas formas de armamento destrutivo. 

Também cabe bem salientar aqui, o último relatório da Intermon Oxfam, onde se informa que 2.153 multimilionários, possuem mais riqueza que 4.600 milhões de pessoas mais de metade da população mundial e, para além das justificações economicistas que este prodígio poderá gerar, o mais grave é que se ocultam as perversas disfunções sociais de que nunca se atrevem a falar, como da invisibilidade mediática dos mais desfavorecidos. 

Também é profundamente negativo aumentar o preço do dinheiro, para justificar uma possível baixa da inflação, em lugar de limitar os benefícios dos intermediários da distribuição e dos comissionistas, por dominarem e interferirem nos mercados, sabedores que um acordo entre países para estabelecer um regime fiscal comum, não passa de uma utopia, irrealizável nas actuais condições definidoras da globalização. 

Note-se que o arqueólogo Eudald Carbonell, salientou recentemente ‘A globalização é o maior erro da história humana’. Carbonell é bem conhecido pelos estudos da escavações de Atapuerca, declaradas Património da Humanidade pela UNESCO em 2000, devido aos testemunhos fósseis de pelo menos quatro espécies distintas de hominídeos – os restos do antepassado humano mais antigo da Europa, o Homo antecessor, a última espécie comum entre os Neandertal, o Sapiense o pré-neandertal, o Heidelbergensis

E retiro este pedaço da entrevista feita a Carbonell:

Como interpreta a nossa capacidade de travar efectivamente a alteração climática?

– Cremos que somos mui sapiens, mas não passamos de uma espécie imbecil. Os imbecis foram seleccionados pela evolução humana. A selecção natural elimina-os, a cultural protege-os. Não o critico, constato-o. 

Há alguma esperança de podermos aprender de maneira solidária, com consciência colectiva de espécie?

– A solidariedade e o altruísmo são inerentes à humanidade. Somos uma espécie cooperativa pois, de outro modo, a nossas crianças não sobreviveriam e as nossas sociedades não funcionariam.

E a globalização?

– É insustentável porque não resolve os problemas que gera. Não poderá subsistir”.

Manuel Castells, sociólogo e académico aqui do país ao nosso lado, talvez tenha uma resposta para todos estes paradoxos, ‘É a organização social dos humanos a induzir processos destrutivos múltiplos e entrelaçados. Não enfrentamos uma qualquer maldição, mas a nós mesmos, à nossa incapacidade de coexistir em paz. É tempo de voltar às origens, reconhecer a nossa humanidade comum e geri-la como um serviço público’. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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